Francineth Germano, a dama do samba, regressa aos palcos

Aos 78 anos, a herdeira musical de Elizeth Cardoso volta a se apresentar depois de duas décadas sem cantar e lança álbum independente

A cantora Francineth Germano.
A cantora Francineth Germano.Vinicius Terror

A nobreza popular que caracteriza Francineth se reflete em sua postura na poltrona de um hotel três estrelas no centro de São Paulo. É séria e muito educada. Marca os silêncios antes de responder e, quando o faz, seus olhos muito escuros, sempre marcados com um lápis preto ("Sou muito vaidosa", diz), quase antecipam suas palavras. Só ri quando canta e chega a gargalhar ao relembrar as anedotas de sua longa carreira, que começou aos 11 anos, no sertão do Rio Grande do Norte. O pai era acordeonista, a mãe e a irmã cantavam na igreja, ela era a desafinada da família. "Uma vez, passeando com umas amigas em Santa Cruz de Inharé [sua cidade natal], comecei a cantar uma musiquinha e as meninas me acompanharam. Minha mãe ouviu, apontou para mim e disse: 'A voz daquela ali sobressai, ela canta mal, desafina direto'", conta.

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Três anos depois, aos 14 anos, a desafinada assinava seu primeiro contrato como cantora na Rádio Poti, em Natal. Aos 19, se mudava para o Rio de Janeiro, onde a primeira parada foi o legendário programa de calouros de Ary Barroso, de onde saiu com a nota máxima e portas abertas para cantar nas boates da moda na noite carioca. Foi na badalada Bom Gourmet que Francineth chamou a atenção de Elizeth Cardoso, que elegeu-a como sua sucessora e de quem herdou o título de dama do samba. Francineth guarda até hoje, "com muito carinho", o recorte de uma manchete da época, em que se lê "Era Elizeth, agora é Francineth".

De mãos dadas com a madrinha, Fran —como insiste em ser chamada— cantou na orquestra do Maestro Moacyr Silva e gravou LPs com a Copacabana Records. Dessa época é o LP definitivo de sua carreira, Viva o Samba, que tinha na linha de frente um quarteto de ouro composto por ela, Elizeth, Ciro Monteiro e Roberto Silva, cantando os sambas de quadra das maiores escolas do Rio de Janeiro. Nele está a primeira composição de Dona Ivone Lara. A partir dali, surgiu o convite para integrar As Gatas, liderado por Dinorah Lemos e considerado por alguns críticos o melhor coro de carnaval de todos os tempos.

Como esse grupo, Francineth viveu uma das melhores experiências de sua carreira: gravar com Paul Simon. "E bota experiência nisso! Ele nos mostrava as notas mágicas que fazia e a gente tinha que imitar. Como ele não conseguia pronunciar meu nome, mas dizia que eu cantava muito bem, me chamava de Frank Sinetra", lembra ela com uma sonora risada.

Depois do período de glória, ela não sabe bem por quê, tudo desandou. E começou o período de mais de 20 anos longe do primeiro plano dos palcos. "Não conseguia fazer shows sozinha, então parei porque precisava ganhar dinheiro". Fez vocal na orquestra de Roberto Carlos, encorpou o coro do primeiro LP de Zeca Pagodinho —que agora faz participação especial no novo disco da cantora— e gravou com outros artistas do cacife de Gonzaguinha, Beth Carvalho, Elba Ramalho, João Nogueira, Ivan Lins, Ney Matogrosso e Paralamas do Sucesso. "Era só me chamar, que eu estava lá", diz.

"Também trabalhei durante dois anos numa fábrica de jingles. Conheci gente muito legal, como o Toninho Nascimento, Miguel Gustavo, autor do hino da Copa de 1970. Era uma época em que a publicidade tinha uma grande qualidade musical”, relembra. “Coloquei voz em diferentes comerciais, fiz as vinhetas da TV Excelsior, mas ficava de 10h às 19h trancada no estúdio, escrevendo e gravando jingles. Minha voz só aguentou e aguenta até hoje por causa do cigarro”, brinca com uma gargalhada.

Quando ela cansou, achou que já não dava mais, largou a música. Só de vez em quando, como ela conta, entrava em um bar onde tocavam forró para cantar Pau de Arara, o clássico de Luiz Gonzaga. O artista paulistano Tuca Pellegrino, a quem conheceu há 10 anos, reacendeu a paixão de Francineth pelo samba. Foi como na canção de Dona Ivone Lara, que começou tudo:

Não, eu não posso lembrar

Daquele amor que não volta mais

Fico com os olhos rasos d'água

Peço a Deus que um dia faça ela voltar

Francineth Germano e os Batuqueiros e Sua Gente.
Francineth Germano e os Batuqueiros e Sua Gente.Miro Parma

Graças ao amigo, ela aproximou-se dos jovens artistas que formam os grupos de samba de São Paulo, como o Grupo Glória ao Samba, o Cupinzeiro Núcleo de Samba e os Batuqueiros e sua Gente. Com estes últimos fez um show em 2015, e não se separaram desde então. "Antes eu estava sozinha, isolada, e eles me acolheram. Eles dizem que sou a mestra deles, mas eles que me dão uma lição de vida. Minha vida hoje está entregue aos Batuqueiros, porque só agora estou me realizando como profissional", agradece.

"Ela é um dos pilares do samba brasileiro. Tínhamos que reverenciá-la, por isso gravamos o álbum [inteiramente financiado pelos próprios artistas]", diz Allan Abadia, trombonista dos Batuqueiros, que conhece Francineth há anos, dos encartes dos discos mais importantes da história do samba. O nome dela aparece em quase todos. E deve aparecer em mais. O primeiro álbum independente, lançado no dia 19 de janeiro na internet, deve ganhar versão física, com shows de lançamento entre março e abril, e o grupo já planeja outra gravação para o ano que vem. Foram lhe chamar. Ela está aqui.

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