Coluna
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O verdadeiro narrador da história é o fotógrafo

No mar agitado em que navegam os barcos bombardeados da imprensa nacional, a ética do compromisso com a informação é um farol de salvação

Um coveiro exausto cava uma cova no cemitério do Pechincha na zona Oeste do Rio de Janeiro.
Um coveiro exausto cava uma cova no cemitério do Pechincha na zona Oeste do Rio de Janeiro.Francisco Proner

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A segunda década dos anos 2000 consagrou as redes sociais e o aplicativo WhatsApp como os grandes formadores de opinião no Brasil. Segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras, que monitora globalmente os ataques a membros da imprensa, 2/3 da população brasileira usa o WhatsApp como principal fonte de informação. Oras, se não existem jornalistas produzindo conteúdo checado e apurado no aplicativo mais popular do Brasil, como ele pode ser uma fonte de informação confiável para tantas pessoas? Aqui tudo é possível, o absurdo se torna regra num piscar de olhos. Mas por trás dessa lógica está o conceito da pós-verdade que consiste, resumidamente, no processo em que uma noticia falsa é curtida e compartilhada milhares de vezes nas redes sociais até que se torna uma verdade inquestionável, um fato. As pessoas que difundem estas notícias o fazem cegamente porque elas dialogam com suas crenças e valores independente da sua veracidade. A imagem digital faz parte dessa grande crise sócio-midiática da informação e a crescente perda da credibilidade jornalística. Se não checamos as informações que absorvemos então porque deveríamos enviar fotógrafos profissionais para coberturas se todos têm celulares as mãos? No mar agitado em que navegam os barcos bombardeados da imprensa nacional, a ética do compromisso com a informação é um farol de salvação.

A cultura visual foi recentemente impulsionada pela falsa ideia de que o acesso aos aparelhos celulares resultaria numa produção de imagens exuberante. “Quando você tenta fazer uma foto boa e não consegue, aos poucos o público percebe suas limitações e entende que é o fotógrafo bem formado que consegue captar as boas imagens”, predica a crítica em fotografia e professora Simonetta Persichetti, que há 40 anos estuda as transformações da cultura visual. O estereótipo clichê do fotógrafo bon vivant, branco e homem, boêmio e aventureiro que frequentava os melhores hotéis e restaurantes, circulava pela alta classe política e recebia assignments que duravam até três meses foi enterrado no final dos anos 1990 pela onda digital. “Vimos o fim de uma cultura visual no jornalismo que existiu muito forte no Brasil com Jornal do Brasil, Revista Realidade, Cruzeiro e na própria Manchete. Existia uma cultura visual que se perdeu e então a fotografia passou a ocupar o lugar de mera ilustradora ou, pior ainda, um olhar do século 19 que a vê como prova da verdade. Então o repórter procura na imagem uma prova que confirme o que ele escreveu”, comenta Persichetti sobre a derrocada da profissão dos editores de fotografia no país nas últimas décadas.

Entretanto, Simonetta é otimista: “O fotógrafo tem que perceber que, para além da mídia, ele é o único profissional que realmente está onde as coisas acontecem. O cara de texto escreve da redação na maior parte dos casos. Você não pode fotografar da redação... É preciso estar em campo. O verdadeiro narrador da história hoje é o fotógrafo”. Se antigamente os jornais e as revistas eram os principais meios para se conhecer os trabalhos fotográficos, hoje as novas plataformas online são as verdadeiras galerias pessoais onde os fotógrafos se tornam autores e curadores dos próprios trabalhos. O Instagram substitui a antiga pasta de portfolio repleta de belas ampliações. “Isso que eu chamo de ‘Novo Fotojornalismo’: as histórias devem ser contadas, não apenas com uma grande imagem da capa do jornal mas com uma narrativa visual poderosa apresentada nas plataformas digitais”, sintetiza. De qual maneira o fotojornalismo brasileiro dialoga com as profundas transformações midiáticas deste século? Profissionais que ainda vivem presos ao passado e adotam uma posição de reclamar e culpabilizar a crise serão automaticamente excluídos do sistema. Não há espaço para quem não se propõe a ser um narrador visual, capaz de encontrar as histórias potentes na perspectiva micro dos acontecimentos. “O mundo está carente de histórias, histórias humanas”, reflete Simonetta.

Tradicional e tristemente o Brasil importa os valores, os padrões, as metodologias, a arquitetura, as políticas e os programas norte-americanos com delay de 10 anos. No jornalismo, via de regra, não é diferente. Os novos coletivos fotográficos, como Mamana, R.U.A, Farpa entre outros surgem com força total no Brasil em meio às manifestações populares que sacudiram o país em 2013 e se colocaram como um marco na história da cultura visual. Espelhadas na pioneira agência Magnum, cooperativas fotográficas como a NOOR (2007) e a VII (2001) se constituíram na Europa e Estados Unidos. ”Uma foto só está no jornal. Mas, na sua galeria — que pode ser sua conta no Instagram —, você tem a explicação visual do porquê dessa imagem. Lá temos muitas ferramentas que ajudam a narrativa: vídeo, áudio, galeria fotográfica, texto... Uma reportagem muito mais completa e que é produzida pelo próprio fotógrafo e não mais pelos veículos”. Simonetta está correta quando diz que os coletivos fotográficos se pautam, se colocam no jogo midiático como autores e protagonistas da narrativa, são agentes da transformação em curso e possuem um caráter revolucionário porque inverteram a ordem hierárquica de serem pautados pelos veículos de imprensa (precarização do trabalho).

Essa revolução toda estabilizou financeiramente os coletivos e fotógrafos? Certamente, ainda não. O grande desafio da nova era no Brasil está na formação do público. “Eu sei ler e escrever, mas não sou Machado de Assis... Porém, sei apreciar os bons textos”, compara Simonetta. É preciso contribuir para a construção de uma cultura visual autêntica e condizente com as disparidades da contemporaneidade. “Chegamos num momento agora em que as pessoas estão pedindo calma, impulsionados por fake news e se deram conta de alguns problemas da falsa ideia de que todos podem produzir informação de qualidade”, alerta Simonetta para o compromisso que nós, comunicadores, teremos com a sociedade, a partir de 1º de janeiro de 2019. As imagens produzidas nos próximos anos serão capazes de sensibilizar as diferentes camadas de uma sociedade miscigenada e desigual como a brasileira? Sim, devemos ser otimistas para equilibrar as bárbaras transformações sócio-ambientais que se anunciam na tempestade ao longe. Como diz Simonetta, “o fotojornalismo existe e resiste”.

Simonetta Persichetti é, pesquisadora e professora universitária e uma das principais críticas da fotografia brasileira.