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COLUNA i

Homossexuais, negros e pobres votaram em um candidato que os considera inferiores ou os odeia

O que defendem 'ronaldinhos' e 'rivaldos', e demais eleitores de Bolsonaro, é que qualquer crime de ódio se legitima se a ação do governo corresponde às expectativas eleitorais

Movimento #elenão
Duas meninas nos protestos #Elenão, em 29 de setembro, no Rio. REUTERS

Uma noite em São Paulo entrei num táxi em que o motorista começou a me informar sobre os tipos de criminosos que eu encontraria na cidade. Há pessoas que falam com você sobre monumentos e depois há pessoas boas. "O pior", disse ele, "são os negros". Não os mulatos, os negros aguados, os negros chocolate ao leite, que também eram perigosos. "Os negros negros, os negros africanos." Ele sorriu olhando pelo espelho retrovisor. Até aquele dia eu nunca tinha visto na vida um homem mais negro que ele.

Fiquei com a dúvida de saber se o seu era um grau superlativo de dissimulação ou de racismo. O segundo não seria estranho. Nem é patrimônio do Brasil, claro. Embora eleitoralmente esteja prestes a dar um passo gigantesco em direção à última fronteira do humor. Jair Bolsonaro tem o apoio de 46% dos brasileiros depois de dizer que seus filhos não namorariam negras "porque foram bem-educados", que os habitantes dos quilombos, núcleos formados por descendentes de escravos, "não servem nem para procriar", que uma deputada "não merece" nem ser estuprada ("por ser feia", esclareceu depois), que preferiria que um filho seu morresse em um acidente a ser gay ("os homossexuais são assim pelo uso de drogas, apenas uma pequena parte é por defeito de fábrica"), que os pobres deveriam ter menos filhos e que a ditadura deveria ter matado mais 30.000, a começar pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Quando tinha 23 anos, Dilma Rousseff foi presa durante três anos e torturada com espancamentos e choques elétricos pela ditadura. Ao ser destituída da Presidência em 2016, Bolsonaro dedicou seu voto ao torturador de Rousseff: "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff". Seu filho, Eduardo Bolsonaro, fez o gesto da metralhadora ao votar. Este é o quinto país mais populoso do planeta, a sexta maior economia do mundo.

Para comprovar o alcance de um mecanismo cerebral tão simples e tão impactante, basta estas duas declarações de Bolsonaro a EL PAÍS em 2014. "Pena de morte? Eu nunca vi um morto voltar a cometer um crime”. "Crimes de homofobia? Morrem muito mais heterossexuais." Em razão da insistência da jornalista María Martín, Bolsonaro lhe perguntou se ela era gay. “Só porque alguém gosta de dar o rabo passa a ser um semideus e não pode levar porrada...?, disse ao encerrar a entrevista.

Homossexuais, negros, pobres, esquerdistas e mulheres que podem ser algo disso ou nada disso, simplesmente mulheres. Todos eles são a maioria absoluta do Brasil. Muitíssimos deles votaram em um candidato que os considera inferiores ou os odeia. Essa é a passagem do jogo bonito para o jogo de merda que Ronaldinho e Rivaldo empreenderam com seu apoio explícito aos extremistas de direita, e Neymar e Gabriel Jesús com uma curtida em uma mensagem de um ex-jogador de futebol ao capitão reformado do Exército, na qual diz que um presidente não pode ensinar valores, mas governar. O mesmo raciocínio de Rivaldo, que acredita que a "ideologia de gênero", o machismo, o racismo e o feminismo são valores aprendidos em casa e na escola: "O voto é para a escolha de um presidente, não de um pai."

Conclui-se que Rivaldo não se importará se Bolsonaro, se reduzir o crime e o desemprego, rir de seus filhos negros se eles se aproximarem de sua filha. O jogo de merda no qual os eleitores de Bolsonaro se meteram é que qualquer crime de ódio se legitima se a sua ação de governo corresponder às expectativas eleitorais. A gestão acima da moral em um universo em que a redução da violência em público justifica matar um homem em privado.

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