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Lucas Hernández, finalista na Copa graças à burocracia e a Hierro

Ex-diretor esportivo da Federação Espanhola evitou o erro de que se naturalizasse espanhol e agora o lateral pode jogar pela França

Lucas Hernández, depois da vitória da França contra a Bélgica. Ampliar foto
Lucas Hernández, depois da vitória da França contra a Bélgica. Getty Images

Lucas Hernández está com a cabeça raspada. O look não é um capricho estético. Tem a ver com a definição que Antoinne Griezmann aplica à seleção francesa: “Somos um exército”. Griezmann, como Lucas e alguns jogadores franceses, também exibe um corte de cabelo curto. Até o excêntrico Paul Pogba optou por raspar a nuca e não adornou sua cabeleira com um penteado excêntrico e com algumas das tinturas escandalosas que chegou a exibir. “Lucas é um dos meus soldados, mas precisa melhorar no ataque”, brincou Griezmann quando perguntaram-lhe sobre seu colega do Atlético de Madrid no começo da Copa. Um campeonato que Lucas pôde jogar pela França por uma ligação preventiva de Fernando Hierro, agora ex-diretor esportivo da Federação, quando tudo estava certo para que Julen Lopetegui o recrutasse convocando-o para os amistosos da Espanha em março.

Nascido em Marselha, mas criado na Espanha, a Federação Espanhola e seu agente, Manuel García-Quilón, manobraram para que Lucas, que nunca havia sido convocado por Deschamps para a seleção francesa principal, vestisse a camisa da Espanha. O excesso de zelo de Hierro evitou que isso ocorresse uma semana antes de que seu pedido para se naturalizar espanhol fosse aprovado no Conselho de Ministros. Se recebesse a nacionalidade espanhola e renunciasse à francesa, Lucas não poderia jogar essa Copa por nenhum dos dois países. Se não fosse por Hierro, o defensor não estaria a uma partida de ser campeão do mundo.

Lucas já deu declarações em que dizia sentir-se identificado com a Espanha e deixava subentendido que em breve seria convocado por Lopetegui. Hierro quis assegurar-se antes de que não iriam dar um passo em falso e fez uma ligação a um de seus contatos na FIFA. A resposta da instituição foi contrária à naturalização de Lucas desde o começo. A consulta chegou ao Comitê do Estatuto do Jogador da FIFA. García-Quilón e outros diretores da Federação Espanhola não acreditaram nas notícias que Hierro lhes deu. Irritados e unidos, um dia depois ainda insistiam que Lucas, apesar de ter disputado um campeonato europeu sub-19 com a França, poderia jogar pela Espanha. Somente uma carta da FIFA ratificando que não poderia ocorrer a mudança de federação, e a própria insistência do diretor esportivo da Federação Espanhola de não colocar em risco o futuro internacional do jogador, evitaram o erro. Caso ocorresse, Hierro teria sido muito questionado no cargo.

Naturalidade

Quando Lucas foi convocado por Deschamps, precisou fazer um discurso bem diferente ao que pronunciou durante meses. O técnico francês também colaborou com sua integração e que a imprensa francesa não questionasse demais essa mudança de caminho.

Deschamps agora está encantado com o rendimento oferecido por Lucas durante a Copa. Apesar de ser mais zagueiro do que lateral, diante da má fase de Mendy, utilizou-o como lateral esquerdo, uma posição em que também já jogou no Atlético quando Filipe Luís esteve contundido. Como aconteceu quando Simeone foi obrigado a escalá-lo contra o Barcelona e o Bayern de Munique na Champions League, apesar de sua juventude, Lucas não sentiu a responsabilidade. “Para mim, jogar de lateral esquerdo já é algo natural. Estou bem porque já me acostumei à posição no Atlético”, afirma. “Defensivamente trabalhamos muito nos últimos treinos para poder chegar a esse nível. Deschamps não gostou dos três gols sofridos contra a Argentina e insistiu muito no trabalho de todas as linhas”, diz Lucas.

No domingo, a partida da sua vida o aguarda. Irá disputá-la graças à burocracia e por aquela ligação de Fernando Hierro. Caso contrário, já estaria agora treinando com o Atlético de Madrid.

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