Festival de Cannes 2018

Terry Gilliam: “Se o humor morrer, será o fim da civilização”

Diretor britânico encerra o Festival de Cannes com 'The Man Who Killed Don Quixote', projeto ao qual dedicou duas décadas de sua vida

Terry Gilliam em Paris, em março deste ano
Terry Gilliam em Paris, em março deste anoS. DE SAKUTIN (AFP)

A viagem acabou. Terry Gilliam (Minneapolis, 1940) cavalgou contra tempestades e furacões, aviões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), doenças de seus atores, produtores que fugiram sem colocar o dinheiro, ações judiciais e rumores de acidente vascular cerebral. Mas, finalmente, The Man Who Killed Don Quixote (O Homem que Matou Dom Quixote) encerra neste sábado, dia 19, o Festival de Cannes e o cineasta, que durante estas duas décadas de tentativas frustradas parecia também sofrer da síndrome de Alonso Quijano (enlouquecer na tentativa de adaptar um romance de cavalaria), sorri. Nunca parou de fazê-lo em 20 anos, mas agora sua risada soa mais clara, sem nuances. E seu melhor reflexo é o cartaz com o qual começa a projeção do filme: “E agora, depois de mais de 25 anos fazendo... e desfazendo: um filme de Terry Gilliam”.

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Em um encontro com a imprensa espanhola em Cannes, Terry Gilliam sabe que é o rei do momento. Nesta manhã ele conquistou sua segunda vitória judicial contra o produtor português Paulo Branco. Amanhã, ao mesmo tempo em que é projetado no festival, será possível lançar comercialmente seu Quixote na França. Isto, juntamente ao fato de que há dez dias a justiça também rejeitou a ação de Branco para que o filme não fosse apresentado em Cannes, melhorou muito o humor de Gilliam. “Estou bem, realmente, a minha saúde está ótima, relax. Estou muito feliz com o festival, porque apostou forte no filme e o protegeu dos ataques do meu amigo português. Eu ia mostrar o filme de uma forma ou de outra no festival.”

Valeu a pena tamanho esforço, que inclui duas rodagens, uma série de atores contratados e dois protagonistas mortos? “Provavelmente a única coisa boa que acontece comigo é que não tenho memória, esqueço todas as coisas ruins e só me lembro das boas. Por isso continuei a fazer filmes”. Gilliam não se preocupa com as críticas sobre seu sacrossanto esforço. “Não, porque escrevi a maioria”, e solta uma das suas estranhas gargalhadas. Mais seriamente, reflete sobre o perigo de tornar os sonhos realidade, porque às vezes não cumprem as expectativas. “Através desses anos, muitíssima gente fez uma ideia do filme que provavelmente é melhor do que o filme real. Espero surpreender alguns.” E durante esse processo foi aperfeiçoado o roteiro, do que desapareceu, por exemplo, uma viagem no tempo. “Porque era uma ideia muito ruim!” A estrutura se mantém desde que em 1991 Gilliam começou a acalentar a ideia, que conseguiu realizar em outubro de 2000... apenas seis dias de rodagem no deserto das Bardenas Reales [em Navarra, na Espanha]. As inundações, as costas de Jean Rochefort (que então interpretava Dom Quixote) e o ruído do voo dos caças de uma base da OTAN nas proximidades mataram aquela tentativa.

Hoje, Adam Driver encarna um personagem que começou com o rosto de Johnny Depp, Toby, um estudante de cinema que, em um momento de idealismo, filmou uma versão do livro de Cervantes e que, anos mais tarde, transformado em um cínico diretor de filmes publicitários, volta à cidadezinha espanhola onde filmou seu filme de iniciação para descobrir que o sapateiro que fez Dom Quixote, Javier (Jonathan Pryce), realmente acredita ser o cavaleiro da triste figura. A partir daí, o filme delira como só uma obra de Gilliam pode fazer, hipnotizado como seu protagonista com essa aventura. “Não, a pergunta não é se eu estava obcecado pelo Quixote, mas por que o Quixote ficou obcecado por mim. Nunca me deixou sozinho, me maltratou durante 25 anos e eu o culpei por todos os meus problemas.” Pelo menos ele terminou o filme, porque outros o deixaram pelo caminho, como Orson Welles. “Fiz isso por Orson”, brinca. “Disse que faria pelo menos uma coisa melhor que Welles e assim foi: terminei o filme!”, e revela um sinal que deixou em homenagem ao diretor do Cidadão Kane. O cineasta britânico (há anos renunciou à nacionalidade norte-americana) não quer lembrar muito o quanto mudou nesses anos. “Acho que meu humor melhorou. Se o humor morrer, será o fim da civilização. A vida se tornou solene. Me incomoda muito que as pessoas levem tudo a sério.”

Em seu livro Gilliamismos, o cômico afirma: “Se algo é impossível, eu tento”. Em Cannes, reafirma: “Mas não só eu, a humanidade. O Everest não existia até que se considerou impossível escalá-lo. Acredito que os desafios impossíveis são os que fazem avançar o ser humano”. Dito isto, ele afirma que “seria mais responsável investir esforços e dinheiro para cuidar da Terra em vez de fugir dela em viagens espaciais”. Nessas impossibilidades figura adaptar o romance de Miguel de Cervantes. “Como todo mundo, pensava que sabia algo do Quixote. Há 25 anos convenci um produtor a me dar 25 milhões de euros para adaptar As Aventuras do Barão de Munchausen e o Quixote. Foi então que li o livro. Pareceu-me enorme e senti que tinha de traí-lo para ficar com sua essência. Dane-se o livro! Dane-se Cervantes! Mas a segunda parte me parece o primeiro romance moderno da história, principalmente quando o cavaleiro se irrita ao descobrir que estão escrevendo e fazendo ficção com suas aventuras.”

Dito isso, Gilliam desce do Rocinante, mas deixa um novo desafio para a próxima geração: “Talvez seja o momento de ser encarnado por uma mulher, o momento de vermos Dona Quixota”.