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TRIBUNA

Navegando em mares desconhecidos

Fotógrafo Victor Moriyama estreia coluna para debater questões pertinentes ao fotojornalismo e à fotografia documental brasileira

Navegando em mares desconhecidos

Sou fotógrafo deste jornal praticamente desde seu princípio no Brasil e, nesse sentido, me sinto um subcomandante fotográfico deste navio. Colegas de profissão creem que sou editor de fotografia por aqui, mas se enganam. Sou apenas mais um marinheiro remando contra a maré. Tive o privilégio de trabalhar com todos os repórteres e editores que passaram por esta aguerrida redação no coração do charmoso e branco bairro de Pinheiros em São Paulo. Tenho muito orgulho das reportagens especiais que fizemos durante estes anos com o propósito de iluminar questões complexas deste país submerso em injustiça. Considero nossa profissão uma verdadeira regalia em que nos é permitido conhecer de forma íntima e testemunhal, ainda que rapidamente, aspectos fundamentais das perversas relações socioambientais que se agravam ano após ano no leme desgovernado de capitães irresponsáveis e corruptos que governam a nação. Em tempos politicamente sombrios como os que vivemos atualmente, a célebre frase de Tom Jobim “o Brasil não é para amadores” resume tudo. É nesta emaranhada contemporaneidade que estreio este tão desejado espaço. Nele, pretendo debater questões pertinentes ao fotojornalismo e à fotografia documental brasileira a partir do ponto de vista dos autores a autoras que bravamente se empenham em esmiuçar as profundezas imagéticas deste enigmático país. Quais são os temas que as (os) sensibilizam? Como abordar esteticamente as narrativas propostas nas reportagens? Que rumos seguimos no fotojornalismo tupiniquim? Quantas angústias existenciais nos cercam ao longo da vida? As perguntas são muitas e as respostas, espero, sejam fruto de um permanente diálogo com a comunidade ao qual se propõe este espaço com consciência do seu lugar de fala cercado de privilégios

Quando comecei a fotografar, 13 anos atrás, não ousaria imaginar e tampouco tinha a ambição de escrever uma coluna periódica sobre fotografia num jornal global que direciona boa parte de suas atenções e intenções para os países latino-americanos. Os caminhos que a vida traça para nós são maravilhosamente imprevisíveis e devemos surfar as ondas da vida na mesma forma que uma criança brinca no mar pela primeira vez, atenta a cada detalhe do que está por vir. Fotógrafo escrevendo? Sim! Me sinto um marujo de primeira viagem cujo frio na barriga quase paralisa e o enjoo marítimo agita toda a alma. Em minhas travessias pelo território nacional estive sempre bem acompanhado de meu diário de bordo, um caderno de notas que é para mim fundamental pois impede o esquecimento dos pensamentos que saltam ao longo do dia como os peixes mergulhadores.

Trata-se de um exercício que muito contribui para ampliar a clareza dos temas que trabalhamos ao longo desta profunda viagem que é a vida. Esta prática me traz até aqui com o objetivo, agora, de fomentar a cena fotográfica brasileira e percorrer os pensamentos e as reflexões das companheiras e companheiros de profissão. Se por um lado é difícil mensurar os impactos e transformações sociais efetivas provocados pelas imagens que produzimos, por outro, nossa inquietude visa ampliar os graus de informação e consciência da população ao retratarmos trabalhos de pessoas que admiramos, feitos na base da sociedade e pelo qual nossos olhares são capturados. Esta cabine de comando será um grande desafio pessoal no qual pretendo navegar com leveza, paixão e bom senso para dar voz aos olhos brilhantes destas fotógrafas e fotógrafos que contrários a mecanização dos apertadores de botão, propõe reflexões inovadoras e emocionantes.

Diante das redações esvaziadas dos grandes jornais do país, uma coluna fotográfica digital é uma interessante ferramenta para que os leitores conheçam estes autores e autoras ainda tão desvalorizados(as) pelo meio em que trabalham. E, assim, possam ultrapassar a cortina da curiosidade que nosso ofício parece despertar em parte da população. A melhor parte de uma fotografia é tudo que vem antes dela, uma vivência rica que fica guardada nas gavetas da memória e dispersada em conversas de botequim. No contemporâneo instante de super produção de imagens que rompe a casa dos bilhões, meu ideal romântico e provavelmente ingênuo, se propõe a publicar imagens e entrevistar estes magníficos seres que enxergam luz por onde passam e nos permitem conhecer aspectos ocultos da realidade brasileira. Sim, somos resistentes! A paixão que corre em nossas veias é a de conhecer pessoas e poder contar suas histórias de vida, seus dramas, documentar a realidade tão estruturalmente injusta, mostrar o além-mar para um povo desconhecido. É também uma jornada pessoal em busca do autoconhecimento marcada por dores e amores refletidos nos olhos e na alma de quem fotografamos. Nesta rede de sentimentos, quais são os maremotos individuais que atravessamos? Qual a urgência de documentar as transformações enquanto elas ocorrem numa sociedade que flutua em direção à cegueira? As indagações são permanentes e fazem parte dos processos criativos ao mesmo tempo que são os próprios trampolins que nos arremessam num mergulho profundo na realidade. Espero marear em companhia de uma tripulação diversa e participativa no desejo que estas palavras possam penetrar a superfície das discussões em busca das águas geladas das profundezas dos oceanos. Que venham as boas tempestades em alto mar.

Victor Moriyama é fotógrafo e colabora com os mais importantes jornais do mundo. (www.victormoriyama.com.br)

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