O ‘luxo’ de conseguir sobreviver em Miami

Restrições migratórias do Governo Trump e custo da viagem dificultam migração de para os EUA.

Dezenas de milhares pedem asilo para escapar da crise provocada pelo regime de Nicolás Maduro

Crise imigração Venezuela Miami
Voluntárias da ONG Venezuelan Awareness na sexta-feira, dia 24, em Miami.

Até há alguns anos, os Estados Unidos eram um lugar de férias para os venezuelanos. Hoje são um destino de sobrevivência. “Ainda em 2012 passamos três semanas aqui”, lembra Maigregori Mora, profissional de tecnologia de 45 anos que chegou este ano com a família. “Estivemos nos estúdios da Universal, em um parque aquático, vimos uma partida dos Yankees em Tampa e fizemos muitas compras. Gastamos entre 4 e 5.000 dólares. E desta vez vim, para começar uma vida nova, com 3.000 dólares e a roupa do corpo.” Agora é motorista dos aplicativos Uber e Lyft.

As prateleiras da ONG Venezuelan Awareness de Miami, que tem um centro de entrega de produtos básicos para venezuelanos recém-chegados, na sexta-feira, dia 24 de agosto, estavam lotadas. Em cada estante, uma etiqueta. Colchões de ar. Tapetes de banheiro. Saleiros. Toucas de recém-nascidos. Chaleiras. Abridores de latas. “Se meu pai souber que estou recebendo doações, acho que tem um ataque”, dizia María Alejandra Olmos, advogada de 39 anos que imigrou em junho para os EUA.

“Chegam cada vez mais desesperados”, contou a diretora da ONG, Patricia Andrade. “Quando abri isto em 2016 nenhum dos que vinham queria roupas. Hoje pedem de tudo. Há alguns dias veio um pai com uma menina de dez anos que tinha chegado da Venezuela sem sapatos, só com as sandálias que usava. Há famílias que pedem até comida, e há um ano estamos vendo que algumas crianças chegam com sinais claros de desnutrição”.

A advogada Olmos tinha resistido a sair de seu país, mas este ano disse basta. Sua mãe morreu de câncer. Viu as tias perderem “15 ou 20 quilos em alguns meses”. Ela, seu marido e seu filho de 11 anos tinham vistos de turista válidos, mas precisavam pedir outro para o bebê de um ano. Temiam não receber e que ao mesmo tempo revogassem os deles, como está acontecendo com frequência. Mas “o milagre aconteceu” e entregaram o visto da pequena. Segundo Olmos, naquela manhã no consulado não tinham aprovado sequer um visto de turista, e quando os da fila a viram ir embora sorrindo a olharam “como se fosse um ET”.

Duas meninas venezuelanas na sexta-feira em Miami no armazém da ONG Venezuelan Awareness.
Duas meninas venezuelanas na sexta-feira em Miami no armazém da ONG Venezuelan Awareness.

Reagindo ao aluvião de venezuelanos que chegam como turistas e pedem asilo político, os EUA restringiram a entrega de vistos de turismo na origem. A ONG Anistia Internacional denunciou em abril que “na Venezuela muitas pessoas solicitam dia após dia o visto [para os EUA] e recebem a negativa sem qualquer explicação” e acrescentou que fontes próximas à embaixada reconheciam que desde o verão de 2017 tinham sido recusadas mais de 80% das solicitações.

Os EUA são, depois da Colômbia, o segundo país com mais imigrantes venezuelanos (366.000, segundo dados de 2016 do escritório do Censo), mas as restrições migratórias de Washington sob a presidência de Donald Trump e a exacerbação da pobreza na Venezuela fizeram “diminuir o ritmo” da migração para os EUA, explicou por telefone o sociólogo especialista em migração Tomás Páez, da Universidade Central da Venezuela. “Além das dificuldades legais para ir para lá, o simples custo de uma passagem de avião para o venezuelano comum se tornou inacessível, um artigo de luxo absoluto. Então os EUA continuam sendo um país de destino, mas em menor medida, porque a avalanche se move para onde consegue e estão indo a pé ou de ônibus para a América do Sul”.

“Os venezuelanos mais pobres não chegam a Miami”, disse a diretora da ONG. “A maioria dos que vêm a nosso centro são profissionais: donos de empresa, engenheiros, administradores, médicos. E de qualquer forma chegam sem nada e têm de começar a trabalhar sem qualquer documento”. A advogada Olmos contou que seu marido se desdobra diariamente entre um emprego de manobrista e outro lavando pratos em um restaurante. E Jeissy Petit, de 38 anos, que aterrissou em 17 de agosto com seus três filhos pequenos, esperava que seu marido, “com a ajuda de Deus”, encontrasse emprego o quanto antes. “Na Venezuela vendemos a casa e duas caminhonetes. Com tudo isso conseguimos comprar duas passagens de avião e trazer 6.000 dólares para nos manter no início”, afirmou.

Todos eles chegaram com vistos de turista e afirmavam que seu plano para se regularizar era pedir refúgio por questões humanitárias. Os venezuelanos ocupam o primeiro lugar em pedidos de asilo nos EUA. No primeiro trimestre de 2018 foram solicitados 7.610, e o ritmo é apenas um pouco menor que em 2017, quando pediram 29.250. O aumento foi galopante desde 2013, ano da morte de Hugo Chávez, quando houve 786 pedidos. Congressistas pela Flórida dos partidos Democrata e Republicano solicitaram ao Governo que se outorgue aos venezuelanos sem documentos um Status de Proteção Temporária que lhes dê autorização de residência e trabalho enquanto a crise não diminui em seu país, mas parece improvável que a Administração Trump aceite, pois retirou essa proteção de outras comunidades em dificuldades, como a salvadorenha ou a hondurenha.

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