Tabata Amaral: “Defender ética, inclusão e responsabilidade fiscal me faz apanhar de todos”

Deputada em primeiro mandato reclama do filtro ideológico que levou a quase zero o investimento em diversas frentes da educação e fala dos ataques virtuais da esquerda

A deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP), em entrevista ao EL PAÍS, no Congresso Nacional.
A deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP), em entrevista ao EL PAÍS, no Congresso Nacional.CADU GOMES

Quando percebe que parte das perguntas da entrevista trata do tema educação, a deputada Tabata Amaral (PDT-SP) já avisa: “Falo demais sobre educação. Aí, você vai me cortando”. Ela tem o jeito despachado dos jovens, daqueles que sacodem a mão do interlocutor como se estivesse cumprimentando um antigo amigo. E uma fala ligeira e empolgada, que às vezes atropela uma ou outra palavra. Aos 26 anos, tem se destacado em seu primeiro mandato no Congresso Nacional.

Há oito anos, quando ainda estava no ensino médio, ela mal sabia o que fazia um parlamentar, conta. De lá para cá, passou a viver menos tempo na periférica Vila Missionária, na zona sul de São Paulo, graduou-se em astrofísica e ciência política na universidade de Harvard, participou da fundação dos movimentos Mapa Educação e Acredito, e elegeu-se com a sexta maior votação em São Paulo. Hoje, discute com ministros da pasta, negocia alterações em reformas fiscais com governistas e membros da bancada da bala. E também recebe muitas pancadas, quase sempre pelas redes sociais. “Só fui abordada na rua duas vezes este ano inteiro.”

Entre seus principais agressores, estão militantes ou colegas de partidos de esquerda que, inicialmente, a viam como uma nova liderança nesse espectro político. A principal razão das agressões foi seu voto favorável à reforma da Previdência. “Estávamos empenhados em mudar o texto. Quando vimos que os acordos foram construídos, não tinha como não votar.” Essa votação causou um racha também com o seu partido, o PDT, do qual ela está de saída. Indagada quem são suas referências na política, cita duas figuras estrangeiras —a ex-primeira-dama americana, Michelle Obama, e a ativista paquistanesa Malala Yousafzai—, além de duas brasileiras —as deputadas Joênia Wapichana e Soraya Santos. A seguir, os principais trechos da entrevista dada ao EL PAÍS.

Pergunta. Acredita que este será um ano perdido para a educação?

Resposta. Acho que sim. Na nossa interpretação vem sendo um ano perdido para a educação por várias razões. Uma delas foi porque o Governo age com força no discurso ideológico, mas realmente cruza os braços para a educação. Quando a gente fala das coisas mais práticas, que chegam aos professores e alunos, ele falhou.

P. Pode dar exemplos?

R. No relatório da Comissão Externa da Educação da Câmara apontamos que muitos projetos importantes ficaram com execução orçamentária próximo de zero. Não tem ideologia que explique isso. Você pode concordar ou discordar da ideologia, eu no caso discordo. Mas a gente tentou dar um passo à frente. Na comissão olhamos para questões técnicas. Olhamos a execução orçamentária dos projetos e encontramos um projeto de ensino de jovens e adultos próximo de zero. Outro, com 1% de execução. Quando a gente olha para alfabetização, que deveria ser o carro chefe do Governo, nota-se que a última ação que teve foi uma reunião para se discutir a metodologia. Ou seja, neste ano não chegou nenhuma diretriz para secretários ou prefeitos. Para ficar claro, como deputada, como cidadã, eu discordo da visão de mundo do ministro. Acho que ele tem prioridades completamente erradas. Essa fumaça toda está muito longe de ser o problema do Brasil. O que falta na ponta não é uma ideologia diferente, é carteira, é formação de professor, um monte de coisa. Independentemente disso, na comissão tomamos o cuidado de comparar com um Governo de direita, que foi o do Michel Temer, e com um de esquerda, o da Dilma Rousseff, ele falhou em todos os aspectos comparados com os dois. No MEC temos a equipe com menos formação, tem o menor número de pessoas com doutorado, por exemplo, é o ministério com maior número de vagas em aberto, maior rotatividade do quadro de funcionários. São várias as razões. Tem de deixar isso claro sobre as pessoas.

O que falta na ponta não é uma ideologia diferente, é carteira, é formação de professor

P. Qual é a avaliação que faz da gestão Abraham Weintraub? Consegue dar uma nota a ela?

R. Zero. Talvez, um. Fico só preocupada que não estou aqui só marcando um posicionamento de oposição. O relatório deste quase um ano mostra que não é só um discurso. São mais de 200 páginas, foram 12 visitas a secretarias, autarquias, mais de 30 requerimentos de informação. Trabalhando com dados oficiais, eu tenho dificuldade em dizer onde eles avançaram. Não vejo o que há de positivo na atual gestão do MEC.

P. Afinal, foi corte ou contingenciamento no Orçamento da educação?

R. Tivemos um pouco dos dois. Quando falamos de contingenciamento, é uma prática normal de governos. O dinheiro dos impostos às vezes entra mais em um mês do que no outro. Então, não conseguiríamos liberar todo o caixa previsto para aquele ano para universidades, por exemplo. Isso é contingenciar. Agora, você diminuir o Orçamento, isso é corte. E tivemos dos dois. E os dois foram chamados de contingenciamento. Então, foi mais uma confusão feita para uma população que nunca aprendeu sobre política na escola, para que ela não entendesse. Muito do que o MEC chamava de contingenciamento era corte. O orçamento da educação disponível e executado foi menor ao longo do ano.

P. Há uns dez anos você estava deixando o ensino médio. E disse que, naquela época, não tinha aprendido o que fazia um deputado ou um vereador. Como é estar na Câmara fazendo política?

R. Eu saí do ensino médio há um pouco menos de tempo atrás. Terminei o ensino médio faz oito anos. Eu tive a oportunidade de estudar em uma das melhores escolas de São Paulo. Minha realidade, no ensino médio, foi completamente diferente da realidade do país. E, ainda assim, eu saí sem saber o que fazia um vereador, como funcionava o Congresso, quem cuidava da linha de ônibus, quem definia qual material didático nós usaríamos na sala de aula... Eu nunca me vi na política na minha adolescência. Eu não sabia que pessoas que moravam em ocupações, que vinham da periferia, como eu, poderiam ser da política. Quando você liga no noticiário, vê um monte de homens mais velhos, e eu não me identificava com eles, sou mulher, sou jovem. E a gente não sabe como funciona a política. Não sabe como funciona uma campanha, não sabe quais são os partidos, eles não recrutam a diversidade do Brasil, sempre buscam as mesmas pessoas. Acho que se a gente tivesse uma formação cívica e política nas escolas contribuiria para a democracia. Cada um com seu posicionamento, sua opinião, mas todo mundo bem informado.

P. Por qual razão o Brasil estagnou na avaliação PISA?

R. São várias as razões. Meu pai dizia: na minha época, escola pública era escola de rico. A gente ouvia isso porque era verdade. No passado, apenas a elite tinha acesso à escola pública. No caso do meu pai, que foi criado pelos tios, que não tinham uma educação de qualidade, não tinha como chegar em uma escola pública, ele parou na metade do ensino fundamental. E hoje, o que a gente fez com o país? Colocamos quase todo mundo na escola, especialmente no ensino fundamental. Aí, tivemos de lidar com coisas que não existiam antes, famílias em sua maioria guiadas apenas pela mãe, famílias que não conseguem falar com os filhos sobre profissões, sobre ensino médio porque nunca viveram essa realidade, crianças que chegam com deficiências e dificuldades diferentes. Ficou muito mais complexa uma sala de aula. Educar uma elite que tinha pais com formação acadêmica é uma coisa. Educar todo mundo em sua diversidade requer muito mais. Nesse meio do caminho, a gente não olhou para os professores. Cada vez mais, teve que se recrutar muita gente e não teve formação. Fora que boa parte dos professores hoje é formado por ensino a distância (EaD). Você não iria a um médico que se formou assim. Por que precisa entregar seu filho para um professor que passou por um EaD? Esses profissionais aprendem sobre história da educação, que é importante, mas não aprendem a prática da sala de aula. Não aprendem a lidar com 40 crianças correndo, com diferentes inteligências.

P. Nesse contexto estaria também a remuneração dos professores?

R. O maior mal do Brasil não é o salário do professor. É não haver uma progressão na carreira. Não estou dizendo do salário inicial, mas da falta de perspectiva. Se eu me formar, se eu aprender, se eu der resultado, eu vou crescer na carreira, vou ser valorizado. Na minha visão, a gente colocou todo mundo na sala de aula, ficou mais complexo, e não olhou para os professores. Acho que esses dois ingredientes explicam 80% da estagnação na qualidade. E, como país, a educação nunca foi prioridade. As pessoas aprenderam a repetir que educação é importante, mas uma população em que 7 em cada 10 são analfabetos funcionais, será que as pessoas realmente sabem o que é educação? Meus pais não tinham a menor condição de saber que eu não estava aprendendo frações na idade certa.

P. Falta dinheiro para educação?

R. Falta dinheiro em alguns lugares e falta gestão em quase todos. A gente tem uma distribuição de verbas na educação básica que é muito desigual. Aí, entra a discussão do Fundeb [fundo para a educação básica]. No meu entendimento, sem uma complementação maior da União, sem distribuição maior, ainda haverá municípios sem condições de fazer o básico. Tem município com menos de 300 reais por aluno por mês para pagar professor, para pagar transporte. Quero ver qual escola particular faz isso. Tem um levantamento que mostra que, se conseguirmos atingir o valor de 4.300 reais por ano para cada aluno por escola, sabemos que retiraremos a desigualdade por causa de financiamento. A partir daí, é gestão. Aí, olhamos para municípios como Foz do Iguaçu (PR), Sobral (CE) e outras do Ceará e de Pernambuco que estão conseguindo fazer bem com pouco dinheiro.

P. Uma PEC recente do Governo prevê a flexibilização dos gastos com saúde e educação. Qual é a sua posição?

R. Sou contrária a ela. Sou ativista pela educação desde os nove anos. Já organizei abaixo-assinado, protesto, trabalhei em secretaria e aprendi que a educação sempre perde na briga. Justamente porque não temos uma cultura que valoriza a educação, pois as pessoas não estudaram. Estamos com uma população que só envelhece. A medicina cada vez mais cara. O que você prefere no curto prazo: um remédio para diabetes ou uma educação de qualidade para o seu filho? Se a gente como Estado não disser: “educação é importante, eu vou priorizá-la”, a educação é quem vai perder todo ano. Na hora de pagar a emenda da reforma da Previdência, quando vários votos foram “sim”, comprados pelo Governo, de onde se tirou o dinheiro? Da educação. E a gente foi firme e conseguiu reverter parte do dano na Câmara.

P. Nem todas as emendas foram pagas, ainda.

R. Ainda não. Mas já te digo que meu voto não foi vendido. Esse problema não é meu.

P. Em algum momento pensou em não votar a favor da reforma da Previdência? Ou sempre foi favorável?

R. Dependia do texto final. Há uns dois anos comecei a estudar esse assunto, logo que o Michel Temer apresentou a sua reforma. Comecei o mandato sabendo que era importante a reforma da Previdência. Eu era uma das pessoas que mais sabia o que estava acontecendo porque fiquei dois anos estudando. Eu sabia as contas. Digo isso porque muita gente batia e compartilhava muitas fake news sem nenhum conhecimento da situação. Quando o Governo apresentou a PEC ela era muito ruim. No princípio, eu fui contrária a ela. Tinha mudanças no BPC, afetava professores, mulheres. Teve muita coisa para ser excluída. Aí, veio o trabalho de alguns deputados sérios. Muita gente da oposição cruzou os braços. Eu fui negociar com a bancada da educação, da segurança, das mulheres, falamos diretamente com o secretário [da Previdência e Trabalho], Rogério Marinho. Estávamos empenhados em mudar o texto. Quando vimos que os acordos foram construídos, não tinha como não votar. Eu sabia que era importante, tenho muito orgulho de ter ajudado a mudar esse texto. Foram nove emendas, várias acatadas. Diante de tudo o que fiz, o que negociei, não tinha como não votar.

Me incomoda essa visão da pessoa que se diz de esquerda e defende salário de quem recebe acima de 20.000 reais

P. Fazer oposição na sua visão é isso? Tentar modificar o que considera ruim que vem do Governo?

R. Não sou só eu. Vamos pensar na mulher que está lá na ponta e teria de aumentar em sete anos seu tempo de contribuição. O que ela quer? A Tabata fazendo palanque, viralizando e dizendo: “ah, eu sou contra”. E o texto passa? Ou ela quer a Tabata que senta com o Governo, senta com a bancada da bala, conversando com o secretário e dizendo: “Vamos juntos nessa?”. Quem está na ponta quer exatamente isso. Agora, muitas vezes, quem se diz de esquerda e afirma que está lutando pelos interesses dos mais pobres, está, na verdade, lutando pelos interesses das corporações. Para ser bem sincera. Quem é pobre hoje, se aposenta aos 65 anos de idade. É igual ao que ficou. Para essas pessoas não mudou. O que mudou foi para as corporações. Muitas dos servidores públicos, da elite do serviço público. Pessoas que se aposentavam ganhando 30.000 reais. Me incomoda essa visão da pessoa que se diz de esquerda, defende salário de quem recebe acima de 20.000 reais, mas não entende que não muda para quem está na ponta, para quem vive na zona rural. É incongruente porque a gente protegeu quem era mais vulnerável e conseguiu que a gente tivesse um pouco de dinheiro para investir no Bolsa Família, investir em educação.

P. Como se define no espectro político?

R. Eu me considero progressista. Meu maior alinhamento é com a centro-esquerda. Para mim, o progressismo define muito bem isso. É ser fiscalmente responsável, estar preocupado com o desenvolvimento econômico, mas que não abre mão da inclusão social. Parece que um grupo do Brasil só pode defender inclusão social, o outro só pode defender responsabilidade fiscal e um terceiro, ética. Se você defende os três ao mesmo tempo você atrapalha o esquema, você incomoda todo mundo e apanha de todos os três.

P. E como foi ter apanhado desses três lados?

R. Pessoalmente é difícil, ninguém gosta de todos os dias ver a propagação de fake news contra você. Vai das mais bizarras até as mais refinadas, o que mostra que tem muito dinheiro investido. Ninguém gosta de ter robôs nas redes sociais. Minha equipe teve acesso a um estudo que mostra que dois terços das menções feitas a mim no Twitter têm altas chances de serem robôs. Que comunicação eu estou estabelecendo dessa forma? Ninguém gosta de ser ameaçada como eu sou, mas eu tento encarar como parte da missão. Na política você tem de estar aberta a isso. Eu sofro, eu choro, me incomodo, fico com medo, sim. Mas se for para estar aqui de forma diferente, eu não quero estar. Tenho uma boa formação, tenho experiência no trabalho. Trabalho desde muito nova. Se eu não conseguir trabalhar aqui com os meus valores, com a minha convicção, faço outra coisa. Talvez eu fique muito impopular por dizer demais o que acredito. Eu acho que tem como fazer política desse jeito, mas você tem de estar disposto a desagradar algumas pessoas.

P. Esses ataques são apenas virtuais, nas redes sociais, ou chegaram na vida real, também?

R. No ambiente virtual. Só fui abordada na rua duas vezes este ano inteiro. Uma vez por pessoas do PDT que estavam bêbadas em um bar em Brasília. E outra vez um cara que me abordou no parque Ibirapuera. Depois, nunca mais. As pessoas me recebem com muito carinho. Eu moro numa região muito periférica, todo fim de semana vou para a Vila Missionária.

P. Segue vivendo lá?

R. Minha mãe e meu irmão vivem lá. Durante a semana eu fico em um apartamento mais no centro e nos finais de semana vou para minha casa, cuidar dos meus cachorros, das minhas coisas. E as pessoas me recebem com muito carinho porque elas acham que eu tenho muita coragem, que eu enfrento as coisas que têm de ser enfrentadas. Agora, nas redes sociais eu sou esculhambada todos os dias. É uma escolha. Com quem eu me importo, com a comunidade que eu represento, com as pessoas mais simples que estão sofrendo? Ou com essa galera partidarizada de robôs das redes sociais? Eu escolho me importar com os primeiros. Tanto que eu não tenho medo de ir para a rua. A gente tem nosso trailer em que fazemos gabinetes itinerantes, vamos para a periferia, para o interior e chama todo mundo. Não tenho medo. Mesmo os que discordam, não é como se me odiassem. Estão só discordando.

P. Acompanho alguns grupos abertos de WhatsApp de bolsonaristas e de militantes da esquerda...

R. Deus lhe dê muita força.

P. Nesses grupos notei que você tem apanhado mais da esquerda do que da direita.

R. Sério? Essa é uma inversão. Três anos atrás, eu não era política, a primeira pancada que recebi foi do MBL [Movimento Brasil Livre], com muita, muita, muita força. Eles me viram na política antes mesmo de eu me ver. Aí, você tem momentos. Acho que é uma perda de tempo da esquerda. Com certeza, nesse cenário do Brasil não sou o maior inimigo que a esquerda tem.

P. Quando se viu na política?

R. Quando eu entrei na faculdade eu me via trabalhando com educação. Assim que eu fui aceita em Harvard eu perdi meu pai. Fui aceita no dia 8 de março de 2012 e perdi meu pai no dia 12. Por muito tempo, desisti dos meus sonhos. Eu queria ser astrofísica, perdi a vontade. Fazia física na USP e abandonei a faculdade. Fui aceita em seis universidades que me deram bolsa. Acabei indo para Harvard motivada por alguns professores, mas eu não tinha mais aquele sonho. Foi o pior ano da minha vida. Demorou muito tempo para encontrar um novo sonho. Quando eu decidi trabalhar com educação teve relação com eu estar em Harvard e ter perdido meu pai para as drogas. Vivo muitas coisas da desigualdade, perdi muitos amigos com 15 anos de idade e estudei na melhor universidade do mundo. Tinha como colegas príncipe, filhos de políticos e não sei o quê. Então, dá um nó cabeça. A resposta que eu vi para isso, foi trabalhar com educação. Eu me via muito mais como uma técnica. Se me perguntasse eu diria que um dia eu queria ser ministra da Educação, secretária da Educação. Tanto que meu ativismo sempre foi evitando a política. O Mapa da Educação é suprapartidário. Nunca declarei voto em ninguém. Não achava que era para mim, era uma coisa meio suja.

P. Quando essa percepção mudou?

R. Quando a gente fundou o [movimento] Acredito, em 2016 era muito como uma tentativa de fazer uma ponte entre as pessoas comuns e os partidos. Mas eu não me via como candidata. Tanto que eu me inscrevi no RenovaBR e na minha entrevista final eu falei: “preciso da bolsa e da formação porque vou ajudar outros candidatos”. Eu não queria ser candidata. No começo de 2018 as pessoas me cobravam para ser candidata. E fui até julho enrolando. Foi quando eu bati o martelo e fui. Começou algo quando eu ganhei bolsa em Harvard, minha vida e as coisas que eu amava ficaram muito diferentes, e a única explicação eram as oportunidades da educação, mas foi um processo até o ano passado. Não sei dizer o dia exato.

P. Como está sua situação no PDT, que pediu punição dos parlamentares que votaram a favor da reforma da Previdência?

R. Eles absolveram todo mundo, menos quem entrou no TSE pedindo para que mantivessem os mandatos. É o meu caso e o de outros três deputados. O que mostra que não é tão grave assim. Ninguém foi punido. Era uma coisa bem pessoal, contra a Tabata.

P. Esse ataque partiu do presidente do PDT, Carlos Lupi, ou do ex-ministro Ciro Gomes?

R. Dos dois. Na minha visão, o meu erro foi não ter baixado a cabeça. É muito incongruente. O partido defendeu a reforma da Previdência na campanha, em março fez um único fechamento de questão contra o texto do Bolsonaro, que não tinha nada a ver com o que foi aprovado. Ao longo do processo fui ouvindo, especialmente do Ciro, que a gente iria conversar e iria reunir a bancada, e, aí, no final, radicalizou. O deputado Mauro Benevides (PDT), que poderia ser o relator da Previdência, foi mandado para ser secretário no Ceará. Ele era nossa referência na Câmara. Teve uma imposição sobre os deputados, sem reunião do diretório nacional e com um fechamento de questão sem ouvir os parlamentares. A mágoa foi eu não ter baixado a cabeça. Enfim, doeu mais por vir de uma mulher jovem. E, quando alguns deles dizem que eu obedeço a dois senhores, é uma coisa tão machista que as pessoas nem percebem. Como se eles fossem um dos senhores que eu tivesse que obedecer e eu estou obedecendo um segundo senhor. Porque não entra na cabeça de ninguém que eu determino o meu voto, eu estudei, eu que mando em mim. Pelo machismo incomoda mais quando vem alguém como eu. E eu não vou baixar a cabeça, não.

P. Essa definição do TSE deve sair quando?

R. Até abril. Eu continuo trabalhando normalmente. Perdi espaço de fala no plenário, indicação para a comissão, não tenho mais bancada partidária, mas aí, você encontra outras maneiras. Quando eu quero participar de uma comissão noto que um partido não indicou seu membro, eu peço para me indicarem. As pessoas reconhecem meu trabalho.

P. Mas na comissão da educação permanece pelo PDT.

R. Sim. Houve até umas notinhas dizendo que eles não iam me tirar porque eles eram bonzinhos. Mas também houve comentários porque ninguém queria pegar a minha vaga. A pessoa receberia bastante atenção. Eu não sei o que aconteceu. Eles não me explicaram.

Eu fui para o PDT porque era considerado o partido da educação, mas o que importou no dia a dia era a politicagem

P. A qual partido se filiará?

R. Ainda não sei. Vou começar nesse momento a estudar, a conversar com algumas pessoas. Antes de pedir a garantia de meu mandato, eu achei que as coisas iam se resolver de outra maneira. Aí, eu vi que não ia. Eles [Ciro e Lupi] só fizeram o julgamento e marcaram depois que eu entrei com a ação. A ideia era eles nos deixarem em banho-maria até o ano que vem. Particularmente, eu estarei mais preocupada em escolher um partido que seja democrático, que em seu estatuto trate de prévias, prazo de mandato para dirigente partidário, sobre fechamento de questão, do que com a questão ideológica. Eu fui para o PDT porque era considerado o partido da educação, mas o que importou no dia a dia era a politicagem, o próximo pleito eleitoral. Obviamente eu não vou para um partido conservador, porque não ia dar certo. Seria expulsa na primeira votação. O mais importante para mim vai ser: qual é o partido que está disposto a ter um pouco mais de democracia interna. E eu quero estar em um partido, não quero ficar independente, se conseguir manter o mandato. Só quero um partido mais democrático que o que estou hoje.

P. Já se deu conta de que, conforme o julgamento de seu caso, o seu processo pode acabar ajudando um grupo de parlamentares bolsonaristas do PSL que está em litígio com a legenda?

R. Isso é o que os deputados do PSL querem que as pessoas acreditem. É bem importante dizer, o meu caso não tem nada a ver com o deles. Se as pessoas olharem a minha defesa, são mais de cem páginas com transcrições de falas do Lupi e do Ciro, me atacando, inventando mentiras sobre mim, me difamando. Eu tentei várias vezes fazer com que a bancada se reunisse para deliberar sobre a questão, é uma pauta do partido. É muito conveniente para algumas pessoas dizerem que o meu caso vai guiar o delas. Espero que a Justiça não tenha essa visão política das coisas, mas uma visão técnica. Meu caso é extremamente diferente de várias pessoas. Eu não quero ser colocada no mesmo bolo porque, diferentemente de quem ataca partido e a democracia, eu acredito em partido. Tanto que apresentei um projeto de lei, com vários deputados, de mais democracia partidária. Não sou grande entusiasta de candidatura avulsa. Apoiaria, para ver se chacoalha um pouco os partidos, mas não acho que isso só resolve.

P. A agenda social que propõe com um grupo de deputados prevê a constitucionalização do Bolsa Família. Por que inserir mais um item em uma Constituição que já é grande?

R. O que a gente constitucionalizou foi a garantia de renda. Essa é uma coisa que várias constituições de outros países já têm. Não colocamos o nome do Bolsa Família ou o valor. Todas as coisas que podem mudar com o tempo, colocamos em um projeto de lei. O que dissemos foi que, assim como diversos países da Europa e da América Latina, a gente quer garantir que ninguém nesse país vai ser miserável. Como vai ser o projeto, o valor, a faixa, tem um projeto de lei determinando. Isso é importante nesse momento porque recebemos o Bolsa Família com um Orçamento de 40 milhões de reais menor. É um projeto que traz retorno para a sociedade, bem avaliado aqui e lá fora, e o Governo, por questões ideológicas, o enfraquece. O que é isso? Cada eleição que tem é um lado e o outro inventa fake news para dizer que se fulano foi eleito vai acabar com o Bolsa Família. O Bolsa Família é da população brasileira, não é de um lado ou de outro. Na minha visão, foi a coisa mais acertada, porque 23 dos 25 partidos que a gente tem na Câmara apareceram como autores desse projeto. Para mim o projeto passa uma visão de Estado, já que quase todos os partidos são os autores da proposta. [Nota da redação, apenas NOVO e PSL não assinaram esse projeto].

O Bolsa Família é da população brasileira, não é de um lado ou de outro

P. E a porta de saída do Bolsa Família, como ficaria nesse projeto? O ideal não é reduzir a quantidade de beneficiários dando empregos a elas?

R. O ideal é que as pessoas deixem de estar na pobreza e na extrema pobreza. É só mudar a lógica. Meu sonho é que ninguém mais receba o Bolsa Família, mas não é porque nós vamos mudar o valor e deixar gente passando fome. É porque eu vou dar a essas pessoas mais chances de conseguirem renda. São duas coisas que a gente trabalhou, uma delas é incentivo. É uma conquista enorme, mas é possível melhorar. Os incentivos são de tal forma que as pessoas têm medo de declarar que têm uma renda extra ou que conseguiu um emprego. O que fizemos foi facilitar. Se ela conseguiu um emprego e depois perdeu, já pode voltar para o projeto. É uma transição, trabalhamos nos incentivos econômicos. E, se a pessoa não consegue emprego, como a gente quer que ela saia do Bolsa Família? Então, tem um pilar de inclusão produtiva, que é um projeto que vamos apresentar, com projetos específicos para mulheres, para pessoas com deficiência e para jovens. Um desses trata do auxílio inclusão para que pessoas com deficiência que recebem o Bolsa ou o BPC. A gente propõe um projeto piloto para as zonas mais vulneráveis do Brasil para que as mulheres que recebam o Bolsa tenham um crédito a fundo perdido, algo que o Banco Mundial diz que é o mais inovador, é um dinheiro para a pessoa comprar o negócio dela. Montar uma vendinha, por exemplo, que é uma porta de saída. E que os créditos do ensino técnico valham para o ensino superior. Se você consegue fazer um ensino técnico hoje é melhor do que fazer um superior de baixa qualidade. São várias inovações. Quem é do jovem aprendiz, pode contar os créditos para o técnico no ensino médio. É um estímulo.

P. Em princípio, essa agenda social significa trazer mais gastos para o Estado.

R. A maior parte da agenda social é fiscalmente neutra. Haverá um investimento de 9,8 bilhões de reais e irá beneficiar 3,2 milhões de crianças. Que programa a esse custo tira tudo isso de criança da pobreza? Há ainda outro argumento, que foi apresentado pelo [presidente da Câmara] Rodrigo Maia. É o seguinte: gente, vamos aprovar o ajuste fiscal, estamos fazendo as reformas econômicas, uma parte desse dinheiro tem de voltar para as pessoas. Qual é a escolha que a gente faz? Em parte, tira o dinheiro das grandes corporações para distribuir para quem mais precisa.

P. Quem são suas referências femininas na política?

R. Não são necessariamente políticas, mas mulheres que me inspiram. Lá fora, a Michele Obama e a Malala Yousafzai. Aqui no Brasil, a deputada Joênia Wapichana (REDE-AP) me inspira muito na pauta de meio ambiente e questões indígenas, eu sigo muito a orientação dela, e a deputada Soraya Santos (MDB-RJ). A Soraya foi, na minha visão, a grande responsável por termos uma bancada maior de mulheres neste ano.


Mais informações