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MARIO RUIZ TAGLE | PRESIDENTE DA NEOENERGIA

“Não faz sentido privatizar as elétricas para acabarem nas mãos de estatais estrangeiras”

A disputa entre as duas maiores elétricas europeias pela Eletropaulo chega à hora decisiva

A subsidiária brasileira da espanhola Iberdrola ataca sua rival, a pública italiana Enel

Mario Ruiz Tagle, presidente da Neonergia.
Mario Ruiz Tagle, presidente da Neonergia.

Após semanas de uma dura queda de braço, com desqualificações públicas entre os dois concorrentes, o desfecho da disputa pela Eletropaulo está a caminho de se conhecer. Nesta quinta-feira ficarão públicas as ofertas finais de um leilão que transferiu para o Brasil uma guerra entre as duas principais elétricas europeias, a espanhola privada Iberdrola e a italiana, com maioria de capital público, Enel. O empenho das duas em conseguir o controle da elétrica paulistana, que garantirá ao ganhador o comando do setor no Brasil, fez subir o preço, que no final vai ultrapassar provavelmente o patamar de 5 bilhões de reais.

Mario Ruiz Tagle, o chileno que preside Neonergia, a subsidiária brasileira da Iberdrola, decidiu falar na hora final da disputa para defender as chances de sua companhia e atacar as atuações da concorrente, que, segundo ele, por ser uma empresa com maioria de capital público, não respeita as regras do livre mercado. Ruiz Tagle critica que o setor elétrico brasileiro esteja caindo nas mãos de empresas controladas por Estados estrangeiros.

Pergunta. Por que essa disputa virou tão acirrada?

Resposta. A disputa é acirrada pelo nível de desigualdade nas condições em que está acontecendo. Nós estávamos concorrendo em um processo de ancoragem de emissão primária de ações e propomos à Eletropaulo uma estrutura para resolver o problema financeiro que eles tinham e que garantisse transparência e concorrência para que os acionistas da companhia pudessem se beneficiar. Nós ganhamos no dia 16 de abril o direito de ancorar essa emissão primária com um acordo que era muito claro, com um preço de 25,51 reais por ação. O nosso compromisso era lançar uma OPA [oferta pública de aquisição] sobre 100% da companhia, o que garantiria o lucro dos acionistas e resolveria os graves problemas financeiros que a empresa nos tinha colocado. Mas, contra todas as regras de transparência e de fair play nos negócios, a Enel, que tinha perdido a emissão, fez uma OPA hostil por fora. E não só isso: foi falar no TCU, na CVM, que o nosso acordo estava contra as regras da concorrência, sem dizer que ela tinha participado ativamente desse processo. Acho que sua conduta tem provocado nossa reação para esclarecer que estamos perante uma companhia que, embora se apresente no mercado brasileiro como privada, tem claramente um controle do Estado italiano. É uma companhia estatal estrangeira que quer ganhar aqui um ativo.

P. Por que é tão importante a Eletropaulo para a Neonergia?

R. Porque para nós faz muito sentido do ponto de vista estratégico. Estamos no mercado brasileiro há 21 anos, somos uma companhia brasileira controlada pela Iberdrola, uma empresa espanhola, mas temos na casa de 10,5 milhões de clientes no Nordeste e também a Elektro no Estado de São Paulo. Isso nos garante uma situação muito interessante do ponto de vista das sinergias operacionais e geográficas, além de uma presença relevante em um mercado como o de São Paulo. Nós podemos trazer para a companhia a viabilidade de um plano de investimentos que garanta a qualidade e segurança do serviço, e também um acordo que beneficie os acionistas. No caso da Enel, eu estou convicto de que a questão vai além do preço e da compra, a questão é desenvolver uma política industrial comum às empresas estatais estrangeiras, que só vêm ao Brasil para conseguir um território. É seguir as ordens da matriz estrangeira, trocar fornecedores por outros de fora, importar bens para o Brasil, tomar uma posição estratégica no coração do PIB brasileiro. E isso lhes permite se situar em uns níveis de preço acima dos limites razoáveis para eles, que não têm as nossas sinergias.

P. As últimas ofertas já ultrapassaram o patamar de 30 reais por ação. Não estão correndo o risco de que a disputa faça que a operação deixe de ser rentável?

R. Quem corre esse risco é a Neonergia, que está preocupada com a rentabilidade e com o retorno para seus acionistas. As empresas estatais estrangeiras, infelizmente, na conduta que elas têm mostrado no Brasil, não têm muita preocupação com isso. Qual é o seu interesse se a energia que está sendo distribuída no Brasil não pode ser levada para a Itália? Se viesse aqui na procura de minerais, de alimentos, de produtos industriais... Mas comprar companhias desta natureza é só um posicionamento geopolítico que garante qualquer preço. Qual é objetivo de ter uma concorrência tão acirrada para que os únicos beneficiários sejam os acionistas da companhia? Nesse preço que está sendo colocado no mercado, a companhia não recebe um real. É verdade que a Eletropaulo é muito atraente mas alguém tem que se dar conta de que é preciso preservar a companhia antes do lucro dos acionistas. Porque qualquer um que ganhar vai ter que assumir esse preço dentro de sua estrutura de financiamento. Se o preço virar irracional, então só vai ter ou uma briga pesada para subir as tarifas ou cortar os investimentos. A questão da Eletropaulo vai além do preço.

P. Mas agora a Neonergia também pode ter o risco de tomar a companhia em umas condições de muito menos rentabilidade.

R. Sem dúvida, todo aumento de preço leva a perder rentabilidade, mas aí temos a capacidade de gestão de cada um dos concorrentes para conseguir, ainda nessas condições, criar valor para sustentar essa rentabilidade. É esse um dos nossos limites. Porém, o Estado italiano não os tem. Eles fizeram uma guerra suja e inexplicavelmente conseguiram que o Conselho de Administração da Eletropaulo cancelasse essa emissão primária.

P. Quais são esses graves problemas financeiros da Eletropaulo?

R. O grande problema está sinalizado por eles: precisa de recursos urgentes para diminuir o custo de sua dívida e para alavancar o acordo financeiro que ela fez com a Eletrobras no começo do mês de março, por uma disputa antiga, que foi fechado em 1,5 bilhões.

P. A Iberdrola tem anunciado 25 bilhões de reais de investimentos no Brasil nos próximos cinco anos. Onde eles estariam focados?

R. Faz parte do nosso plano de desenvolvimento estratégico, voltado principalmente para expansão e melhoria da rede nas nossas áreas de concessão com o intuito de garantir a segurança no serviço. No Nordeste temos que construir linhas e subestações e automatizar a rede. E a Elektro é uma empresa mais madura, embora ela tenha também algumas necessidades de investimento. Além disso, temos investimentos em linhas de transmissão e na participação em leilões de energia eólica e fotovoltaica. Mas esta operação da Eletropaulo não faz parte desses 25 bilhões de reais.

P. Há ainda muitas incertezas pairando sobre a economia brasileira. A companhia não tem preocupação com isso?

R. Como disse o presidente da Iberdrola e da Neonergia, o doutor Ignacio Galán, a incerteza é um medo que as pessoas jovens têm. As pessoas mais velhas, como as nossas companhias, já viveram muitas coisas. Os países precisam da energia, não há um governante de um país que não queira crescer, e para crescer precisa de energia. A Iberdrola tem 120 anos, já passou por guerras mundiais, guerras civis, ditaduras... por muitos regimes políticos nos países onde ela desenvolve seus negócios. E por isso ela tem uma visão de longo prazo. Eu concordo que a situação atual daria para colocar o dinheiro em emissões do Tesouro brasileiro, mas o que a companhia tem no DNA é crescer e ajudar no crescimento do Brasil. É verdade que temos uma situação preocupante do ponto de vista da evolução da economia e da situação política. Mas a companhia quer ficar fora disso tudo. A energia elétrica e o consumidor não têm partido político.

P. O Governo Temer anunciou a privatização de parte da Eletrobras. Isso deve ser de interesse futuro para um gigante global como é a Iberdrola?

R. O gigante atua no Brasil através da Neonergia, onde tem como sócios o Banco do Brasil e a Previ. É verdade que o Governo está fazendo um esforço para privatizar parte da Eletrobras, mas, com as dificuldades na agenda legislativa, a gente infelizmente não vê um caminho claro para que isso possa dar certo, embora para o Brasil seja indispensável ter uma empresa do tamanho da Eletrobras atuando como as empresas privadas, procurando a rentabilidade. O Governo também anunciou que privatizaria algumas distribuidoras do grupo. Nós estamos acompanhando esse processo e há algumas que avaliamos com interesse por proximidade geográfica e operacional com outras que nós temos no Nordeste. Mas temos de esperar para conhecer as condições do edital que estão negociando o Governo e o Congresso. Contudo, o Brasil tem que se perguntar o que é que está acontecendo no setor elétrico, porque desde 2015 para frente todos os ativos tem sido comprados por empresas estrangeiras estatais. Não faz sentido abrir uma discussão para privatizar a Eletrobras e que por essa via as companhias acabem caindo em mãos de empresas estrangeiras estatais.

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