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‘Clube dos Cinco’ envelheceu como um filme machista, segundo sua protagonista

Molly Ringwald analisa como seus sucessos dos anos 80 são vistos na era do #MeToo

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A própria Molly Ringwald, a rainha do cinema adolescente nos anos 80, considera sexistas vários de seus maiores sucessos, revistos após passados muitos anos. Clube dos Cinco (The Breakfast Club), do falecido John Hughes, foi um grande marco do gênero. Mas sua atriz principal avalia que algumas de suas cenas “não são adequadas nos tempos do #MeToo", diz em um artigo assinado na The New Yorker.

O texto publicado por Ringwald não é um artigo opinativo, mas uma extensa reportagem em que intercala a própria experiência com declarações de vários participantes desses filmes. Mostra suas dúvidas sobre a forma como a mulher foi representada nos filmes, embora também reconheça que foram uma referência positiva para toda uma geração.

Clube dos Cinco (1985) enfoca um grupo de adolescentes que se tornam amigos quando ficam de castigo durante todo o dia de sábado na escola. O filme firma as bases do melhor cinema adolescente. É tão bem avaliado que faz parte do Criterion Collection, uma prestigiada coleção em DVD que só publica títulos que passaram à história. Gravando uma entrevista para os extras desse relançamento, Ringwald voltou a entrar em contato com o filme e decidiu tornar a vê-lo com sua filha pré-adolescente. “Em um momento da história, o garoto mau interpretado por John Bender se mete debaixo da mesa onde estava sentada a minha personagem, Claire, para se esconder de um professor. Enquanto está ali embaixo, aproveita a oportunidade para olhar debaixo das saias de Claire. Embora o espectador não veja, se insinua que ele toca a garota de modo inapropriado. (...) Fiquei com a preocupação de que algumas partes do filme fossem problemáticas para minha filha, mas não esperava que no final afetassem mais a mim”, recorda a atriz.

A cooperação Ringwald-Hughes

Molly Ringwald representava na Hollywood dos 80 um papel equivalente ao de Emma Watson ou Shailene Woodley no século XXI. Era uma presença constante nos filmes juvenis de uma época em que as jovens atrizes não costumavam exercer o papel de protagonista. Outros sucessos dela, além do Clube dos Cinco, foram Gatinhas e Gatões (1984) e A Garota de Rosa Shocking (1986).

Se esses três títulos tinham algo em comum, além de serem escritos e dirigidos por John Hughes, era a dignidade com que tratavam os personagens adolescentes. Em seus diálogos se falava de sexo e drogas, como destaca a atriz no artigo, mas eram filmes que nada tinham a ver com outros da época. Os enredos juvenis de sagas como Corrida na Correnteza e Porky’s – A Casa do Amor e do Riso se sustentavam no sexo grosseiro e nas festas desenfreadas. Molly Ringwald surgiu como a resposta feminina ao gênero da moda.

Mas John Hughes havia moldado uma carreira como roteirista de uma dessas sagas sexistas, Férias Frustradas (National Lampoon’s Vacation), inspiradas em uma revista de humor na qual ele também escrevia. Por isso, ainda existiam algumas gags controversas nos filmes posteriores que rodou de um ponto de vista feminino.

A atriz reconhece em seu artigo para The New Yorker que nos dias de hoje eliminaria também cenas de seus outros filmes com John Hughes. Na realidade, conseguiu que uma delas nunca fosse rodada no Clube dos Cinco – uma passagem em que uma atraente professora de ginástica nadava nua na piscina da escola enquanto um professor a espiava. “A cena não estava no primeiro esboço do roteiro, por isso pressionei John para que a eliminasse. E ele o fez. (...) Durante o breve tempo em que fui sua musa, senti que John me escutava”, diz no texto. A mãe da atriz também velava para que a filha não aparecesse em gags que incluíssem piadas sexistas.

A união do diretor e Ringwald marcou uma diferença substancial na sociedade norte-americana, a ponto de ser tema de capa da Time. Apesar de tudo, seus filmes juntos continuam inadequados do ponto de vista atual. Sem ir muito longe, o bem intencionado artigo da revista Time, que festejava essa guinada feminina no cinema juvenil, é um exemplo perfeito: Não é uma doçura?, diz, referindo-se a Ringwald, uma das maiores estrelas do cinema no momento.

Outras cenas polêmicas

A atriz descreve em seu texto outras situações incômodas que aparecem em seus trabalhos com Hughes. Em Gatinhas e Gatões vê-se um rapaz que cede a namorada em estado de embriaguez por uma aposta com outro garoto.

A atriz conversa com a colega de elenco que rodou essa cena, Haviland Morris. Em um primeiro momento, Morris responde que considera a situação como sexo consensual, já que a garota do filme se embebeda por conta própria. Depois de refletir, admite dias depois que se sente incomodada com a história que filmou na época, diz o artigo.

Molly Ringwald dá um exemplo real para argumentar como essa cena era inadequada. “Uma vez, aos vinte e poucos anos, estava em uma festa em que bebi demais. Acabei em um quarto, sentada à beira de uma cama com um produtor que eu não conhecia, atordoada e enjoada. Uma boa amiga, que me havia seguido, enfiou a cabeça pela porta poucos minutos depois e disse que era hora de irmos embora. Eu a segui, tentando não cair e passei o resto da noite muito doente e envergonhada (e o resto da minha vida agradecida a ela por estar ali, cuidando de mim, quando estava incapacitada temporariamente para fazer isso por mim mesma).”

Mudança de sensibilidades

Como explicamos em Verne sobre as críticas nos dias de hoje ao humor de Friends, que tanto sucesso fez nos anos 90, as sensibilidades mudam à medida que a sociedade tem mais acesso a informação. Em seu artigo na The New Yorker, Molly Ringwald comenta que também recuperou pelo eBay alguns dos artigos satíricos que John Hughes publicou na revista National Lampoon, antes de filmar com ela. O falecido diretor tinha escrito artigos em tom satírico como Assédio Sexual: Como Fazê-lo. O texto era assinado com o roteirista Ted Mann, que agora escreve as tramas da poderosa protagonista da série Homeland.

Depois de lhe perguntar sobre esse tipo de artigo que escreveu nos anos 80, Mann respondeu à atriz que nem se lembrava mais de tê-los feito. “Não os publicaria agora e não deveriam ter sido publicados na época. Eram dias de degeneração e cocaína”, se justificou o roteirista.

“É difícil entender como John Hughes era capaz de escrever com tanta sensibilidade e, ao mesmo tempo, ter esses pontos frágeis”, comenta a atriz na The New Yorker, embora destaque que esse comportamento era uma questão educacional da qual ela também fazia parte. “Só quando havia entrado bem nos trinta anos deixei de considerar que os homens verbalmente agressivos eram mais atraentes que os amáveis”, confessa.

Representando as minorias

Emil Wilbekin, um jornalista homossexual e afro-americano, explica à atriz por que essas comédias juvenis o ajudaram em sua adolescência, apesar de não representarem nem a comunidade gay nem a negra. “Mostravam garotos que lutavam para encontrar sua identidade e se sentiam fora de lugar na estrutura social da escola. Estavam às voltas com suas famílias e com outro tipo de pressões. Os personagens e suas tramas eram lindamente humanos, perfeitamente imperfeitos e defeituosos”, responde seu admirador.

Ringwald termina o artigo lembrando a resposta de Hughes quando lhe perguntou na época se acreditava que os jovens eram cada vez mais mal retratados no cinema e na televisão. “Minha geração (a do baby boom) teve de ser levada a sério porque éramos muitos. Quando nos mexíamos, tudo se mexia conosco. Agora há menos população adolescente e por isso há uma falta de respeito geral pelos jovens”, lhe disse o diretor.

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