Um truque matemático para acabar com as filas nos grandes museus

A Galeria Uffizi, em Florença, que recebe 3,4 milhões de visitantes por ano, desenvolveu sistema baseado em Big Data para evitar esperas e gerar um “turismo sustentável”

Filas diante da Galeria Uffizi, em Florença, em 29 de junho de 2016
Filas diante da Galeria Uffizi, em Florença, em 29 de junho de 2016GIANNI CIPRIANO (NYT)

O turismo de massa e as hostes do pau de selfie transformaram a maneira de visitar o mundo. E também, é claro, as prioridades dos museus. A revolução, a modernidade, já não passam tanto pela inovação no relato da organização das coleções, como na década de noventa, mas por algo tão prosaico como a melhoria de uma experiência massificada e cada vez mais insuportável. A Galeria Uffizi, em Florença, é a quase tão famosa por suas obras de Botticelli e Leonardo quanto por suas filas. O mesmo acontece com os Museus Vaticanos em Roma e tantos outros centros culturais, que se transformaram em uma tortura emocional e climatológica quando temos de esperar mais de duas horas ao ar livre. A vida, pensam agora em Florença, é muito curta para consumi-la em uma fila.

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Quando Eike Schmidt (Freiburg, 1969) desembarcou em 2015 na Galeria Uffizi, o museu mais visitado da Itália (3,4 milhões de pessoas por ano), decidiu dedicar parte de seus esforços às questões do entorno artístico. Era o primeiro diretor estrangeiro da história do museu, que não tinha sequer um site e vivia de sua lenda. Primeiro, estabeleceu um sistema variável nos preços das entradas. A alta temporada e a baixa não podiam custar o mesmo. Isso ajudou. Em seguida, reorganizou a coleção e fez reformas para regular os fluxos de visitantes, que frequentemente se aglomeram diante de obras como A Primavera, de Botticelli, ou a Vênus de Urbino, de Ticiano. Mas faltava a pior propaganda que fazia de si mesma.

No domingo passado foi testado pela primeira vez um sistema baseado em um algoritmo que recolhe informações científicas – tais como o tempo médio de visita, a capacidade das salas, a época do ano e o comparativo histórico...– e sociais. Esta parte é a que dá vivacidade à máquina, pois baseia sua previsão do tempo de espera em questões como a meteorologia, o impacto de determinadas exposições temporárias ou o perfil dos visitantes.

Quando o sistema for colocado definitivamente em funcionamento (esta é uma versão beta que foi testada com os 7.561 visitantes do último domingo), nunca mais haverá filas. Cada visitante receberá ao chegar um horário de entrada, com uma margem de erro de 15 minutos, o que lhe permitirá usar o tempo de outra forma. De fato, neste fim de semana a Galeria Pitti já aumentou suas visitas em 22%. “A administração das filas é uma ciência exata, baseada em estatísticas, na estrutura de gestão, na informática... Mas também é uma ciência social, que não tem a ver com moléculas, mas com grupos de pessoas se comportam de maneira diferente dependendo do ambiente. Pudemos trabalhar isso para ter um modelo estatístico preditivo muito preciso, mas haverá casos que ainda não pensamos”, diz Schmidt.

Cerca de 3% dos visitantes passam quatro horas

Visitar a Galeria Uffizi não será como aguardar a vez no açougue. A precisão horária é fundamental para que não haja novamente filas de gente esperando a hora errada... “Analisamos o comportamento dos visitantes fora, mas também dentro. Vimos quais são suas estratégias quando visitam o museu, como se agrupam. Todos os dias há grupos que passam 40 minutos no museu ou menos. Isso significa que eles entram, tiram uma foto e saem. Cerca de 3% dos visitantes passam mais de quatro horas, chegam de manhã e saem durante a tarde. Mas a maioria passa entre duas e três horas. E isso é um fato muito reconfortante. Geralmente se pensa que o turismo de massa é superficial, mas não é assim”, diz Schmidt.

O sistema foi desenvolvido por uma equipe da Universidade de L’Aquila dirigida por Henry Muccini, presidente do Programa de Estudos de Informática. O objetivo, diz ele, não é apenas otimizar o uso. “Trata-se também de criar sustentabilidade no turismo. Redistribuir a carga de visitantes aumenta a qualidade da visita e melhora a visibilidade da cidade internacionalmente”. Além disso, afirma, há um elemento de segurança incontestável. “Uma fila, infelizmente, é um alvo terrorista muito claro”.

O risco de eliminar as filas está implícito no DNA do turismo de massa. Se não houver gente esperando na porta, será que vale a pena o que tem dentro?