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Forças radicais avançam na Itália em um cenário sem maiorias claras

Movimento 5 Estrelas cresce de maneira espetacular, mas a coalizão de centro-direita tomaria a liderança sem conseguir as cadeiras necessárias

A Itália foi votar no domingo ameaçada pelo fantasma da ingovernabilidade e foi dormir com medo. Após a Espanha e a Alemanha, o país dos 64 Governos em 70 anos sofre as consequências do fim do bipartidarismo e de uma lei eleitoral ineficiente. De acordo com as pesquisas de boca de urna, nenhuma força conseguirá maioria. O Movimento 5 Estrelas cresce de maneira espetacular. Mas a coalizão de centro-direita tomaria a liderança sem conseguir as cadeiras necessárias. Dessa forma, se abre um cenário de pactos que formará estranhas parcerias e estimulará a ameaça do bloqueio sobre a terceira economia da zona do euro.

Colégio eleitoral, em Roma, neste domingo.
Colégio eleitoral, em Roma, neste domingo. REUTERS

As pesquisas estavam quietas há duas semanas e nenhuma referência servia, nem mesmo a das últimas eleições, em 2013. A Itália foi às urnas nesse ano com uma lei eleitoral diferente, uma votação que foi até a manhã de segunda-feira e um partido que teve uma excepcional votação sem ter sequer um candidato. Dessa vez, 46 milhões de italianos deveriam resolver um problema que as pesquisas prognosticavam há semanas.

De acordo com as primeiras pesquisas de boca de urna para a rede de televisão RAI (80.000 pessoas entrevistadas) o bloqueio seria inevitável. O Movimento 5 Estrelas ganharia as eleições com um ótimo resultado (por volta de 30%), mas não seria capaz de chegar à maioria necessária. A coalizão de centro-direita superaria o M5S em quatro pontos percentuais, mas seu resultado, pior do que o esperado, também não ajudaria a desbloquear a situação.

As duas forças políticas de maior destaque no sábado – o Movimento 5 Estrelas e a coalizão de centro direita – tinham a calculadora no sul da Itália. Lá a disputa seria realmente decidida. As fileiras de Silvio Berlusconi e companhia davam como certa a vitória no Norte. Mas as regiões da Sicília, Campania, Puglia e Lazio seriam a pedra Rosetta do enigma eleitoral italiano, o mais incerto da história de um país cuja política não é exatamente simples de se decifrar.

Mas o M5S estava bem avançado na conquista desse território. A participação dos eleitores aumentou, o que beneficiaria o partido de Beppe Grillo que conseguiu o máximo do que poderia esperar: frear a centro-direita, obter um resultado que obrigará a levá-los seriamente em consideração no cenário dos pactos pós-eleitorais. Mas se os resultados se confirmarem, a voz de comando continua sendo a da centro-direita, em plena luta interna pela liderança da coalizão entre Matteo Salvini – as pesquisas davam um empate – e Berlusconi.

Mas a soma dos números do Força Itália, o partido de ultradireita populista da Liga e o Irmãos da Itália não seria suficiente para governar. De modo que vários cenários se abrirão. Incluindo o que a própria coalizão pescará no mar de outros partidos para conseguir uma base suficiente.

Desde o fim da publicação das pesquisas há duas semanas, os números falavam de um complicado quebra-cabeças dividido em três blocos: a centro-direita, a centro-esquerda e o M5S. A gravidade do assunto e a pressa em solucioná-lo, de qualquer forma, serão marcadas pelos mercados e prêmios de risco que começarão a incomodar se o bloqueio não for solucionado.

Evitar o caos

O presidente da República, Sergio Mattarella, e as instituições do país já trabalham em um cenário de consultas e pactos para evitar o caos. Os mercados, evidentemente, preferem uma grande coalizão entre a centro-esquerda – o Partido Democrático (PD) de Matteo Renzi + o Europa de Emma Bonino – e o Força Itália, um artefato político parecido ao que no sábado recebeu o sinal verde definitivo na Alemanha. Nesse caso, deverá encontrar uma figura de consenso, talvez externa à Câmara – como já aconteceu com Mario Monti – que lidere a Grande Coalizão italiana. Mario Draghi ultimamente aparece nas apostas. Mas além dessas variáveis, existem outras duas soluções de emergência que contemplariam um grande resultado do Movimento 5 Estrelas.

O partido fundado por Beppe Grilo deverá fazer sacrifícios se quiser fazer parte de um Executivo. O mais claro, renunciar a sua promessa de não formar alianças de Governo. Dentro do M5S falou-se do assunto durante toda a semana. Os números nunca lhe deram uma maioria. E uma possibilidade evidente seria formar um Executivo com o PD de Renzi e a esquerda do Livres e Iguais.

A outra, a que mais inquieta os mercados e a União Europeia, levaria o M5S a aproximar-se da Liga (que nas últimas eleições só obteve 4,1%) e seu pequeno aliado, os pós-fascistas Irmãos da Itália. Essa é a preferência de personagens como Steve Bannon, o ex-assessor do presidente dos EUA, Donald Trump, que está por esses dias em Roma como entusiasta das opções mais populistas (dito por ele mesmo).

Mas alguns dos cenários que se abririam não mudaram tanto. Em 2013, o então secretário geral do PD, Pier Luigi Bersani, já tentou um pacto com o M5S, o famoso Governo de mudança que lhe custou o cargo apesar de ter obtido um bom resultado (24,5%). Para Renzi, entretanto, seria uma partida complicada, a negação de tudo o que prometeu até agora em relação a não se acertar com os “extremistas”. Uma aliança que poderia fagocitar definitivamente o PD.

A militância do M5S também não vê com bons olhos essa opção. Os interesses pessoais, entretanto, podem fazer muitos mudarem de opinião. O partido liderado agora por Luigi di Maio não permite que seus representantes se apresentem a mais de dois mandatos. Uma regra que afeta o próprio candidato a primeiro-ministro, que está agora em sua segunda legislatura. Se precisarem repetir as eleições, não poderá concorrer. Um dado que poderá ajudá-lo a reconsiderar algumas de suas promessas. Qualquer cenário será submetido às bases mediante uma votação telemática, como em outras ocasiões.

Salvini disputa com Berlusconi a liderança da coalizão

Uma das batalhas mais apaixonantes dessas eleições foi a disputada silenciosamente pelo Força Itália e a Liga para liderar a coalizão de centro-direita. Silvio Berlusconi e Matteo Salvini acertaram que quem obtivesse mais votos escolheria o candidato a premier da coalizão. No caso do Força Itália é o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani. No da Liga, o próprio Salvini quer ser o candidato à presidência do Conselho de Ministros.

De acordo com as pesquisas de boca de urna realizadas pelas empresas EMG, Piepoli e Noto para a RAI no fechamento dos colégios eleitorais, os dois partidos estariam empatados. Uma disputa implacável que pode acabar significando um golpe de efeito no caso da contagem terminar favorável à Liga. O resultado acrescentará agressividade à fase pós-eleitoral onde deverão ser forjados os possíveis pactos de Governo. O partido de ideais inspirados no francês Le Pen é um fenômeno levantado pela crise imigratória, com a chegada de 600.000 pessoas na Itália nos últimos cinco anos e que se transformou em seu cavalo de batalha.

O sucesso da Liga também poderá abrir a janela ao cenário mais temido pela União Europeia e os mercados. Ou seja, um pacto entre o partido de Salvini e o Movimento 5 Estrelas, que também flertou nos últimos cinco anos com a ideia de convocar um referendo sobre o euro.

A liderança da Liga também desativará a opção Tajani, que continuaria em seu cargo à frente do Parlamento Europeu. Mas dificilmente seria aceitável pelo establishment e pelas instituições italianas, inquietas pelo discurso antieuropeu de Salvini, que prometeu que a Itália sairá da moeda única se a Europa não concordar em negociar todos os tratados que prejudicam seu país.

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