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“Serei primeira-ministra e mãe, enquanto Clarke ficará em casa como papai”

Jacinda Ardern, a primeira-ministra da Nova Zelândia, vai tirar licença-maternidade de seis semanas.

Durante a campanha, ela criticou os que lhe perguntaram se queria ser mãe

Jacinda Ardern
Jacinda Ardern e seu parceiro, Clarke Gayford, durante coletiva na porta de sua casa, em Auckland. AFP

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, e seu parceiro, o jornalista Clarke Gayford, anunciaram nesta sexta-feira que esperam para junho o nascimento de seu primeiro filho. Ardern, de 37 anos, que assumiu o cargo em outubro passado, criticou duramente na campanha eleitoral o sexismo na política e o fato de lhe perguntarem se pensava em ser mãe.

Numa das primeiras entrevistas como candidata do Partido Trabalhista, quando um jornalista lhe disse que os neozelandeses tinham direito de saber se sua primeira-ministra tiraria licença-maternidade durante o mandato, ela afirmou: “É inaceitável que em 2017 as mulheres tenham que responder a essa pergunta em seu ambiente de trabalho. É a mulher que decide quando ter filhos, e isso não deve determinar se ela receberá ou não oportunidades de trabalho.”

Em frente à residência oficial, Ardern concedeu uma coletiva acompanhada de seu parceiro, ambos relaxados e sorridentes, para comentar sobre a “inesperada, mas emocionante” notícia de seu bebê. “Clarck e eu estamos realmente emocionados por informar que esperamos receber nosso primeiro filho em junho”, disse ela diante das câmeras. “Ainda temos que nos acostumar a dizer isso em voz alta, porque escondemos durante bastante tempo”, completou, revelando que descobriu que estava grávida apenas seis dias antes de saber que seria primeira-ministra, após a renúncia do líder do partido, e que aquilo foi “100% surpresa”.

Num comunicado citado pelo New Zeland Herald, Ardern explica que seu vice, Wiston Peters, será o primeiro-ministro em exercício durante as seis semanas de licença-maternidade que ela vai tirar após o nascimento do bebê — a licença parental na Nova Zelândia é de 18 semanas. “Peters e eu temos uma grande relação, e sei que, juntos, faremos com que esse período funcione. No final de minha licença-maternidade, retomarei todas as funções e deveres de primeiro-ministro”, declarou, lembrando que durante seu afastamento estará “em contato e disponível”. Também informou que seu companheiro se encarregará do cuidado do bebê e ressaltou que, assim como está entusiasmada com seu papel de mãe, está “igualmente focada” em seu trabalho e sua responsabilidade como chefe de Governo.

Ardern, que não revelou se espera um menino ou uma menina, confessou que o casal tinha dúvida sobre se podia conceber. “Clarke e eu sempre soubemos que queríamos ser pais, mas nos disseram que precisaríamos de ajuda para que isso acontecesse”, afirmou. Por isso, diz ela, a notícia da gravidez foi “uma surpresa fantástica”.

Para Ardern, “sem dúvida os tempos mudaram”, o que lhe permite conjugar a maternidade com uma carreira no primeiro pelotão da política. Diante da imprensa, não deu muita importância quando sugeriram que é uma pioneira. “Não sou a primeira mulher a realizar múltiplas tarefas. Não sou a primeira mulher a trabalhar e ter um bebê”, enfatizou. “Sei que estas são circunstâncias especiais, mas existem muitas mulheres que fizeram isso bem antes que eu”, afirmou. Segundo ela, são várias as mulheres que abriram caminho para permitir que outras pensassem: “Sim, posso realizar um trabalho e ser mãe.”

Uma das perguntas que lhe fizeram pareceu um tanto machista. “Pretende se casar?” E ela, que recebeu o questionamento com humor, reagiu virando para seu parceiro, que foi quem respondeu. “Bem, gosto da ideia de que estamos fazendo tudo ao contrário”, disse ele. E completou: “Compramos uma casa juntos, agora vamos ter um bebê... vamos ver.”

Num tuíte, acompanhado de uma foto com dois anzóis grandes, um deles com um anzol menor em seu interior — metáfora da gravidez e em referência à grande paixão de seu companheiro, a pesca —, Ardern diz que este ano eles se juntarão a muitos pais que “desempenham mais de uma função ao mesmo tempo”. “Serei primeira-ministra e mãe, enquanto Clarke será o first man of fishing e ficará em casa como papai”. Gayford, apresentador de diversos programas de viagens, entretenimento e música na TV, além de atrações diurnas nas principais emissoras de rádio do país, agora apresenta o programa de pesca Fish Of The Day, da Choice TV, além de assinar uma coluna intitulada The First Man of Fishing, em referência à sua principal ocupação e ao fato de que, na Nova Zelândia, não há primeira-dama, e sim primeiro-cavalheiro.

A mandatária laborista chegou ao poder após fechar um acordo de governo com os verdes e com um partido nacionalista, colocando fim a nove anos de Governo conservador. A carismática líder protagonizou uma rápida ascensão aos postos-chave da política ao ganhar as eleições apenas meses depois de assumir o comando do Partido Trabalhista, ao qual pertence desde os 17 anos. Ardern defende com contundência os direitos das mulheres. Em seu programa eleitoral, expressou a intenção de descriminalizar o aborto. “As pessoas devem ter liberdade para tomar suas decisões sem medo de serem castigadas”, disse ela num debate durante a campanha.

Entre os parabéns que recebeu, o colíder do Partido Verde, James Shaw, ressaltou que o anúncio de Ardern é importante para muitas mulheres. “Que uma mulher possa ser a primeira-ministra da Nova Zelândia e escolher ter filho enquanto está no cargo diz muito sobre o tipo de país que somos e que podemos ser: moderno, progressista, inclusivo e igualitário.”

Ardern teve uma antecessora. A paquistanesa Benazir Bhutto deu à luz durante um de seus mandatos como presidenta, há 30 anos. Antes, havia sido a primeira chefe de Governo num país muçulmano. A política paquistanesa teve seu primeiro filho, Bilawal, somente um mês e meio antes de se tornar primeira-ministra, após protagonizar uma intensa campanha eleitoral; e teve sua filha Bakhtawar exercendo o cargo, em 1990. Enquanto isso, vários primeiros-ministros homens se tornaram pais durante o mandato, entre eles o britânico Tony Blair.

Na Espanha, a falecida Carme Chacón, ex-ministra da Defesa, passou em revista as tropas no Afeganistão em 2008, quando estava grávida de sete meses, numa imagem que deu a volta ao mundo, enquanto a vice-presidenta Soraya Sáenz de Santamaría dirigiu a transferência de poderes do Governo socialista ao popular 11 dias depois de dar à luz.

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