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“Dinheiro ou cartão?”: visitamos uma loja de maconha no Canadá

Já é possível adquirir cânabis legalmente no país norte-americano, seja nas lojas ou pela internet

Maconha comprada legalmente no Canadá. A caixa alerta sobre seu uso por adolescentes, por causa do risco de dependência
Maconha comprada legalmente no Canadá. A caixa alerta sobre seu uso por adolescentes, por causa do risco de dependência

O Canadá chamou a atenção mundial no último dia 17. Não pelas meias fosforescentes do primeiro-ministro Justin Trudeau, nem por uma nova escalada comercial com a Casa Branca. A razão foi a legalização da maconha recreativa, que entrou em vigor em todo o seu território.

Trata-se, porém, de um marco jurídico que regula a produção, venda e consumo para uso recreativo (o terapêutico foi aprovado em 2001), não de uma autorização para cada um fazer o que bem entender com a erva. Tampouco pode encontrá-la no supermercado da esquina. Dirijo-me a uma das lojas onde se pode comprar maconha legalmente em Montreal, para ver como se vive dias depois da entrada da lei em vigor, quando as equipes internacionais de TV já foram embora.

Filas na porta de um dos estabelecimentos da SQDC de Montreal, onde se vende maconha para uso recreativo
Filas na porta de um dos estabelecimentos da SQDC de Montreal, onde se vende maconha para uso recreativo

Filas de várias horas

“O produto que eu queria comprar está esgotado na Internet. Por isso venho à loja”, diz Karine, uma montrealense de 22 anos que faz fila enquanto acende um cigarro atrás do outro. Karine fuma tabaco claro, embora um ou outro na fila também tenha um baseado aceso na boca. Não há desordem nem rostos preocupados.

A loja on-line da SQDC, acessível só no Canadá, oferece 68 produtos, mas vários deles estão esgotados. É melhor dar uma volta por um dos 12 estabelecimentos que abriram suas portas na província do Quebec; três ficam em Montreal.

Esta filial está localizada na zona norte de Montreal, em frente a um shopping center muito movimentado. No dia da legalização era preciso esperar mais de três horas para entrar na loja. Frédéric, de 25 anos, vem de Sherbrooke (a 150 quilômetros de Montreal): “A verdade é que fumei maconha duas ou três vezes na minha vida. Estou aqui por curiosidade”.

As lojas parecem mais uma farmácia que uma loja de bebidas
As lojas parecem mais uma farmácia que uma loja de bebidas

Cultivada no Canadá

Uma hora e dez minutos depois, é o momento de entrar no estabelecimento. Um agente da segurança pede um documento àqueles que têm cara de adolescente (em Quebec e Alberta é preciso ter mais de 18 anos; no restante do país, mais de 19 anos). Depois, outro agente aponta o caminho para se passar a uma segunda sala. Parece mais com uma farmácia do que uma loja de bebidas. A decoração é sóbria e os produtos ficam em prateleiras acessíveis apenas aos funcionários. Há telas onde são divulgadas informações sobre a variedade da grama (sativa, índica, híbrida), o preço, a empresa produtora e os níveis de THC e CBD.

A lei permite a compra de erva seca, cigarros enrolados, óleos, pastilhas e spray. O Governo federal está estudando autorizar a venda de alimentos e resinas no próximo ano. De acordo com dados da SQDC, foram feitas cerca de 30.000 transações pela Internet no primeiro dia da legalização.

Há muitas prateleiras, mas várias estão completamente vazias. As vendas superaram as expectativas, então as produtoras trabalham sem cessar para distribuir a erva no menor tempo possível. Isabelle Robillard, porta-voz da Hexo, a empresa com a maior presença nos estabelecimentos de Quebec, disse ao jornal La Presse: "A demanda foi três vezes mais importante do que o esperado nos primeiros dias da legalização". Um cartaz especifica que toda a maconha vendida legalmente foi cultivada no Canadá.

“Sabia que todos os produtos oferecidos pela SQDC foram cultivados no Canadá?”
“Sabia que todos os produtos oferecidos pela SQDC foram cultivados no Canadá?”

Atendimento personalizado

Uma mulher de uns 50 anos pede um óleo de cânabis no balcão. "Acabou", responde um funcionário, esclarecendo que só resta uma marca de cigarros enrolados. O que convém então comprar? O funcionário faz perguntas para dar as recomendações, dependendo da potência procurada, os hábitos de consumo e o orçamento. É o momento de escolher: 3,5 gramas de Helios Flower por 20 dólares canadenses (cerca de 55 reais). O produto – erva seca – possui 19% de THC (tetrahidrocanabinol, principal agente psicoativo da cânabis) e 0,07% de CBD (canabidiol, principal componente da planta, e não psicoativo).

O funcionário pergunta se o pagamento será em dinheiro ou com cartão. A maconha está em um frasco de plástico guardado em uma caixa de papelão. É entregue em um saco de papel, com a fatura e um folheto com informações gerais sobre o consumo da cânabis. O frasco tem um rótulo – semelhante ao que aparece nas embalagens de cigarro –, onde se lê que consumir a erva em idade precoce aumenta o risco de dependência. A fatura indica que 1,74 dólares em impostos irão para o Quebec e 0,87 para a cidade de Ottawa.

Folheto informativo (“O que é preciso saber sobre a cânabis”), a caixa com o produto e a nota fiscal
Folheto informativo (“O que é preciso saber sobre a cânabis”), a caixa com o produto e a nota fiscal

Onde se pode fumar?

Certamente, alguém já está pensando em lançar um aplicativo para dispositivos móveis que mostre onde a planta pode ser consumida. O motivo é que cada governo provincial e municipal decide onde se pode acender um baseado. Muitos se fundamentam nos regulamentos relativos ao tabaco (autorizam em locais públicos ao ar livre, embora longe de escolas e hospitais), mas outros optaram por políticas mais restritivas. Além disso, os proprietários podem determinar que os locatários estão proibidos de usar cigarros de maconha dentro de casas ou apartamentos. "Era mais fácil fumar a erva quando era ilegal", diz Assan, um cliente de 42 anos.

Algumas prateleiras estão vazias devido à alta demanda
Algumas prateleiras estão vazias devido à alta demanda

Justin Trudeau justificou a legalização principalmente por duas razões: proteger os jovens de uma substância que tem riscos e combater o mercado ilegal. Alguns especialistas criticam o fato de a informação distribuída à população não ter sido muito abrangente (por exemplo, nem todas as casas receberam folhetos pelo correio e os anúncios de orientação no rádio e na televisão serem simples demais).

Por sua vez, o Governo federal enfatizou que o objetivo é tirar do crime organizado no primeiro ano 50% do mercado da cânabis. Parece ambicioso como cifra, quando se constata os problemas de abastecimento online e em filiais. E também pelos números citados pelos analistas: a demanda anual varia entre 611 e 773 toneladas. Apesar disso, a opinião geral é que é preciso deixar o tempo passar antes de se tirar conclusões estritas, levando em conta a extensão da medida. Enquanto isso, a vida no Canadá (pelo menos em Montreal) não mudou radicalmente após a legalização. A atmosfera é de celebração e dúvida, mas não de terror. Há cheiro de maconha em alguns parques e ruas o mesmo que já se notava meses ou anos atrás.

 

Quem pode produzir e vender maconha?

A produção só é permitida para empresas privadas que obtiveram uma licença federal. Ottawa permite o cultivo máximo de quatro plantas por residência (apenas para consumo próprio), embora as províncias de Manitoba e Quebec tenham proibido este plantio. A idade mínima de compra e consumo também mostra que os Governos provinciais têm espaço de manobra. Alberta e Quebec optaram pelo sugerido pelas autoridades federais (18 anos); no restante do Canadá é de 19 anos. A quantidade máxima de posse é de 30 gramas. As pessoas podem viajar com a erva por todo o território canadense, mas sem atravessar nenhuma fronteira; nem mesmo se a maconha for legal no local para onde se dirigem.

O sistema de venda também é decisão de cada Governo provincial. Pode-se comprar pela Internet ou nas lojas. Algumas províncias optaram por criar empresas estatais, outras decidiram conceder licenças a empresas privadas e também há modelos mistos. Em Quebec, o lugar de onde escrevemos, a venda online e nas lojas é de responsabilidade da Sociedade Quebequense da Cânabis (SQDC), uma empresa estatal semelhante à que controla o consumo de álcool na província francófona.