“Segui uma dieta natural que interferia na quimioterapia”

O desespero perante um diagnóstico de câncer leva muitos pacientes a pseudoterapias

Elena Paredes, 41 anos
Elena Paredes, 41 anosAlvaro Garcia (EL PAÍS)

Ao final da última sessão de quimioterapia para tratar um câncer de mama, Isabel Vaquero deixou escapar: “Agora vou para casa tomar minha cúrcuma e o resto da dieta”. “A cara da oncologista mudou. 'Você sabe que isso inibe o tratamento?', me disse ela. Tudo desmoronou para mim. Enfim, segui uma dieta natural que interferia na quimioterapia.”

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Conta isso “meio envergonhada”. “Vão achar que sou tonta”, reflete, quase meio ano depois. Como muitos pacientes oncológicos (e de qualquer outra doença), Vaquero, uma espanhola de 45 anos, foi à Internet quando soube que tinha um câncer de mama “triplo A, o pior”. “Eu queria ajudar na minha cura”, justifica-se. Assim, foi parar no consultório de uma nutricionista naturalista que, por 50 euros a consulta (216 reais), lhe pautou um rigoroso regime “cheio de coisas com nomes que nem me lembro”. Além da cúrcuma – divulgada nas redes sociais com propriedades quase milagrosas –, também fez a dieta do limão (tomar o suco de um limão siciliano a cada manhã). “Para mim, que sempre tive problemas com a digestão, me destruiu o estômago”, conta por telefone.

Vaquero é parte de uma tendência crescente. Os oncologistas concordam que há cada vez mais pacientes que veem na Internet os boatos sobre o câncer e chegam aos consultórios influenciados pelo que leem. A maioria desses rumores é relacionada à alimentação. “Há os que asseguram que os suplementos nutricionais diminuem a toxicidade da quimioterapia”, conta o oncologista José Ángel García Sáez, do Hospital Clínico de Madri. Mas o pior, segundo o médico Vicente Guillem, é que o uso da medicina alternativa é tremendamente frequente e, no caso dos alimentos, muitos interferem no tratamento. Por trás dos boatos sobre o câncer estão os interesses de quem os cria.

Guillem diz que “os remédios naturais movimentam milhões de euros”. Vaquero pagou 200 euros (865 reais) por supostos remédios. “E é pouco, porque sou muito cuidadosa”, diz. Mas, perante situações de preocupação, os boatos proliferam. E as falsas expectativas se propagam com facilidade através das redes sociais. Entretanto, o vice-presidente da Associação de Pesquisadores em eSalud, Carlos Mateos, afirma que “quem compartilha os boatos pela Internet age assim por acreditar que são certos”. E isso é o que combate a iniciativa Saúde Sem Boatos, que em menos de um ano ganhou protagonismo na Internet.

Como Vaquero, Elena Paredes, madrilenha de 41 anos, também ficou tentada a procurar alternativas quando recebeu um diagnóstico de mieloma múltiplo. Tudo estava bem à mão. “No hospital Ramón y Cajal eram oferecidos tratamentos de reiki, e me disseram que podia me ajudar”. Após 15 minutos, percebeu que não era para ela. “Não precisava que um estranho pusesse as mãos em cima de mim com uma musiquinha para relaxar.” Juan Luis, de 64 anos, que tem câncer de próstata, também testou outra dessas terapias que o Grupo Espanhol de Pacientes com Câncer (Gepac) qualifica como inúteis: o mindfulness, que promete melhorar a saúde com concentração e respirações. “Na primeira sessão fiquei bem, me relaxou um pouco, mas assim que saí à rua passou. Na terceira sessão me sugeriram que, além disso, me consultasse com uma irmã do terapeuta. Tudo a 40 euros por sessão”, conta. Convenceu-se de que tudo aquilo não lhe servia para nada, e agora vai a um fisioterapeuta e um psicólogo. “Vai devagar, mas parece que melhor”, diz.

São apenas exemplos do que o secretário científico da Sociedade Espanhola de Oncologia Médica (SEOM), Guillermo de Velasco, descreve assim: “O câncer é uma doença que continua tendo um estigma social: muita gente ainda acha que câncer é igual a morte”, comenta. Para eles, os boatos satisfazem a necessidade de escutar que vão se curar sem obstáculos; algo que às vezes não ocorre nos consultórios. “As soluções que oferecemos aos pacientes não são fáceis”, argumenta Raúl Córdoba, hematologista da Fundação Jiménez Díaz de Madri. “O consultório é o melhor lugar para combater o boato”, argumenta De Velasco, oncologista do Hospital 12 de Outubro, também em Madri, acrescentando que se o paciente confiar em seu médico irá às consultas.

É difícil saber quantos pacientes usam as chamadas terapias alternativas. Segundo García Sáez, “uma em cada três mulheres com câncer de mama vai a esses tratamentos”. Algo que, afirma, “só gera um efeito placebo que custa até 300 euros (1.300 reais) por semana”.

A propagação dos boatos tem consequências. A ginecologista María Herrera, coordenadora da Unidade Mamária do Hospital Clínico, conta frustrada que “duas pacientes decidiram substituir o tratamento que lhes prescrevi pela dieta alcalina”. Herrera diz que, além dos doentes, “há pessoas que vivem com medo por culpa dos boatos”.

E isso quando vivem. Os pacientes que falaram nesta reportagem puderam contar suas histórias. Mas Guillem calcula que perdeu outros 20 por terem abandonado a medicina científica. Torcuato Fernández, presidente da Associação Espanhola do Laringectomizados, ainda deixa escorrer algumas lágrimas quando se lembra de uma amiga que decidiu tratar um câncer de mama com uma dieta natural: “Não só morreu. A família se arruinou e perderam o negócio que tinham perto de casa. E isso que tinha a mim, que sou um paciente especialista”, lamenta-se.

É um caso extremo. Córdoba argumenta que “é pouco frequente que os doentes abandonem os tratamentos prescritos por oncologistas, porque a medicina lhes oferece cura”. Mas os estudos indicam que quem recorre a tratamentos alternativos segue menos as recomendações médicas. Juan Luis, apesar da sua experiência, afirma que está “aberto a experimentar o que for, mas que possa ser verdade”. Isabel Vaquero não acredita que volte a morder a isca. “Você começa a olhar a Internet e é superperigoso. As pessoas aconselham você com boa vontade, mas confundem. Eu me senti uma idiota”, afirma. Elena Paredes achou melhor prevenir do que remediar – literalmente. “Faço o que o médico disser, e ponto”.

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