Eleições no México: quando seu vizinho é Donald Trump

A resposta aos contínuos ataques do inquilino da Casa Branca marcará a relação do próximo presidente do México, que será eleito neste domingo, com os Estados Unidos

Um mural com imagem da virgem de Guadalupe sobre a bandeira mexicana em Ciudad Juárez.
Um mural com imagem da virgem de Guadalupe sobre a bandeira mexicana em Ciudad Juárez.Hector Guerrero

A influência de Donald Trump nas eleições mexicanas foi escassa, por não dizer nula. Contra o que se poderia pensar, dada sua facilidade de desestabilizar com um mero tuíte a agenda do vizinho do sul, o mandatário dos Estados Unidos não emitiu nenhum sinal sobre qualquer dos candidatos que disputam a presidência do México neste domingo. Nem para se mostrar partidário nem para sugerir discordância com os aspirantes. Nada. Entretanto, todos olham de esguelha para o norte, ante a incômoda presença do inquilino da Casa Branca.

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É uma obviedade afirmar que a relação com os Estados Unidos é o maior desafio para a política externa mexicana. Sempre foi, e isso não vai mudar, ganhe quem ganhar neste domingo, por mais que todos os candidatos e suas equipes de campanha, a cada certo tempo, se esmerem em desenvolver o discurso de que o México deve ampliar seus laços diplomáticos e comerciais com outros países e regiões; que deve olhar para a China e a Índia, para a União Europeia ou para a América do Sul, esquecida até que os rumos autoritários da Venezuela tornassem inevitável que todos os países voltem sua atenção para o sul, e ainda mais se, como no caso do México, isso puder servir como arma na política interna.

A grande incógnita será ver como o próximo presidente administra a relação com o vociferante Trump, que já deu fartas amostras de que não considera o México nem um sócio nem um interlocutor para nada, enquanto a renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), com os Estados Unidos e o Canadá, continua em aberto, e os desafios em matéria de segurança e migração são cada vez maiores. No primeiro caso, todos os candidatos deram sinais de querer manter o Nafta. O esquerdista López Obrador, favorito em todas as pesquisas, já designou uma pessoa que deverá se incorporar à equipe negociadora, que continuará liderada até o final de novembro por Ildefonso Guajardo, atual secretário de Economia.

"López Obrador tem sido muito moderado, entendeu muito bem que, embora o livre comércio não seja o mundo que ele gostaria de ter construído, não convém sair do tratado", opina Carlos Elizondo, professor do Instituto Tecnológico de Monterrey, para quem "a variável Trump é muito complicada, enquanto continuar a negociação do Nafta não acredito que ninguém vá atiçar o fogo". Em matéria de segurança, o candidato que se mostrou mais taxativo foi Ricardo Anaya, que as pesquisas colocam num longínquo segundo lugar. O político condicionou uma futura colaboração migratória com os Estados Unidos a que Trump pare de menosprezar os mexicanos. José Antonio Meade, ex-chanceler, é o mais tíbio dos três candidatos, mas ainda assim mais firme que o atual secretário de Relações Exteriores.

Fragmento do muro fronteiriço no Rancho Anapra.
Fragmento do muro fronteiriço no Rancho Anapra.Hector Guerrero

Para outros analistas, a presença do presidente norte-americano deve ser lida em chave interna. "Peña Nieto [o atual presidente do México] poderia ter utilizado as ofensas de Trump para se fortalecer, poderia tê-las usado como um elemento de união entre todos os mexicanos. O México recebeu muitos sinais para liderar a rejeição a Trump no mundo. Não soube fazer isso, tampouco quis, suas decisões foram muito atrapalhadas", aponta Carlos Bravo Regidor, professor do Centro de Pesquisa e Docência Econômicas (CEDE). A decisão de convidar Trump quando ainda era candidato, horas antes de este lançar um forte discurso contra a imigração – e contra o México –, é algo de que Peña Nieto e seu chanceler Luis Videgaray, artífice daquela reunião, ainda não conseguiram se recompor. A mais que provável vitória de López Obrador neste domingo traria uma guinada na relação com Trump. Além das frases grandiloquentes que o candidato tem lhe dedicado, dizendo que exigirá respeito e que o México não será o saco de pancadas da Casa Branca, Bravo Regidor considera que López Obrador "poderia utilizar a figura de Trump para se reafirmar como um líder interno".

Independentemente de como administre a relação com o inquilino da Casa Branca, se há algo em que todos os analistas concordam é que, caso López Obrador vença, a política externa não será uma das suas prioridades. "A lógica dominante nele é ter o mínimo de sua atenção fora do México, ele não gosta das viagens nem de se relacionar com líderes estrangeiros", aponta Elizondo. No ano passado, fez a única viagem internacional de que se tem lembrança no caso dele. Em um eclético périplo, reuniu-se com Michelle Bachelet, então presidenta do Chile, com Lenin Moreno, mandatário do Equador, e com o líder dos trabalhistas britânicos, Jeremy Corbyn. Finalmente, parou na Espanha, onde foi recebido por Miguel Ángel Revilla, presidente da Cantábria, a região onde nasceu o avô de López Obrador.

"A melhor política externa será uma política interna forte", afirmou o líder do Morena, insistindo também, ao ser perguntado sobre a crise na Venezuela, que não é partidário de ingerências em países estrangeiros. No último ano e meio, o Governo de Peña Nieto encabeça as críticas da América Latina ao autoritarismo de Nicolás Maduro, recuperando, de certa maneira, uma liderança que o México tinha deixado de lado desde os processos de paz na América Central. Não dá a impressão de que López Obrador irá seguir esse caminho, não tanto por sintonia política com Maduro, algo que parece cada vez mais longínquo, e sim por sua convicção de que deve mudar o México em primeiro lugar.