Seleccione Edição
Login

Rússia e China, contra a “ingerência estrangeira” na Venezuela

EUA lideram o apoio ao oposicionista que se autoproclamou presidente do país sul-americano.

Enquanto China, Rússia e Turquia apoiam Maduro. A UE e a ONU pedem diálogo

A autoproclamação de Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela provocou uma onda de reações internacionais. Os Estados Unidos, o Brasil e o Canadá se apressaram em dar um passo adiante em favor do oposicionista. Enquanto isso, a Rússia e a China, os principais aliados do regime chavista, deram seu forte apoio a Nicolás Maduro e advertiram os EUA que se oporão a uma “intervenção militar” para apoiar Guaidó. Moscou demonstrou forte apoio público a Maduro, que definiu como “parceiro estratégico”, e deixou claro que o apoiará. O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, falou em “pseudogolpe apoiado por líderes de vários países”. “Ninguém tem o direito de depor o chefe de Estado com métodos ilegais”, disse o líder da Rússia, que se colocou à frente do bloco de países — além de China, Turquia, Bolívia, Nicarágua e Irã — ao lado de Maduro. Outros, como a UE, Espanha, México e a ONU, pedem diálogo.

Guaidó, de 35 anos, apelou na quarta-feira à sua condição de presidente da Assembleia Nacional para forçar a saída do presidente Nicolás Maduro ao considerar ilegítimo o segundo mandato do líder chavista. Centenas de milhares de venezuelanos foram às ruas de Caracas na quarta-feira para protestar contra o regime. Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, 16 pessoas morreram nos protestos. Estas são as principais reações à crise venezuelana que divide o mundo:

Países que apoiam Juan Guaidó

Apenas alguns minutos depois da declaração da Guaidó em Caracas, o presidente dos EUA, Donald Trump, divulgou um comunicado no qual reconheceu o oposicionista como presidente da Venezuela. O Governo norte-americano também pediu a Maduro que deixe o poder, alertando-o de que “todas as opções” estão sobre a mesa se ele recorrer à força para reprimir os oposicionistas. O líder chavista não demorou a responder e anunciou a ruptura de relações diplomáticas com Washington.

Maduro anunciou a ruptura de relações diplomáticas entre a Venezuela e os EUA, mas Washington ignora suas ameaças

Mas o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, disse na quarta-feira que como a Casa Branca não reconhece Maduro, este não tem autoridade para romper relações diplomáticas.

Em seguida alguns dos principais Governos da América Latina se pronunciaram. Onze dos 14 países que compõem o Grupo de Lima, um organismo multilateral criado em 2017 para ajudar a resolver a crise venezuelana, também reconheceram a legitimidade de Guaidó como presidente da Venezuela. Os Estados que reconheceram a legitimidade do autoproclamado “presidente interino” da Venezuela são Brasil, Canadá, Argentina, Peru, Colômbia, Chile, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Panamá e Paraguai. No caso do Brasil, seu presidente, o ultradireitista Jair Bolsonaro, fez uma reunião no início deste mês com o norte-americano Mike Pompeo em Brasília em que falaram em restaurar a “governança democrática e os direitos humanos” na Venezuela, mostrando assim sua rejeição ao regime chavista.

Em vídeo, declarações de Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia.

Lenín Moreno, presidente do Equador, país que não pertence ao Grupo de Lima, também mostrou seu apoio à Guaidó, mas pediu a realização de eleições.

Por sua parte, Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que sempre foi muito crítico com Maduro, cumprimentou Guaidó no Twitter. A OEA já anunciou que nesta sexta-feira fará uma reunião extraordinária para tratar de crise venezuelana.

Os fiéis aliados de Maduro

“Maduro, irmão! Fique firme, estamos com você”, disse Erdogan ao líder chavista

A Rússia, um dos maiores aliados de Maduro, ao qual apoiou com ajuda financeira na forma de empréstimos milionários e investimentos nos setores petrolífero e militar, fez uma enérgica defesa do regime chavista. “Consideramos que a tentativa de usurpar o poder da Venezuela contradiz os princípios do direito internacional”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, em entrevista coletiva. O Ministério das Relações Exteriores russo, chefiado por Sergey Lavrov, que está em viagem oficial à Argélia, também criticou a “ingerência estrangeira” e disse em um comunicado que pode derivar em uma catástrofe e até mesmo em “derramamento de sangue”.

“Consideramos as supostas ações de Washington como mais uma demonstração de seu total desprezo pelas regras e princípios do direito internacional e uma tentativa de desempenhar o papel assumido pelo árbitro do destino de outros povos”, disse o Ministério das Relações Exteriores russo. “Existe um desejo óbvio de aplicar na Venezuela os cenários experimentados ao longo do tempo para derrocar Governos não desejados”, acrescentou o ministério liderado por Lavrov.

Entre os anos de 2001 e 2011, a Venezuela se tornou um dos principais clientes mundiais da indústria russa de armamentos. Em dezembro, Moscou enviou dois bombardeiros TU-160 com capacidade nuclear ao país em uma demonstração de apoio. Embora o principal investidor no país sul-americano seja a China, o Governo russo aportou à Venezuela desde 2006 ao menos 17 bilhões de dólares (cerca de 64 bilhões de reais) na forma de empréstimos, linhas de crédito e investimentos.

China e Rússia denunciam “ingerência estrangeira” na crise venezuelana e apoiam Maduro

A China mostrou seu apoio ao líder chavista e censurou a “intrusão” dos EUA nos “assuntos internos” do país sul-americano. “A China apoia os esforços do Governo da Venezuela para manter sua soberania, independência e estabilidade”, disse na quinta-feira a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Hua Chunying. “No dia 10 de janeiro, a China e muitos outros países e organizações internacionais enviaram representantes para a cerimônia de posse do presidente Maduro”, acrescentou Hua. Em maio, o sucessor de Hugo Chávez venceu eleições questionadas pela falta de garantias democráticas e observadores independentes.

Na mesma linha se manifestou Evo Morales. O presidente boliviano responsabiliza os EUA por “promover um golpe de Estado” na Venezuela. Por sua parte, o ministro das Relações Exteriores cubano Bruno Rodríguez tuitou: “Firme apoio e solidariedade de Cuba com o presidente constitucional Nicolás Maduro diante desta tentativa de golpe”. Cuba exerceu enorme influência sobre Hugo Chávez e Havana contou com a ajuda financeira de seu aliado, que é o país com as principais reservas de petróleo do mundo.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, telefonou ao colega venezuelano na noite de quarta-feira para manifestar seu apoio, segundo informou o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlüt Çavusoglu. “Maduro, irmão! Fique firme, estamos com você”, disse Erdogan. O país eurasiano é um importante fornecedor de alimentos e outros bens à nação sul-americana. Além disso, há investimentos turcos na indústria petrolífera da Venezuela, segundo a agência EFE.

O Executivo nicaraguense, aliado do Governo do Maduro na região, transmitiu sua “solidariedade” ao presidente com estas palavras. “Irmanados na Alba, somos todos Venezuela. América Latina caribenha, berço de grandes e luminosos seres, reivindica dignidade e grandeza frente ao império norte-americano”. Tanto o regime sandinista quanto o chavista arrastam uma crise institucional e social com mobilizações de grande parte de seus cidadãos contra os respectivos Governos que foram duramente reprimidas. E que lhes valeram a rejeição da maioria de seus vizinhos americanos.

Posição intermediária e chamados ao diálogo

Os três membros do Grupo Lima que não reconheceram o oposicionista Juan Guaidó como presidente da Venezuela foram México, Guiana e Santa Lúcia.

O porta-voz do Executivo mexicano de Andrés Manuel López Obrador disse ao EL PAÍS que “no momento não há mudança de postura” em relação à crise da Venezuela, informa Javier Lafuente. O México se ampara no princípio da não intervenção. O Executivo de López Obrador se ofereceu em mais de uma ocasião para ser mediador nas crises da Venezuela e da Nicarágua. Milhares de venezuelanos que vivem no país norte-americano saíram às ruas na quarta-feira para rejeitar a atitude ambígua de AMLO e pedir que se manifeste abertamente em favor de Guaidó. O México também divulgou um comunicado conjunto com o Uruguai, o outro país sul-americano que permanece neutro em relação a Guaidó, em que ambos pedem que os dois lados “reduzam as tensões e evitem uma escalada de violência”.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, apelou desde o Fórum de Davos para a “contenção e o diálogo”. Guterres enfatiza a necessidade de evitar qualquer onda de violência no país.

A UE também pediu uma saída dialogada e se reserva o apoio a Guaidó. A unidade do clube europeu frente a Caracas corre o risco de voar pelos ares depois do assalto ao poder do atual presidente da Assembleia Nacional. O presidente da Eurocâmara, Antonio Tajani, que na quarta-feira já havia manifestado seu apoio a Guaidó, pede que Maduro evite a violência contra os manifestantes.

Entre os estados da UE, o Reino Unido apoiou claramente o autoproclamado presidente da Venezuela. “O Reino Unido acredita que Juan Guaidó é a pessoa certa para levar a Venezuela adiante”, defendeu o ministro das Relações Exteriores, Jeremy Hunt, na quinta-feira. O presidente francês, Emmanuel Macron, exaltou na quinta-feira a “coragem” dos venezuelanos que saem às ruas e “caminham por sua liberdade”. Além disso, qualificou de “ilegítima” a eleição de Nicolás Maduro no ano passado e disse que “a Europa apoia a restauração da democracia”. No entanto, Macron evitou fazer qualquer menção a Juan Guaidó, em linha com a postura cautelosa adotada por Bruxelas em relação ao presidente da Assembleia Nacional e presidente interino autoproclamado da Venezuela, informa Silvia Ayuso de Paris.

O presidente espanhol, Pedro Sánchez, telefonou para Guaidó e pediu-lhe que convocasse eleições democráticas

O presidente do Governo espanhol (primeiro-ministro), Pedro Sánchez, conversou por telefone de Davos com o autoproclamado novo presidente da Venezuela e transmitiu-lhe a mensagem de que eleições democráticas e transparentes são a saída “idônea e natural” para a crise naquele país. Sánchez transmitiu a Guaidó sua “empatia” pela “coragem” demonstrada pelo líder oposicionista em sua tentativa de “representar a vontade dos venezuelanos”, informa Carlos E. Cué. O ministro das Relações Exteriores espanhol, José Borrell, se mostrou extraordinariamente cauteloso na quinta-feira com relação à posição da Espanha: “Devemos lembrar que 200.000 espanhóis vivem atualmente na Venezuela”, informa Jesús Ruiz Mantilla.

MAIS INFORMAÇÕES