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TRIBUNA i

O terceiro turno de Bolsonaro

O desafio das coalizões, com o Congresso mais fragmentado e o orçamento mais apertado do que nunca, se apresentará novamente

Jair Bolsonaro ao lado de Nabhan Garcia, presidente da União Democrática Ruralista.
Jair Bolsonaro ao lado de Nabhan Garcia, presidente da União Democrática Ruralista. REUTERS

A vitória de Jair Bolsonaro nas eleições deste ano confirma o fim de um período de 25 anos de protagonismo de PT e PSDB em pleitos presidenciais.

Beneficiário direto da onda de insatisfação que tomou conta do país a partir de 2013, o capitão da reserva destronou ambos os partidos do predomínio que tinham sobre segmentos distintos do eleitorado. Com o discurso anticorrupção, atingiu em cheio o eleitor tucano das classes média e alta, descrente de que o PSDB poderia continuar empunhando a bandeira da ética. Com a agenda da segurança pública (mas também do combate à corrupção), cativou o eleitorado pobre do PT nas grandes cidades, mais sujeito à criminalidade que se alastra periferias afora.

Como elemento de fundo a unir os dois discursos e envolver ambos os segmentos, Bolsonaro introduziu, de modo sem precedentes na Nova República, uma pauta ultraconservadora, com forte conteúdo religioso, que faz o tucanato —aquele que considerávamos, até aqui, a “direita”— parecer anarquista.

Conquistada a vitória sobre as duas forças políticas de expressão nacional, Bolsonaro terá pela frente a mais desafiadora das etapas: lidar com o poder local, ao qual tanto PT quanto PSDB sucumbiram durante os anos em que governaram.

A história nos mostra que petistas e tucanos praticaram um “reformismo fraco” (na expressão de André Singer), sem romper com as estruturas de poder vigentes. Resignados às raízes profundas dos pequenos rincões, sustentaram-se no fisiologismo e nas bases locais do MDB e do centrão para perpetuar-se, enquanto levaram ao nível nacional divergências pontuais em questões sociais e macroeconômicas.

“Toda política é local”, apontava um ex-deputado norte-americano. A incapacidade de PSDB e PT em combater privilégios patriarcais e ir a fundo na questão da distribuição de renda impediu a transformação do Brasil numa democracia moderna e acabou por triturar as raízes urbanas e sociais das duas legendas: os tucanos, num lampejo, chegaram a clamar em vão por um retorno a suas origens social-democratas, mas seu maior sucesso eleitoral veio apenas com o distante voto “bolsodoria”; os petistas amparam-se no que resta do lulismo, versão deturpada e personalista do petismo histórico.

Fenômeno global, o avanço da ultradireita conservadora assumiu, no caso brasileiro, contornos de oposição radical a essa luta bipartidária, manipulada pelos mais diversos interesses locais e corporativistas representados no Congresso Nacional.

Como fez parte do baixo clero legislativo por quase 30 anos, é provável que Bolsonaro entenda a fisionomia da Casa e os principais mecanismos que movem seus atores. O fato de defender agendas comportamentais e estruturantes similares à do parlamentar médio o aproximará, naturalmente, das bancadas evangélica, da “bala” e do agronegócio.

Contudo, a estratégia de governar com frentes temáticas comporta alguns riscos, como a possível antipatia de caciques partidários. Além disso, nem todas as agendas sensíveis do país se resumem à tríade “Boi-Bala-Bíblia”, como demonstra a turbulenta questão da reforma da Previdência. Nessa pauta, assim como em outras, haverá elementos de pressão adicionais em jogo, a começar pelas corporações que verão seus interesses afetados pelas eventuais mudanças.

Por fim, a afinidade de valores com parlamentares, embora ajude a governabilidade, não é suficiente para garanti-la. Os representantes das localidades, carentes de recursos públicos e de repasses do governo federal, pedirão cargos e cobrarão sua fatura em cada votação, como temos visto no tradicional “toma-lá-dá-cá” da Nova República. O desafio das coalizões, com o Congresso mais fragmentado e o orçamento mais apertado do que nunca, se apresentará novamente.

Some-se a isso a oposição ferrenha da expressiva bancada do PT e a dificuldade em se alcançar um padrão de governabilidade com o judiciário, ator cada vez mais ativo no jogo político brasileiro.

Que venha o terceiro turno.

Guilherme Quintão, é cientista político e diplomata. As opiniões emitidas no texto são de inteira responsabilidade do autor, não coincidindo necessariamente com posições do Governo brasileiro.

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