‘Jogador Nº 1’: Que imenso tédio o novo filme do Spielberg

Em novo longa, uma viagem acelerada, interminável e vazia, repleta de referências a mitológicas criaturas do cinema e dos gibis, há momentos que me tiram da letargia

Cena de 'Jogador Nº 1'.
Cena de 'Jogador Nº 1'.

Devem conviver harmoniosamente múltiplas personalidades nesse indivíduo proteico chamado Steven Spielberg, mas às vezes deve ser complicado que o produtor e o artista tenham claro o trabalho, as aspirações e os resultados que correspondam a um e ao outro. O primeiro sabe que estar durante quase cinquenta anos à frente da engrenagem mais poderosa e influente da história do cinema exige olfato infalível para detectar o que a bilheteria requer, inventar modas, minimizar os riscos, não se esquecer jamais da regra de ouro do grande negócio. O segundo conta histórias que lhe saem do cérebro e do coração, anseia que suas criações perdurem, não recorre a caminhos convencionais nem fáceis para provocar um universo de sensações nos receptores. A capacidade de trabalho, a imaginação e o conhecimento do marketing que este homem acumula devem ser espetaculares. Financiando projetos alheios e se colocando detrás da câmera.

Nessa grande produção que leva sua assinatura há filmes do artista Spielberg que mantêm seu fascínio e seu prazer depois de tê-los visto muitas vezes ao longo do tempo. São Encurralado, Tubarão, E.T. – o Extraterrestre , A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan, Munique, Lincoln, Ponte dos Espiões e Os Arquivos do Pentágono. Outros que respeito ou têm atrativos (assentados em finais obrigatoriamente felizes) e alguns que considero indignos de alguém com tanto talento.

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Mas está claro que o visionário e o magnata Spielberg descobrem antecipadamente o que deseja o grande público, inventam filões inesgotáveis, revitalizam gêneros, impõem gostos. Isso se passou com o tubarão assassino, os contatos de terceiro grau, os poltergeists, os goonies, os dinossauros, as aventuras de Indiana Jones, os Transformers e, agora, os videogames em Jogador Nº 1 (Ready Player One) filme que estreia nesta quinta-feira, 29 de março, no Brasil. E imagino que esse olfato lhe permite ser mais rico que Crasso, mas o que me apaixona em seu cinema são outras coisas, não sua liderança absoluta do mercado.

“Não critique aquilo que você não pode compreender”, aconselhava Bob Dylan em sua canção sobre os tempos mutantes. Jogador Nº 1 tem como protagonistas os jogos de computador, os consoles, a realidade virtual. Nada disso faz parte de minhas distrações nem de meus vícios. Minha ignorância sobre esses temas é absoluta, não conheço seu mecanismo nem onde reside sua suposta magia, mas depois de assistir à exaustiva homenagem que Spielberg lhes faz continuo sem constatar seu encanto. Desconhecer os segredos dos videogames talvez não me legitime para criticar a história que Spielberg narra, mas posso, sim, me queixar do imenso tédio que me causa uma história frenética e cheia de ruído, perseguições e combates entre avatares. E tampouco têm o menor poder de comoção as pessoas reais, encabeçadas por um garoto melancólico e deprimido cuja via de escape de sua realidade é participar de uma corrida virtual que tem como prêmio herdar a fortuna do falecido dono de uma resplandecente empresa de informática.

Nessa viagem acelerada, interminável e vazia, repleta de referências mitológicas a criaturas do cinema e dos gibis, há alguns momentos felizes que me tiram da letargia, como a engenhosa e apurada homenagem a personagens e situações de O Iluminado. Pouco mais. Você nem sequer pode se consolar com a impressionante música que John Williams sempre levou ao cinema de Spielberg. Aqui ele foi substituído pelo esquecível Alan Silvestri. E haverá muitos espectadores (que o Altíssimo me livre de considerá-los estranhos) que ficarão alucinados com o novo invento de Spielberg. Como invejo seu êxtase.

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