Trump, um homem preso em seu muro

Como aquilo que nasceu como um símbolo para se conectar com as bases se tornou o centro da agenda política do presidente

O presidente Donald Trump diante da entrada do Capitólio.
O presidente Donald Trump diante da entrada do Capitólio.CHIP SOMODEVILLA (AFP)

Mais informações

O muro de Trump entrará na história como um prodígio do marketing político e um paradigma dos perigos que implica levá-lo às últimas consequências. A ideia foi forjada na excêntrica corte de assessores do magnata imobiliário quando este começou sua corrida presidencial, por volta de 2014. A indisciplina do candidato, incapaz de se ater a um roteiro, levou seus conselheiros a buscar um slogan para garantir que falasse sobre imigração, um assunto que tinham identificado como o cavalo vencedor que o levaria à Casa Branca.

Assim lembrou Sam Nunberg, um dos assessores do candidato, no The New York Times. “Como podemos levá-lo a continuar falando sobre imigração?”, diz ter perguntado a Roger Stone, outro assessor. “Vamos fazê-lo falar sobre construir um muro”, decidiram.

A ideia funcionou. Ela se encaixava perfeitamente com a personalidade do candidato, partidário de mensagens simples, e apelava ao construtor que é. “Acho que ele ouve o bip, bip, bip de um caminhão betoneira dando marcha a ré, o produto sendo vertido e o muro crescendo, e ele não consegue resistir a isso. Ele adora”, disse no mesmo jornal Michael D’Antonio, jornalista e biógrafo de Trump.

O candidato fez seu o slogan e este se tornou o cabo que o conectou com seus eleitores. Em auditórios de todo o país, Trump era recebido com o grito de “Construa o muro!”. O problema é que Trump ganhou as eleições e seus acólitos não tiraram as camisetas do muro. O presidente, que não conseguiu aumentar seu espectro de eleitores nestes dois anos, precisa manter suas bases em guarda. E nada os mobiliza mais do que o muro.

“No início, era apenas uma imagem que falava de segurança na fronteira, mas logo se tornou um símbolo eficaz da necessidade de lutar contra a imigração, o comércio, o terrorismo... de frear a globalização e enfrentar todos os seus males. O problema é que Trump acabou completamente ligado a um muro que começou como uma poderosa peça de simbolismo”, diz Andrew Selee, presidente do Instituto de Política Migratória, um think tank.

Acontece que os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e o país começa agora uma nova fase de poder compartilhado. Não financiar o muro, para os democratas, é um símbolo de resistência. Assim, a disputa provocou uma paralisação parcial do Governo que está prestes a se tornar a mais longa desde 1980. Nesta mesma quarta-feira, o presidente abandonou repentinamente uma nova reunião com os líderes democratas do Congresso para tentar encontrar uma saída, reunião que definiu como “total perda de tempo”. Depois de quatro anos falando sobre o assunto, o presidente está preso em uma armadilha que ele próprio armou.

O muro se tornou o elemento definidor da presidência de Trump e o mais notável é que nem mesmo o setor duro o vê como prioridade na luta contra a imigração. “Mesmo os mais radicais entendem que a construção de um muro, com o enorme investimento que exige, não deteria a imigração com a mesma eficácia que outras medidas. A prioridade para eles é impedir que os imigrantes entrem no sistema legal”, diz David Bier, analista de política migratória do Instituto Cato.

Além disso, adverte Bier, para acabar com a paralisação do Governo e para poder ser proclamado vencedor, sua desmedida com o muro “poderia obrigar o presidente a fazer concessões em outras áreas que são consideradas prioritárias”. Por exemplo, regularizar a situação legal dos imigrantes sem documentos que chegaram ao país quando crianças, conhecidos como dreamers, um pedido reiterado dos democratas.

O presidente, como ficou claro em sua mensagem à nação na terça-feira, justifica agora seu pedido de financiamento para o muro, alegando “uma crise humanitária e de segurança”. Uma crise, disse, “do coração e da alma”. E mantém a ameaça de declarar uma “emergência nacional” para construir o muro.

Fala de crimes cometidos por imigrantes sem documentos, de um fluxo de terroristas e de drogas que provoca a epidemia de opiáceos que sofre o país. Tudo com uma frágil base factual: nem os imigrantes sem documentos cometem mais crimes do que os nacionais, nem há rastro de terroristas se esgueirando pela fronteira, nem o grosso dos opiáceos são introduzidos pelas pessoas que a atravessam ilegalmente.

Quando o presidente começou a falar do muro, a imigração ilegal estava em seu nível mais baixo em quase meio século. Hoje, por outro lado, é mais justificável falar em crise: a chegada maciça de famílias solicitando asilo, combinada com a exigência do Governo de que permaneçam em reclusão até que seu pedido seja resolvido, saturou os centros de acolhida.

“Os números de prisões na fronteira continuam estáveis desde 2014, o que mudou é que cada vez mais crianças e famílias estão chegando, e mais centro-americanos e menos mexicanos. O mexicano que cruzava costumava ser um indivíduo sozinho, os centro-americanos tendem a vir com a família. Em novembro, houve mais guatemaltecos detidos na fronteira do que mexicanos. Algo que chama a atenção, considerando que é um país situado a cinco mil quilômetros de distância e com 16 milhões de habitantes, comparados com os 130 milhões do México”, explica Selee. “Mas a verdade é que a maioria das pessoas sem documentos não entra cruzando ilegalmente, mas chega legalmente e fica mais tempo do que o permitido. É por isso que o muro é uma solução do século XX para um problema do século XXI”, conclui.