Um quarto de bebê na rota dos investigadores de Michel Temer

Polícia Federal encontra 24 milhões em contas de amigo de Temer e elo com empresa que atua no porto de Santos.

Michel Temer no Palácio do Planalto.
Michel Temer no Palácio do Planalto. REUTERS

Uma conta na Suíça cuja a senha é o nome da própria mãe. Pedalinhos batizados com os nomes dos netos estacionados no lago de um sítio. Obras de arte que ocultam milhões de dólares em propinas. Um bunker que armazenava 51 milhões de reais em espécie. E, agora, o quarto de um bebê como espaço para esconder documentos comprometedores. O cardápio de possíveis provas contra políticos e lobistas envolvidos na Operação Lava Jato não para de crescer.

Nesta semana veio à tona a íntegra de um relatório da Polícia Federal que mostra uma proximidade entre o coronel aposentado da Polícia Militar João Batista Lima Filho – o amigo do presidente Michel Temer (MDB) e que é apontado como um de seus operadores – e a empresa Rodrimar, que atua terminal portuário de Santos e teria pago propina para se beneficiar do Decreto dos Portos, emitido pelo presidente no ano passado. Ambos são investigados no inquérito que apura se houve irregularidade na assinatura desse decreto. O curioso desta vez é que parte dos documentos encontrados para sustentar a acusação contra Lima estavam no closet do quarto de um bebê de um sócio dele, o empresário Carlos Alberto Costa. Nesse local havia uma série de papéis das empresas Rodrimar, Companhia Docas do Estado de São Paulo e Libra.

Assim como a papelada que seria um vínculo entre o militar aposentado e a empresa portuária, os policiais também identificaram uma offshore sediada no Uruguai que teria vínculos com Lima e encontraram extratos bancários no valor de 24 milhões de reais em nome de duas empresas dele e em sua conta de pessoa física.

O coronel atuou em várias campanhas de Temer para deputado federal entre os anos 1990 e 2000. Lima também é citado na delação da JBS como tendo recebido valores para o emedebista.  Nesta terça, o empresário José Antunes Sobrinho, dono da Engevix, que também já acusou o coronel de receber propina para Temer e tentar se cacifar como delator voltou a falar com a Polícia Federal, segundo o jornal O Globo. Lima e Temer sempre negaram todas as acusações e qualquer envolvimento com a Rodrimar ou que teriam recebido propina para beneficiá-la. Quando foi preso preventivamente no final de março, ele se negou a prestar esclarecimentos aos policiais federais.

Estratégias

A estratégia de tentar ludibriar os investigadores da Lava Jato, até o momento, resultou em descobertas comuns, entre os criminosos do colarinho branco, e outras menos usuais. No primeiro grupo está a ocultação de bens por meio da compra de obras de arte. É o que ocorreu com o lobista Milton Pascowitch e com o ex-diretor da Petrobras Renato Duque. Segundo a Polícia Federal, ambos compraram dezenas de quadros e esculturas com parte dos milhões de reais que movimentaram dentro do esquema de desvio de recursos da petroleira.

Outro que buscou um esquema conhecido, o de ocultar bens em paraísos fiscais, foi o ex-deputado federal Eduardo Cunha (MDB-RJ). Enquanto ainda era parlamentar ele possuía contas na Suíça em que o nome de sua mãe (Elza) era a resposta secreta para acessar à movimentação financeira. Essas e outras acusações resultaram na cassação de seu mandato e a sua prisão. Cunha está detido em Curitiba há um ano e sete meses e já foi condenado por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fraudulenta de divisas.

No grupo dos esquemas mais acintosos está o suposto bunker de Geddel Vieira Lima (MDB-BA), ex-deputado e ex-ministro de Temer réu acusado de armazenar 51 milhões de reais em dinheiro vivo em um apartamento. Geddel está preso na penitenciária da Papuda, em Brasília, há noves meses. A polícia suspeita que a fortuna encontrada no apartamento em Salvador (BA) era dinheiro de propina. O ex-deputado é réu em dois processos e investigado dentro do esquema batizado como “Quadrilhão do MDB”.

Lula, condenado em segunda instância pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, está preso em Curitiba (PR) há quase dois meses pelo caso do triplex do Guarujá. Mas ainda responde a outros seis processos criminais, um deles, o do sítio de Atibaia. É no local que foram encontrados dois pedalinhos em forma de pato com os nomes de dois netos do petista, Pedro e Arthur. Para os investigadores, é um dos indícios de que a propriedade é dele. Nesse caso, os policiais suspeitam que o ex-presidente tenha recebido o imóvel e parte dos bens que estão nele como propina pago pelas empreiteiras Odebrecht e OAS. O petista nega as acusações e diz que nem o sítio nem o triplex pertencem a ele.