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Perseguição do chavismo obriga quatro jornalistas a saírem da Venezuela

Acusados por investigação sobre distribuição de alimentos são colaboradores do EL PAÍS em Caracas

Uma das reportagens que motivou o processo contra o Armando.info
Uma das reportagens que motivou o processo contra o Armando.info

O chavismo volta a ameaçar a liberdade de imprensa. Dessa vez, as vítimas são os três editores e um redator do portal venezuelano Armando.info. Uma investigação sobre o negócio por trás do plano estatal de distribuição de alimentos chamado Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP) causou uma perseguição dos setores governistas através de um processo. A ameaça obrigou os quatros jornalistas a abandonarem a Venezuela antes que tivessem seus passaportes retirados pela impossibilidade de enfrentar um julgamento imparcial. São eles Alfredo Meza, Ewald Scharfenberg – ambos colaboradores habituais do EL PAÍS em Caracas –, Joseph Poliszuk e Roberto Deniz.

A ação judicial, apresentada por um empresário colombiano, Alex Saab, acusa os jornalistas de “difamação agravada continuada” e “injúria agravada”, dois crimes pelos quais a Justiça venezuelana prevê penas de prisão de um a seis anos. Deniz assinou duas reportagens, publicadas em abril e em setembro de 2017, que documentam a relação entre Saab, originário de Barranquilla, a empresa Group Grand Limited – que de acordo com a ex-promotora Luisa Ortega Díaz possui ligações diretas com Nicolás Maduro – e a venda ao Governo venezuelano de comida para os CLAP. O programa distribui alimentos a preços subsidiados em amplos setores da população onde a escassez atinge diariamente centenas de milhares de pessoas.

Os textos demonstram que Saab era ligado à distribuição de alimentos através dos contratos que a empresa Grand Group Limited assinou com o Executivo de Nicolás Maduro. O primeiro se chama Empresários investigados no Equador e nos EUA vendem comida ao Governo venezuelano. O segundo, De Veracruz a Guaira: uma viagem que une Nicolás Maduro a Piedad Córdoba, saiu semanas depois que a antiga promotora geral destituída após a instalação da Assembleia Nacional Constituinte denunciou essas ligações.

Essa publicação acendeu o pavio do regime e sua máquina. Os responsáveis pelo Armando.info – um veículo de comunicação especializado em jornalismo investigativo, que participou de investigações como a dos Panama Papers e que em novembro ficou em segundo lugar no Prêmio Latino-americano de Jornalismo Investigativo – denunciam ameaças e a exposição de dados pessoais dos quatro jornalistas por uma conta anônima nas redes sociais. A intimidação foi condenada à época por organizações do setor como o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa (SNTP), o Instituto Imprensa e Sociedade da Venezuela (Ipys Venezuela) e Espaço Público. Apesar das ameaças, os jornalistas perseguidos deixam claro que “a equipe do Armando.info manterá sua linha editorial, assim como sua missão de publicar investigações jornalísticas de longo alcance”.

Saab, que afirma que sua honra e reputação foram afetadas, é assessorado pelo advogado Amir Nassar, que em 2005 representou o partido do Governo Movimento V República (MVR) no Conselho Nacional Eleitoral (CNE). A sede de Caracas da Group Grand Limited nunca respondeu aos pedidos dos jornalistas, que tentaram conhecer e poder publicar a versão dos envolvidos através de ligações telefônicas e e-mails. Não se trata, de qualquer forma, da única ameaça que o empresário fez à liberdade de imprensa. Ele também processou o jornalista Gerardo Reyes, da rede de televisão Univisón, localizada em Miami, por investigar seus negócios. A Promotoria do Equador abriu processos contra Saab pela atividade da empresa Fundo Global de Construção, que lhe valeu polpudos contratos com o regime venezuelano para a construção de casas pré-fabricadas.

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