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Venezuela prende a respiração à espera de uma definição política

País retorna a uma aparente normalidade depois da grande passeata da oposição. Anúncio de Guaidó multiplica expectativas de seus seguidores

Manifestante participa de protesto em Caracas.
Manifestante participa de protesto em Caracas. EFE

A Venezuela retornou na quinta-feira a um aparente estado de normalidade, um dia depois das manifestações oposicionistas que mobilizaram centenas de milhares de pessoas e do início de um processo de transição proclamado por Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional. O trânsito voltou a fluir em Caracas, e nos arredores da praça da Altamira, símbolo dos adversários do chavismo, os distúrbios e os bloqueios viários deram lugar novamente à rotina. Mesmo ao atravessar o bairro popular de Catia, cenário de saques e violentos confrontos nos últimos dias, não se percebia o nível de tensão que precedeu à manifestação.

A jornada da quarta-feira representou um ponto de inflexão no choque entre a oposição e o Governo de Nicolás Maduro, mas agora o país prende a respiração perante uma etapa cheia de incógnitas. O anúncio de Guaidó, que se proclamou presidente interino e imediatamente recebeu o apoio incondicional dos Estados Unidos, Brasil e demais potências da região, com a exceção do México, multiplicou as expectativas de milhões de venezuelanos fartos do regime. A viabilidade de uma nova etapa depende agora do desenrolar desse movimento, que deixou de ser estritamente simbólico ao ter consequências políticas.

Os últimos anos foram marcados na Venezuela por uma perda dos rumos institucional sem precedentes. Nesse período houve dezenas de manifestações e datas simbólicas com as quais a oposição buscava a quebra do regime. Todas elas ficaram em meros sobressaltos. O chavismo e as Forças Armadas, que desta vez levaram algumas horas para qualificar como “golpe de Estado” a declaração de Guaidó, sempre conseguiram restabelecer sua própria ordem. E a população, inclusive enormes setores das classes populares, ia incubando cada vez mais frustração. Entretanto, desde os protestos de 2017 não se via no país uma amostra de indignação coletiva com estas características. As que começaram nesta semana já deixaram mais de 25 mortos e aproximadamente 300 detidos.

A diferença é que hoje a oposição afirma ter um plano mais definido e um apoio internacional que vai além das declarações de solidariedade. “Irmãos e irmãs, estamos dando passos importantes, fazendo o que devemos fazer para obter um Governo de transição e ter eleições livres. Recordem sempre que, se resistirmos e insistirmos, esta luta valerá a pena”, afirmou o presidente da Assembleia Nacional, o Parlamento eleito em 2015, que continua funcionando apesar de ter sido há dois anos privado de seus poderes pelo chavismo.

Em que se traduzem esses passos? Como disse Guaidó em sua conta do Twitter, já se trata de “resultados concretos”. Em primeiro lugar, o envio de 20 milhões de dólares para ajuda humanitária, anunciado pelo secretário de Estado norte-americano. Em segundo lugar, ter recebido o respaldo de outra instituição que garante o acesso a recursos nas Américas. “O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) manifesta sua vontade de trabalhar com o presidente interino da Venezuela para assegurar a continuidade de nosso apoio ao desenvolvimento do povo venezuelano”, disse Luis Alberto Moreno, responsável por essa instituição. Soma-se a isso o reconhecimento por parte dos Governos dos EUA, Canadá, Brasil, Colômbia, Argentina, Peru, Equador e Chile.

Acusações de Maduro

Frente ao aumento da pressão internacional e interna, Maduro, apoiado pelas Forças Armadas, lançou nesta quinta-feira algumas acusações habituais. “O Governo dos EUA está empurrando a direita opositora a um estado de loucura, violência e caos”, disse. O sucessor de Hugo Chávez, que no último dia 10 tomou posse de um segundo mandato que a oposição considera ilegítimo, convocou a população, as comunidades e as famílias a se tornarem “defensores ativos da paz”. Ordenou que todos os diplomatas norte-americanos deixem o país até domingo, e anunciou o regresso dos funcionários venezuelanos nos EUA.

O líder chavista, que conta com o apoio político da Rússia, China e Turquia, dirigiu-se também aos presidentes do México, Andrés Manuel López Obrador, e do Uruguai, Tabaré Vázquez, para lhes agradecer por sua postura a favor de um processo de negociação. “Digo ao Governo do México e ao do Uruguai: estou de acordo com uma iniciativa diplomática de diálogo”, prosseguiu, durante a inauguração do ano judicial. E deixou claro a todos que continuará no poder pelo menos até 2025. “Pretendem impor um Governo paralelo, um Governo de palhaços”, enfatizou. “O Governo que presido continuará governando (…). Continuaremos governando, aplicando a lei.”

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