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Morre o diretor Milos Forman, um outsider em Hollywood

Cineasta tcheco, de 86 anos, recebeu dois ‘Oscars’ por 'Um Estranho no Ninho’ e 'Amadeus'

Milos Forman, em Paris em 2009 Ampliar foto
Milos Forman, em Paris em 2009 AFP

Milos Forman (Caslav, 1932), diretor de filmes como Amadeus e Um Estranho no Ninho, faleceu em sua casa em Hartford (Connecticut) aos 86 anos, após uma breve doença. “Morreu tranquilamente na sexta-feira, cercado por sua família e amigos mais próximos”, disse sua viúva, Martina. Além dos filmes citados, o cineasta deixou obras primas à história, como Hair e Pedro, o Negro.

O tcheco foi um cineasta especial, que demonstrou que era possível trabalhar dentro de Hollywood com um toque subversivo. Essa mesma aposta iconoclasta, contra o poder – seu cinema refletiu a luta do indivíduo contra a opressão do sistema – e com tons satíricos foi o que provocou sua saída de seu país natal no final dos anos sessenta após a invasão da Tchecoslováquia em 1968.

É curioso, como Guillermo del Toro lembra em seu artigo (em espanhol), como Forman sempre se conectou com o grande público, independentemente do tamanho da produção de seu filme, e como defendia seus personagens protagonistas, por mais estranhos que parecessem no começo de cada narração. “Às vezes são as mentes mais sujas que amam da maneira mais limpa”, contou na divulgação de O Povo contra Larry Flint, Urso de Ouro do festival de Berlim. Seu primeiro filme nos Estados Unidos, Um Estranho no Ninho, exemplifica esse talento, com um Jack Nicholson soberbo que encarnou não só um rebelde como alguém que conseguiu despertar seus colegas de hospício no sentido da liberdade que estava adormecida. Lembrou daquela filmagem em uma oficina de cinema em Málaga em 2009: “Quase não precisei falar com ele e dirigi-lo, porque os grandes atores são também grandes profissionais. Jack se sentiu estranho e me disse que eu era o único diretor que não o incomodava durante a filmagem”. Com a produção ganhou seu primeiro Oscar de melhor direção, um dos cinco obtidos pelo filme.

Mozart e o Holocausto

Mas o maior sucesso de sua carreira viria em 1984 com Amadeus. A história da inveja e da secreta admiração que Antonio Salieri sentia por Mozart ganhou oito Oscars (sua segunda estatueta como diretor) e se transformou em um dos títulos mais emblemáticos dos anos oitenta. No filme havia também um desejo realizado: foi filmado em seu país natal – à época Forman já tinha a nacionalidade norte-americana – e pôde voltar a sua casa como um vencedor. Em sua biografia, Turnaround: A Memoir (1994), escreveu que tudo na vida o havia “condicionado a vencer”, ainda que a sua maneira.

Como diretor, o tcheco nunca se importou em filmar roteiros de outros. E mais, de seus oito filmes no exílio, só escreveu o roteiro de dois: “Eu prefiro ter um roteiro sólido no qual me apoiar, mas gosto que exista lugar à improvisação na filmagem da sequência. 10% de improvisação na hora de filmar pode trazer momentos únicos, incríveis. Gosto de filmar com atores que não saibam o roteiro nos mínimos detalhes, mas fazê-los representar seguindo o roteiro, que eu já sei de cor, dando-lhes indicações para que o diálogo seja mais real, mais fresco, mais vivo”, afirmava.

“Prefiro um país livre abarrotado de mau gosto a um país refinado, mas sem liberdade”

Milos Forman tinha uma ideia muito clara sobre seu exílio. “Prefiro um país livre e abarrotado de mau gosto a um país refinado, mas sem liberdade”, dizia. “A censura é o pior dos males. Vivi sob um regime totalitário em que existia a pressão da censura ideológica. Agora vivo em um país em que se existe alguma pressão é a comercial. Sem dúvida, prefiro essa última, pelo menos nela milhares de pessoas decidem e não só uma”. Ele mesmo sofreu na pele várias ditaduras. Nascido em Caslav em 1932, tanto sua mãe, Anna Suabova, como o homem que ele pensava que era seu pai, um professor chamado Rudolf Forman, morreram assassinados pelos nazistas em campos de extermínio. Apesar de ter se educado no protestantismo, Forman às vezes dizia ser meio judeu. Somente após a publicação de suas memórias, escritas com Jan Novak, sua história foi conhecida: em meados dos anos sessenta, Forman encontrou uma amiga de sua mãe em Auschwitz a quem ela confessou que o verdadeiro pai do cineasta era um amante seu, um arquiteto judeu que sobreviveu ao Holocausto e que Forman chegou a conhecer no Peru.

Por isso Jan Tomáš Forman, seu nome verdadeiro, cresceu com pais adotivos. Estudou cinema na Escola de Praga, e desde o começo seus filmes – Pedro, o Negro (1964) e Os Amores de uma Loira (1965) – chamaram a atenção dos festivais internacionais. Com The Firemen's Ball, em que ironizava a burocracia em um destacamento de bombeiros voluntários, começou a sentir a pressão das autoridades comunistas. De modo que quando as tropas soviéticas entraram na Tchecoslováquia em agosto de 1968, Forman, que estava em Paris negociando seu primeiro projeto norte-americano, decidiu não voltar.

Início difícil nos EUA

Seu primeiro trabalho nos EUA foi a comédia Procura Insaciável (1971). Não foi nada bem, e Forman entrou em depressão em seu quarto do nova-iorquino hotel Chelsea. Somente Um Estranho no Ninho o tirou desse estado. Em suas memórias conta que os dois produtores do filme, Michael Douglas e Saul Zaentz, o contrataram por uma ninharia. A partir daí pode escolher seus projetos: o musical Hair (1979), que dizia ter gostado pela energia dos jovens atores; Na Época do Ragtime (1981), o último filme no cinema de James Cagney; Amadeus (1984); Valmont - Uma História de Seduções (1989), um filme que teve contra ele a estreia no ano anterior de Ligações Perigosas, já que ambos eram baseados na mesma obra epistolar de Pierre Ambroise Choderlos de Laclos; O Povo contra Larry Flint (1996); O Mundo de Andy (1999) – em que a imersão total no papel de Jim Carrey, seu protagonista, quase o tirou do sério – e Sombras de Goya (2006).

A história de Goya chegou a ele por um livro, que havia lido há anos e escreveu o roteiro em parceria com seu grande amigo, o mítico roteirista Jean-Claude Carrière. “Aquele volume falava sobre a Inquisição espanhola. Existiam muitas semelhanças com coisas que eu havia conhecido. Fiquei espantado com os paralelismos que existiam entra a Inquisição espanhola e os regimes totalitários nazista e comunista”, contou em uma homenagem no festival de Sevilha. “Provavelmente, Goya não teria sobrevivido no século XXI”. E usou, efetivamente, mais uma vez o pintor para ilustrar sua eterna história, a de um indivíduo contra a opressão angustiante do poder, a da ciência e do Iluminismo contra a Inquisição.

No século XXI, Forman também dirigiu ópera, com seus filhos gêmeos, Petr e Matêj, como A Walk Worthwhile: Uma Caminhada de Valor, dos autores tchecos Jiri Slitr e Jiri Suchy que curiosamente ele já havia dirigido para a televisão tchecoslovaca em 1966. Além disso, foi um dos diretores da seção de cinema da Universidade de Columbia, e se manteve na ativa com alguns projetos que não deram certo e outros que deram, como a versão ao cinema, dirigida em conjunto com seu filho Petr, de A Walk Worthwhile: Uma Caminhada de Valor.

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