Eleições nos EUA

Desnorteados, democratas encaram seu segundo assalto contra Trump

Partido oscila entre duas forças: o esquerdismo sanderista e o centrismo que representa a irrupção de Michael Bloomberg

A candidata Ocasio-Cortez (centro) com simpatizantes em Nova York.
A candidata Ocasio-Cortez (centro) com simpatizantes em Nova York.ANDREW KELLY (REUTERS)

Nesta terça-feira os democratas podem cumprir as expectativas ou enfileirar um segundo fracasso estrepitoso capaz de implodir o partido. O que está em jogo é impedir Donald Trump de remodelar o país ao seu radical bel prazer, controlando confortavelmente todas as instituições do Estado. E depois virá a transcendental busca de identidade de um partido desnorteado, que oscila entre duas forças: o esquerdismo sanderista que ainda continua vivo nas bases, encarnado em fenômenos como o da jovem Alexandria Ocasio-Cortez, e o centrismo representado pela irrupção de Michael Bloomberg, o ex-prefeito republicano de Nova York reconvertido em democrata, que despejou seus milhões na campanha e faz certo establishment liberal sonhar em replicar o efeito Trump do outro lado.

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“Oh, meu Deus, é você.” Juliana Son, de 32 anos, exultava antes de pular para fazer uma selfie e abraçar seu ídolo. Era a própria Alexandria Ocasio-Cortez que distribuía panfletos na saída do metrô, no bulevar Ditmars em Astoria (Queens, Nova York), onde o passo lânguido dos hipsters contrasta nas calçadas com o passo resoluto dos imigrantes latinos.

Na sexta-feira à tarde, a candidata democrata pelo 14º distrito de Nova York à Câmara baixa, ex-garçonete de origem porto-riquenha, que aos 28 anos está bem posicionada para se tornar a congressista mais jovem do país, exibia seu já famoso sorriso, pedia aos moradores que votassem nela e dizia mil vezes obrigado.

“Existe uma energia muito boa. Faltam quatro dias e, se não parei até agora, não vou parar mais. É incrível o que conseguimos, mas ainda falta o empurrão final para o grande dia: a participação é muito importante”, afirmou, e voltou a agradecer outro transeunte.

“É enormemente inspiradora. É mulher, é jovem, não está contaminada pela política. Ela é um avanço nas coisas em que acredito. Fez uma campanha local, mas sua visão é global”, explicou Son, em uma nuvem de simpatizantes que cercava a candidata.

Em poucas ocasiões a política se torna um fenômeno de fãs. A de Ocasio-Cortez, que organizou a campanha de Bernie Sanders, é uma delas. A vitória nas primárias contra o experiente Joseph Crowley fez dela uma figura emergente no partido. Sua juventude e inexperiência ainda a distanciam das apostas, mas seu sucesso foi um argumento para aqueles que defendem que os democratas devem abraçar uma agenda socialdemocrata sem complexos. O partido, ainda em choque depois de ter perdido com a candidata mais bem preparada da história diante do novato Donald Trump, terá agora a oportunidade de tomar o pulso deste e de outros fenômenos.

As eleições são na terça-feira, mas na quinta-feira já serão pré-história. Os resultados se tornarão uma confusão de dados empíricos sobre os quais projetar a estratégia para derrotar Trump em 2020.

Tudo está por ser definido. A vitória de Hillary Clinton sobre o socialista Bernie Sanders nas primárias de 2016 fechou em falso o debate ideológico dentro do partido, que foi reaberto em toda a sua magnitude quando Clinton perdeu inesperadamente as presidenciais contra Donald Trump.

O roteiro destas legislativas prognostica aos democratas uma importante vitória. Controlar o Senado, onde 26 das 35 cadeiras em disputa já estão nas mãos dos democratas, é uma missão muito difícil. Mas não ganhar a Câmara de Representantes, que será renovada em sua totalidade, seria um fracasso absoluto. As eleições da metade do mandato tradicionalmente castigam o partido do presidente. Os excessos de Trump mobilizaram muitos moderados e o surgimento do Me Too fortaleceu o compromisso de muitas mulheres dispostas a votar em massa e votar nos democratas.

O problema é que a onipresença de Trump apagou os democratas da narrativa da campanha. O presidente transformou com sucesso as eleições em uma disputa sobre imigração ilegal e sobre sua pessoa. Os republicanos têm uma mensagem e um líder poderoso. Os democratas não têm nenhum dos dois.

Os senadores Elizabeth Warren e Kamala Harris, o ex-vice-presidente Joe Biden, o jovem texano Beto O’Rourke... À longa lista de possíveis concorrentes às primárias a candidato presidencial, para a qual se abre oficiosamente a temporada uma vez passadas as legislativas, se juntou uma figura inesperada: Michael Bloomberg.

O magnata foi democrata antes de se tornar, entre 2002 e 2013, o prefeito republicano de Nova York. Ele considerou se apresentar como candidato independente nas duas últimas eleições presidenciais. Agora, com os dois partidos mais distantes do centro do que nunca, voltou a se inscrever como democrata, entregou-se à campanha e injetou valiosíssimos milhões em candidatos em batalhas-chave. Ele se recusa a confirmar sua intenção de se tornar candidato, mas também não nega quando perguntado.

Há anos Bloomberg dedica sua fortuna, avaliada em 46 bilhões de dólares (cerca de 170 bilhões de reais), a defender algumas das causas associadas ao Partido Democrata: o controle de armas, o direito ao aborto, a saúde universal, o meio ambiente. Outras partes do seu ideário político, especialmente em matéria de economia, fazem dele um eventual candidato, no mínimo, exótico. Mas já existe um exemplo recente de um milionário que começa sua campanha distante dos postulados de seu partido.

Nas circunstâncias atuais, muitos democratas estariam dispostos a engolir algum sapo. Replicar o efeito Trump nas fileiras dos democratas parece tentador. Uma luta de dois galos bilionários dispostos a governar o país como uma corporação. O fim da política. Ou o começo de algo novo.

Um projeto centrista e desideologizado costuma ser uma garantia de fracasso nas primárias. Mas em um campo de jogo que poderia incluir até duas dúzias de candidatos, as possibilidades se multiplicam para alguém conhecido e disposto a não economizar nas despesas.

Decidir qual líder colocar contra Trump em 2020 não é fácil. Um rosto conhecido ou novo? Homem ou mulher? Estas são decisões habituais, mas a natureza do adversário lança novos dilemas. Descer à lama com ele para evitar ser atropelado ou se manter imaculado e aumentar o contraste? Como romper sua onipresença midiática? Como neutralizar seu delírio no Twitter? O único consenso é que o candidato escolhido deve ser capaz de impor os termos da conversa e não se limitar a responder às provocações. E nisso, nesta campanha, o partido fracassou.

Ninguém quer os Clinton

O Partido Democrata busca sua identidade na era Trump e uma das poucas certezas que deu nesta campanha é que os Clinton não fazem parte dela. Nenhum candidato quis o apoio do ex-presidente Bill Clinton, cuja presença se limitou a um punhado de eventos de arrecadação de fundos. Seu legado pessoal e político, rejeitado pela ala mais progressista, o desterrou para uma função no mínimo marginal. Além disso, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton se tornou uma figura incômoda para os democratas. Ainda objeto de insistentes zombarias nos comícios de Trump, a mulher que perdeu em 2016 apesar de ter recebido mais votos chegou até a colocar os democratas em apuros em alguma entrevista durante a campanha.

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