Irandhir Santos: “O que me move na TV é ampliar para os brasileiros a sua identidade”

Ator de 'Aquarius' e 'Tatuagem' é um líder religioso em 'Onde nascem os fortes', série das 23h da Globo

Irandhir santos, num dos cenários mais emblemáticos de 'Onde nascem os fortes'.
Irandhir santos, num dos cenários mais emblemáticos de 'Onde nascem os fortes'.Estevam Avellar (Globo)

Irandhir Santos é um homem de rituais. Nas rodagens de Onde nascem os fortes, a supersérie do horário das 23h da TV Globo, era evidente. Mesmo com as câmeras desligadas, ele se mantinha em silêncio, olhos fechados, até irromper de novo com sua voz potente em um cântigo-reza comandando os quase cinquenta figurantes. A novena seguia, em crescente, tomando o set de filmagens no alto de uma montanha rochosa, o Lajedo do Pai Mateus, no sertão da Paraíba.

"Nunca trabalhei com alguém como ele, com tanta concentração", derramava-se ao final da cena o diretor artístico da produção, José Luiz Villamarim, num fim de semana de dezembro. Estávamos num dos cenários mais elaborados e emblemáticos da produção, onde surge o personagem de Irandhir na série, o líder religioso Samir. É sob essa espécie de caverna vazada - em parte de pedra, em parte de um emaranhado que lembra raízes - que ele vai evocar o Nordeste atávico e o sincretismo religioso para se juntar aos eixos pop e contemporâneos da história.

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"Tem uma coisa do set de cinema, de TV, que é muita gente envolvida, né? (O ritual) é uma forma que eu tenho também até de me proteger do que está ao redor. No caso do Lajedo a gente está trabalhando com muita coisa circular e só o simples fato de você caminhar em círculos, isso já te dá um estado energético, os outros atores também vão aderindo. O círculo é envolvente, é convidativo. Seja olhar para ele, seja se inserir nele. É um pouco pedindo licença para começar o dia, para estar dentro da história. O Samir é um personagem fincado na pedra", explica Irandhir ao EL PAÍS.

Na trama, o líder Samir é uma espécie de mentor de Maria (Alice Wegman), a heroína revelação de 'Onde Nascem os Fortes'. Meio Maria Bonita, meio mulher maravilha, Maria vai descobrir a si mesma e aos dilemas do amor e da família na busca pelo irmão desaparecido. Na conversa com o EL PAIS, Irandhir Santos fez questão de frisar que contribuiu para a formatação do seu personagem e que essa possibilidade de participar da criação, mesmo em se tratando de uma produção de TV, é uma das vantagens de trabalhar com o trio formado por Villamarim, um dos diretores Walter Carvalho e o roteirista George Moura - eles também trabalharam juntos na supersérie Amores Roubados.

"Nos processos do Zé (Villamarim) não me sinto desligado em nenhum momento. As ideias vêm, então você anota ou desenha no papel, chega aqui e mostra para ele e ele diz: 'Vamos fazer isso. Vamos aprimorar isso' ou 'Waltinho, vem dar uma olhada aqui'. É esse tipo de sentimento de grupo."

Ator formado no teatro e com consolidada carreira no cinema (Tatuagem, Aquarius, Febre do Rato), Irandhir responde sobre como é participar de uma produção localizada no Nordeste, mas com boa parte do elenco formado por estrelas globais do Sudeste. De suas respostas, extrai-se não um mandato rígido sobre origem, mas uma argumentação sobre abordagem criativa e qualidade da representação: "Desde criança, quando assistia às coisas que tentavam, de alguma forma, retratar a cultura da minha região - e quando eu falo região, falo interior de Pernambuco, agreste, sertão também que eu morei -, lembro da empatia que eu sentia por determinados projetos e do distanciamento que senti por outros", explica. "Um sotaque mal colocado me afastava, mas, quando eu via um sotaque bem tratado, aquilo fazia me identificar", segue.

No caso de Samir, o ator explica que o desejo era fazer algo que ele, se assistisse à supersérie quando era criança, pudesse se identificar. "Pesquisar os rezadores, as benzedeiras foi um pouco ampliar (o personagem) para trazer essa identificação", diz. "O que me move a querer me sentir responsável e coautor numa equipe como essa é tentar ao máximo trazer essas identidades as quais eu vivi e, dentro de uma televisão nacional como a Globo, ampliar para os brasileiros sua identidade. Para quem não conhece, conhecer, para quem é isso, se identificar", enuncia.

O ator Irandhir Santos.
O ator Irandhir Santos.

Diante do sucesso nacional, o ator repete seu desejo- também político- de permanecer morando em Recife, e não se mudar para o Rio, como seus conterrâneos de gerações passadas. "Fico em Recife. Lá é minha casa. É para lá que eu volto.". Ele conta com orgulho como conquistou o apartamento dos sonhos. "Na Boa Vista, um bairro boêmio, tinha um apartamento lá, da década de 1960, que eu quando passava em frente, eu dizia: 'Nossa, um dia eu quero morar aqui' e aí consegui. Tem dois anos. Comprei, reformei e está lá. Você entra na minha casa e se depara com a Sônia Braga, logo de cara, no pôster do Aquárius, abençoando", ri.

Antes da boemia da Boa Vista, no entanto, ele deve cumprir mais um ritual, o que faz toda vez que termina de gravar. Vai enterrar o personagem Samir: "Acho importante chegar num ponto zero para poder começar outra história. São coisas aparentemente simples, mas que são muito significativas para mim. Desde terminar os cadernos que eu escrevo para cada personagem e guardá-los no baú, a voltar para minha cidade natal, que é Limoeiro, no interior de Pernambuco", explica. "Vou ficar um tempo com os meus pais, com os meus amigos de infância na cidade onde eu cresci. Meio que voltar para a raiz mesmo.”

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