Diretora financeira da gigante chinesa de celulares Huawei é presa no Canadá

Meng Wanzhou, filha do fundador da empresa, teria violado sanções contra o Irã. Pequim demonstrou indignação e exigiu que ela seja solta

Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei
Meng Wanzhou, diretora financeira da HuaweiAP

O Canadá anunciou nesta quarta-feira, 5, que Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei, marca chinesa de celulares e equipamentos de telecomunicações, além de filha do diretor da companhia, foi detida em Vancouver, Canadá, no sábado passado, 1º, por supostamente violar as sanções dos Estados Unidos contra o Irã. O Governo chinês reagiu exigindo sua libertação imediata, num caso que ameaça descarrilar os recentes progressos na relação comercial entre Washington e Pequim, depois da guerra tarifária que colocou em xeque as perspectivas de crescimento global.

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Washington já solicitou a extradição de Meng, mas os detalhes do caso permanecem sob sigilo judicial. O jornal canadense The Globe and Mail, o primeiro a noticiar a detenção, diz que aparentemente Huawei enviou ao Irã produtos manufaturados em solo norte-americano, rompendo assim as normas de exportação que impedem o comércio com o país do golfo Pérsico. Em abril, o The Wall Street Journal já tinha informado que o Departamento de Justiça dos EUA abrira uma investigação sobre o assunto. A detenção ocorreu no mesmo dia em que Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, jantaram juntos em Buenos Aires e concordaram com uma frágil trégua na disputa comercial.

Nos últimos meses, vários Governos, inclusive o norte-americano, manifestaram sua preocupação com as informações que Pequim poderia obter através dos produtos e serviços da Huawei. A empresa negou reiteradamente qualquer implicação do regime em suas operações e optou por manter certa distância em relação às autoridades e a empresas estatais do país, com o objetivo de mostrar uma imagem de independência. A Huawei é um dos maiores fornecedores de equipamentos de telecomunicações do planeta e colheu um sucesso nada desdenhável fora de seu país de origem, mas sua atuação nos Estados Unidos se viu muito limitada pelas acusações de espionagem.

A empresa chinesa disse em nota que sua executiva foi presa quando fazia uma escala no aeroporto de Vancouver. “A companhia recebeu pouquíssima informação sobre as acusações e não tinha conhecimento de delito algum por parte da senhora Meng. A Huawei confia em que os sistemas de Justiça do Canadá e Estados Unidos chegarão a uma conclusão justa”, diz o texto.

A Embaixada chinesa em Ottawa, por sua vez, se pronunciou sobre o assunto através de seu site, solicitando que as autoridades canadenses e norte-americanas corrijam qualquer irregularidade na detenção e liberem Meng. “Seguiremos de perto o desenrolar deste problema e tomaremos todas as medidas necessárias para proteger os direitos e interesses legítimos dos cidadãos chineses”, acrescenta a mensagem. A legação afirma ainda que Meng “foi presa sem que tenha violado nenhuma lei norte-americana ou canadense”.

Meng Wanzhou, nascida em 1972, é diretora financeira da Huawei desde 2011 e vice-presidenta de seu conselho de administração. Além disso, é filha de Ren Zhengfei, o engenheiro que fundou esse gigante chinês das telecomunicações em 1987 e que atualmente ocupa o posto de executivo-chefe. Ren, ao contrário de outros grandes magnatas do país asiático, sempre se manteve num discreto segundo plano. A detenção de sua filha mais velha representa um golpe de enorme simbolismo para a China e seu cada vez mais influente setor tecnológico, cujas práticas empresariais e relação com o Partido Comunista chinês são crescentemente questionadas.

Embora as acusações contra Meng ainda não tenham sido concretizadas, o caso parece semelhante ao da empresa tecnológica chinesa ZTE, que também foi alvo de uma investigação nos Estados Unidos por ter vendido tecnologia ao Irã e Coreia do Norte. O Departamento de Comércio chegou inclusive a proibir essa companhia de comprar componentes fabricados nos Estados Unidos, o que a colocou em sérios apuros. Finalmente, após uma ordem de Trump e com o objetivo de aplainar as negociações comerciais com a China, alcançou-se um acordo que reverteu esse veto.

A investigação sobre a Huawei, na qual o Departamento de Justiça dos EUA interveio diretamente, poderia ser mais grave não somente porque ninguém foi detido no caso da ZTE, mas também pelo enorme peso e nome da mulher atualmente sob custódia no Canadá. Meng é vista, apesar do secretismo que cerca a cúpula da Huawei, como uma das candidatas a suceder o seu pai à frente do grupo. Nesta quinta-feira, 6, ela terá uma audiência perante um juiz que decidirá se lhe concede a liberdade sob fiança ou se ela permanecerá presa durante o processo judicial.

Em uma jornada marcada pelas turbulências dos dois pregões anteriores, as principais Bolsas asiáticas se viram prejudicadas pelo temor dos investidores de que a detenção do Meng complique o recente princípio de entendimento entre Washington e Pequim em busca de uma solução para seus atritos comerciais.

A Huawei e a ZTE são as duas empresas que registraram mais patentes em todo o mundo em 2017, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual. Em 2017, a Huawei registrou um lucro líquido e quase 7,3 bilhões de dólares (28,2 bilhões de reais), e no segundo trimestre desse ano desbancou a Apple como a segunda empresa que mais vende celulares, atrás da sul-coreana Samsung. Mas em volume de negócios ela ainda continua bem atrás de ambas, apesar de ser hoje um gigante mundial do setor tecnológico.

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