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Estados Unidos retomam sanções ao Irã e apoiam protestos populares

Entram em vigor nesta terça as novas penalizações ao comércio de metais e a transações em dólares com a República Islâmica, suspensas após o acordo nuclear de 2015

Entrou em vigor nesta terça-feira um pacote de sanções dos Estados Unidos ao Irã que havia sido suspenso após o acordo nuclear de 2015 e que atinge a emissão de dívida, o comércio de metais e as transações em dólares e riais. O Governo de Donald Trump espera que, com essa asfixia econômica, o Irã se veja obrigado a retirar seu apoio a grupos terroristas e retroceder no que considera serem ingerências territoriais no Oriente Médio. Washington nega alentar a queda do regime islâmico, mas dá seu pleno apoio aos protestos de cidadãos iranianos incomodados com a corrupção e a crise financeira.

Trump em 8 de maio, quando assinou a retirada dos EUA do acordo nuclear.
Trump em 8 de maio, quando assinou a retirada dos EUA do acordo nuclear. REUTERS

Nesta segunda-feira, Trump encerrou orgulhosamente uma etapa na geopolítica norte-americana, num movimento que amplia sua distância em relação à Europa, que prefere manter vivo o acordo nuclear com o Irã. Depois desta primeira fase de novas sanções que entrou em vigor à meia-noite de terça-feira, em novembro serão retomadas as penalizações a empresas petroleiras e de transporte. A Administração republicana enterra definitivamente o incipiente degelo com o Irã promovido por seu antecessor democrata, Barack Obama, cristalizado no acordo de 2015 entre Teerã, Washington e outras cinco potências. A Casa Branca retoma a política de pulso firme, sob o dogma de que essa é a única via para obter uma espécie de rendição completa da cúpula clerical iraniana.

Mas Brett Bruen, um diplomata que trabalhou como chefe de comunicação global da Casa Branca de Obama, considera que os EUA pagarão um “preço alto” pela perda de credibilidade ao renegarem o acordo, e também porque é provável que o Irã aumente sua ofensiva cibernética contra os EUA ou seu apoio a rivais no Oriente Médio. “É uma aposta perigosa. Washington está em geral agindo sozinho e sem muito planejamento”, disse ele por e-mail.

O diagnóstico de Trump é vitorioso. “O regime iraniano confronta uma escolha: muda seu comportamento ameaçador e desestabilizador e se reintegra à economia global, ou segue por um caminho de isolamento econômico”, disse ele em nota. “Ao mesmo tempo em que continuamos aplicando pressão econômica máxima ao regime iraniano, sigo aberto a alcançar um acordo mais completo que abranja toda a gama de atividades malignas do regime, incluindo seu programa de mísseis balísticos e seu apoio ao terrorismo.”

Esse cenário, entretanto, parece improvável por causa das dinâmicas diplomáticas e porque já foi a pressão internacional que levou Teerã a negociar seu programa atômico. Respondendo a uma jornalista, Trump se mostrou disposto na semana passada a se reunir “sem pré-condições” com o presidente iraniano. Mas Hasan Rohani reiterou nesta segunda-feira que não confia no republicano e que não tem nada a negociar com Washington.

Também John Bolton, assessor de Segurança Nacional de Trump e que no passado defendeu bombardear instalações nucleares iranianas, elevou nesta segunda-feira o tom contra Teerã. Em uma entrevista televisiva, afirmou que o regime está em um “terreno muito instável” e que “se fosse sério viria à mesa [de negociação]” com os EUA. Especulou ainda que a Guarda Revolucionária, sob as ordens do aiatolá Ali Khamenei, “usará a força contra seu próprio povo”.

O rial iraniano perdeu metade do seu valor desde abril por causa do temor de novas sanções. A desvalorização cambial, junto com a crescente inflação e a perda de investimentos estrangeiros, propiciou manifestações esporádicas no Irã contra a corrupção e a situação econômica, incluindo cânticos contra o Governo. A Administração de Trump não esconde sua satisfação com o mal-estar social. “Nossa política não procura uma mudança de regime, mas de comportamento”, disse um alto funcionário numa teleconferência com jornalistas. Ainda assim, observou que Washington “apoia as reivindicações” dos manifestantes e o “direito a protestar contra a corrupção e a opressão”.

Trump e os republicanos consideram que o pacto de 2015 era muito benévolo com Teerã, ao permitir a futura retomada do enriquecimento de urânio e por não abordar outros assuntos, como o apoio ao Hezbollah no Líbano e ao ditador sírio Bashar Al Assad. Na mesma teleconferência, esse alto funcionário argumentou que “terroristas, ditadores e milicianos” foram os mais beneficiados pela suspensão das sanções. Os defensores do pacto alegam que era utópico abordar todas essas questões.

EUA minimizam os esforços europeus

O destino do acordo nuclear passa por Bruxelas. A União Europeia tenta convencer o Irã a permanecer nele e estancar a sangria de multinacionais que cancelaram seus investimentos nesse país por causa da retomada das sanções norte-americanas. Mas os EUA consideram isso inútil. “Não é algo com que estejamos particularmente preocupados”, disse à imprensa um alto funcionário do Governo de Washington sobre a iniciativa europeia de blindar suas empresas no Irã. “É preciso olhar o que as companhias estão fazendo”, acrescentou, referindo-se ao êxodo de investimentos.

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