Na fronteira entre a ficção e a verdade, ‘Los Territorios’ faz retrato do século 21

Longa argentino, de Ivan Granovsky, mescla documentário com a remontagem das cenas de fracassos da vida do diretor, fazendo da autoironia um retrato das crises da humanidade nos anos 2010

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Filmes em que ficção e documentário surgem embaralhados são uma inegável tendência do cinema mais recente. Mas o procedimento de mesclar dados reais com outros “de mentirinha” em uma mesma obra se tornou algo tão rotineiro que poucas produções realmente se destacam; virou quase que um cacoete cinematográfico moderno. Nesse contexto, é um alívio o surgimento de um filme como Los Territorios. Sim: a obra também transita o tempo todo entre as fronteiras de verdade e ficção, mas o longa do argentino Ivan Granovsky traz um frescor e uma visão original nem sempre presentes em outras produções.

O longa, que teve première mundial no Festival de Roterdã (destinado à obra de diretores iniciantes) do ano passado, é uma coprodução entre Argentina e Brasil – o capital nacional veio pela produtora SANCHO & PUNTA, produtora associada do elogiado Zama. No entanto, é uma obra bem mais internacional ainda em termos geográficos: há trechos filmados em locais bastante diversos, do Chile à Palestina, passando por Espanha, Grécia e Brasil.

O filme tem por foco fatos (mais ou menos) verdadeiros da vida do próprio diretor. Filho de uma mãe endinheirada e um pai famoso no jornalismo internacional da Argentina (Martin Granovsky), o jovem Ivan nunca soube muito bem que rumo tomaria na vida: flertou com a história, o jornalismo e a direção de cinema, sem muito sucesso em nenhum. Só conseguiu algo quando juntou um pouco dos três, ao decidir produzir um filme documental que fala tanto de jornalismo quanto de crises e conflitos pelo mundo.

Ivan é um sujeito antes de ideias que de realizações: sempre teve milhares de projetos, mas jamais conseguiu terminar nenhum. Parece finalmente se encontrar com esse tal documentário – que é, justamente, o que acabaria se tornando “Los Territorios”. No filme, o cineasta reconstitui certas cenas que teriam se passado com ele mesmo nesse processo, mas também inclui registros verdadeiros. Ele mesmo é o “protagonista” e, quando em cena, é pura autoironia: reconhece todas as suas qualidades (a excelente memória, por exemplo), mas sobretudo seus fracassos. Nunca esconde que o que conseguiu foi graças a financiamento materno e contatos profissionais indicados pelo pai; com esse suporte, pôde rodar o mundo atrás de seu projeto.

Como um Forrest Gump do terceiro milênio (seria por acaso que tantas vezes ele apareça correndo no filme?), Ivan de certo modo está presente no centro de todos principais conflitos da Terra. Mas o timing nunca é perfeito: quando vai a Paris, motivado pelo ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo, pega uma semana em que nada de especial acontece. Aliás, Ivan é mestre em desperdiçar oportunidades que poderiam ser únicas: em certo ponto, consegue uma entrevista exclusiva com um craque do futebol argentino, mas sua incapacidade de conduzir a conversa torna o material inaproveitável. Em outro episódio, quando na ilha grega de Lesbos para acompanhar a chegada de refugiados sírios, sua postura passiva e algo tímida o impedem de conseguir depoimentos valiosos.

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Mas é justamente aí que o longa se distingue: Ivan, ao reunir em um filme esses seus “fracassos” profissionais, com suas “não entrevistas” e oportunidades perdidas, junta um material formidável para traçar um panorama dos principais conflitos modernos. O “pouco” que Ivan consegue em cada viagem já tem riqueza o suficiente para compor um filme de retalhos que dá uma noção do planeta nos anos 2010.

Aqui e ali, ficamos sabendo informações sempre interessantes. Por exemplo, que 300.000 portugueses emigraram do país por conta da crise econômica. Ou que israelenses arrependidos por defender posturas sionistas no passado hoje tentam ajudar palestinos, unindo-se em organizações com essa finalidade. Ou ainda que, para alguns bascos, a unidade de um País Basco emancipado tem menos a ver com delimitação geográfica do que com o alcance da língua basca (cidades de outras regiões, mas onde o idioma é falado, também seriam bascas).

Ou seja: mesmo sem um grande furo jornalístico, sem um incrível registro de conflito armado, o filme transmite a essência das grandes crises atuais. O Ivan Granovsky da vida real certamente não é o simples filhinho de papai que o filme tantas vezes mostra. De qualquer modo, teve uma excelente ideia ao reunir o material e, de maneira brincalhona, tirando sarro de si mesmo, fazer seu filme. Que, no fim das contas, é muito mais sério do que parece na superfície; é um sólido documento do mundo de hoje.

Por fim, vale ressaltar que o Brasil aparece algumas vezes no longa. Uma delas é quando Ivan viaja com o pai, auxiliando-o em entrevistas com políticos da América Latina, e vai a Brasília encontrar o então presidente Lula. Da conversa em si, nada vemos – apenas o petista pedindo para que todos os aparelhos eletrônicos fossem desligados antes da conversa. E após a entrevista, sorridente, tirando fotos com os dois Granovsky (assumidamente fãs dos grandes líderes da esquerda mundial).

Em outro trecho, Ivan vem ao país com a ideia de um filme de ficção em que deuses gregos viriam ao Brasil oferecer serviços a um certo Regente do Submundo – que seria ninguém menos que Michel Temer. Mesmo sem o tal projeto ir adiante, ainda assim vemos imagens do período final do governo Dilma, com Ivan transitando por algumas das passeatas contra e a favor da presidenta. Das tantas crises mundiais, nem a brasileira ficou de fora do amplo mosaico proposto por Los Territorios.

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