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Chegou a hora de Woody Allen?

Amazon Studios fala sobre a possibilidade de não estrear o próximo filme do diretor, que está sendo renegado pelas estrelas de seus trabalhos anteriores

Woody Allen conversa com Timothée Chalamet e Selena Gomez em setembro passado, na filmagem de ‘A Rainy Day in New York’.
Woody Allen conversa com Timothée Chalamet e Selena Gomez em setembro passado, na filmagem de ‘A Rainy Day in New York’.James Devaney (Getty Images)

Quando as notícias sobre abusos cometidos pelo diretor Harvey Weinstein abalaram Hollywood, Woody Allen apresentava seu último trabalho à imprensa. “É trágico para as mulheres que tiveram de passar por isso e para Harvey Weinstein que teve uma vida tão torta. Uma história triste sem vencedores”, reconheceu o diretor ao EL PAÍS. Atriz em Roda Gigante, Kate Winslet acrescentou que se deparasse com alguém assim, lhe daria uma sapatada na cabeça. Mas em meio a esse clima Allen fez uma advertência: “Só espero que isso não nos leve a uma caça às bruxas”. Três meses depois, o jogo virou. O lendário ator, roteirista e diretor parece ter visto chegar sua hora depois de mais de 25 anos perseguido pelo escândalo. A lista aumenta todo dia. De Natalie Portman a Mira Sorvino, Colin Firth, Greta Gerwig, Susan Sarandon, Reese Whiterspoon, Rebecca Hall, Rachel Brosnahan ou, mais recentemente, Timothée Chalamet, todos juraram nunca mais trabalhar com Allen em solidariedade às acusações de Dylan Farrow, que garante que seu pai adotivo abusou dela quando tinha 7 anos.

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A Amazon Studios, segundo várias publicações norte-americanas, está se perguntando o que fazer com o novo filme do realizador de 82 anos, A Rainy Day in New York, financiado integralmente pela produtora (ao custo de cerca de 98 milhões de reais). Pode inclusive mantê-lo inédita. O que parece certo é que esta será a última parceria de Allen e Amazon, porque o principal apoiador do diretor na empresa, Roy Price, teve de deixar a presidência da produtora em outubro acusado ele mesmo de abusos sexuais. “A Amazon bancou meus livros, meus filmes e minhas fraldas. Mas não temos mais relação. Se me dão dinheiro, faço um filme”, distanciou-se Allen de Price naquele momento. Agora é a vez dele.

Farrow acusou Allen pela primeira vez em 1992, em meio à amarga separação do realizador e sua musa de 12 anos, 13 filmes e três filhos, Mia Farrow. Meses antes era revelada a relação entre Allen, de 55 anos, e a filha adotiva da atriz, Soon-Yi Previn, de cerca de 20 (não se sabe sua data de nascimento). Houve duas investigações independentes, mas em ambos os casos não foram encontradas provas contra Allen. Periodicamente as acusações, sempre negadas pelo diretor, ressurgem. Uma sombra de dúvida que nunca deteve o diretor, que produz um filme por ano inclusive em tempos de crise. Se alguém pensou que a carreira do autor de Noiva neurótica, noivo nervoso e Manhattan estava acabada então, se enganou. Tomando como exemplo a última década, Allen dirigiu 10 filmes, uma minissérie de TV — Crise em seis cenas, também para a Amazon —, tem em pós-produção A Rainy Day in New York e outro roteiro prestes a ser filmado. Foi premiado com quatro Oscars, um deles recebido depois das acusações, assim como outras honrarias como o prêmio Príncipe de Astúrias (2002) e o prêmio Cecil B. DeMille pelo conjunto da obra (2014).

Por que agora seria diferente? Porque, como relembrou Dylan Farrow, casada e mãe, chegou a hora. O clima mudou graças, entre outras coisas, ao trabalho de seu irmão Ronan Farrow, o homem que expôs em toda a crueza os abusos sexuais e de poder cometidos em Hollywood. E Ronan sempre acreditou na irmã, como agora toda uma nova geração de estrelas.

Em sua última negativa, Allen reiterou sua inocência assegurando que a família Farrow utiliza com “cinismo” a oportunidade oferecida pelo movimento Time’s Up. Não é o único que fala de oportunismo. Chalamet foi censurado por escudar-se em uma suposta cláusula inexistente em seu contrato na qual não podia criticar Allen. Daí que seu gesto altruísta de doar o salário por seu trabalho — algo que também fizeram Rebecca Hall, Selena Gomez e Griffin Newman — em A Rainy Day in New York fosse analisado como parte de sua campanha nesta temporada de prêmios na qual o ator foi indicado por Me chame pelo seu nome.

No caso de Woody Allen, diferentemente de outros grandes nomes caídos em desgraça nestes dois últimos anos, apenas uma mulher denunciou o autor. Como relembra em sua defesa seu biógrafo Robert Weide, dormir com a filha adotiva de sua esposa pode parecer moralmente errado, assim como a diferença de idade que os separa, mas “isso não o torna um pedófilo”. E as acusações de Dylan, nunca comprovadas, foram consideradas durante muito tempo um “assunto de família” no qual o passado de Mia Farrow não faz mais do que polarizar grupos. Moses Farrow, outro dos filhos de Mia, afirma que as acusações foram “plantadas” por sua mãe na mente de uma menina impressionável demais. Allen, casado há 20 anos, ainda conta com muitos defensores, como Diane Keaton e Alec Baldwin, que saiu em sua defesa insistindo que trabalhar com o nova-iorquino foi “um privilégio”.

Mas os tempos atuais devem contribuir pouco para o diretor de 82 anos. Artigos como Por que parei de ver filmes de Woody Allen na popular página cinematográfica RogerEbert.com têm feito pouco por sua popularidade. “A vida mudou também para Woody Allen, mas não se pode negar sua longa carreira”, resume Kim Masters, editora do The Hollywood Reporter. Sem financiamento, público ou prestígio a oferecer a suas estrelas, o ocaso do octogenário pode estar cada vez mais próximo.

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