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Um grupo de WhatsApp e uma página no Facebook para saquear lojas no México

Autoridades mexicanas investigam grupo de saqueadores, em ação com mais de 110 presos

Imagens de telas dos grupos nas redes sociais em que os saques são organizados.
Imagens de telas dos grupos nas redes sociais em que os saques são organizados.

"Na praça Bella às 6 e na entrada às 2", escreve Sebastián. "Vão nos ganhar, tenho certeza”, responde Brandon. “É cedo justamente para que não nos ganhem”, insiste Sebastián. São quase 2h da manhã de quinta-feira. Brandon e Sebastián discutem por WhatsApp o assalto à praça Bella Mexiquense, um centro comercial em Tecamac, na zona metropolitana da Cidade do México. Quase 24 horas mais tarde, passada a meia-noite de sexta-feira, há 16 presos: nove foram detidos por roubo, agressões e desacato à autoridade, quatro por assaltar a loja de departamento Coppel e três por saquear uma Oxxo, a maior rede de lojas de conveniência do país. Uma onda de 33 tentativas de saque nos últimos dois dias assombra o Estado do México, e muitas delas foram organizadas com o apoio de grupos de WhatsApp, páginas do Facebook e hashtags no Twitter.

O administrador da página Saques 2018 publica a cronologia do plano: “Amigos, amanhã na Héroes de Tecamac às 2h30 na Bodega Aurrerá [supermercado], às 4h30 na Guadalajara [farmácia], às 5h na Esperanza [Padaria], às 6h na praça Bella Mexiquense". Doze minutos depois há dois "amei" e uma "raiva". "Não faltem, avisem o grupo todo porque se não fizermos uma, [deixamos] as outras para amanhã, compartilhem", acrescenta o administrador.

Diana lança a convocação no Assaltos Ecatepec Próximas Reuniões e Eventos organizados, que tem 36 membros. "Heróis 6ª [seção, onde fica a Bella Mexiquense]! Me passem seus números por inbox para acrescentá-los ao grupo de WhatsApp e organizarmos tudo!". Dezoito minutos depois há 10 "curtidas" e um “triste". Alguns recrutas utilizam perfis falsos e outros os reais, mas em alguns casos outros grupos e páginas de Facebook a que pertencem indicam o destino final das mercadorias roubadas: grupos de troca e revenda de telefones celulares, relógios e artigos eletrônicos, que são exibidos ao lado de grupos insuspeitos como “Solteiros em Ecatepec [município contínuo a Tecamac] e de membros da subcultura Emo.

Os grupos de assalto desaparecem sem deixar rastro algumas horas mais tarde, menos quando ocorrem falhas ou alguém comete um erro. Desde que os assaltos começaram, em 3 de janeiro, foram detidas mais de 110 pessoas por atos de vandalismo em ao menos cinco municípios do Estado do México, entre elas 30 menores de idade, informaram autoridades locais na sexta-feira. A polícia identificou dois perfis de Facebook com mais de 3.500 seguidores e oito administrados de grupos de WhatsApp onde os ataques são convocados. Dos 33 saques tentados, quatro se consumaram contra lojas e 13 estabelecimentos foram vandalizados, de acordo com a secretária estadual de Segurança, Maribel Cervantes, que concedeu uma entrevista coletiva transmitida ao vivo pelo Facebook.

Saqueos Edomex
Imagem da tela de uma conversa de saqueadores no Whatsapp.

A reconstituição do ataque à Bella Mexiquense foi possível por quatro capturas de tela divulgadas no Twitter pela Associação Mexicana contra os Crimes Cibernéticos. Há também grupos de denúncia como Queimadores de saqueadores MX, Denuncia Ecatepec e Moradores informados, que reúnem informações, denunciam os grupos de saqueadores para fechá-los e expõem o modus operandi dos ladrões. A batalha travada nas ruas se transfere para as redes sociais. “Todos os saqueadores que temos queimado possivelmente poderiam ter participado dos saques de ontem à noite”, afirma o administrador do Queimadores. “Já viram a página dos queimadores?”, brinca Ross em um grupo de WhatsApp de saqueadores. "Fiquem ligados, estão nos queimando, coloquem privacidade nas suas contas de wadsap", escreve Tello, mais preocupado.

"São principalmente jovens de ambos os sexos, nem-nem, sem emprego nem meio de vida definido”, descreve o administrador da página Denuncia Ecatepec, que prefere manter o anonimato.

Ainda que antes houvesse saques isolados, fontes policiais do Estado do México afirmam que o problema começou em janeiro do ano passado, quando grupos se reuniam para cometer ataques em massa como protesto contra a liberalização do preço da gasolina. Um ano depois, no entanto, a história parece diferente. Os protestos já não têm um papel de destaque em meio aos assaltos.

“Os atos de rapina e saques ocorridos não serão tolerados (...) aqueles que pensam que podem cometer esses crimes sem consequência estão equivocados. Quem violenta a paz enfrentará um governo firme”, disse na sexta-feira Juan Francisco Hernández Aguilar, procurador regional de Ecatepec. Junto a ele, Maribel Cervantes, secretária de Segurança do Estado do México, anunciou a mobilização de milhares de policiais para a noite de Reis, e disse que está perseguindo os perfis de Facebook e WhatsApp de onde os saques são organizados.

“O anonimato relativo dado pelas redes faz com que muitos ‘aproveitem’ para se beneficiar com os produtos roubados (...) temos o temor de que isso se institucionalize e aconteça todos os anos”, afirma o Denuncia Ecatepec, cuja página de Facebook supera os 860.000 seguidores.

“Ouçam, ouçam os disparos, os tiros estão a toda! Os policiais atirando, as pessoas querem entrar no Aurrerá, isso saiu do controle. Os bombeiros não querem vir... Tropas de choque e todo caos”, narra uma mulher enquanto grava com seu telefone os distúrbios em San Juan, em Zumpango, 50 quilômetros ao norte da Cidade do México. "Me sigam no Instagram para ver as histórias do que aconteceu”, comenta animado outro usuário. As redes sociais se transformaram também em uma válvula de escape. "A policial comendo o lanche e o bando roubando como sempre; levaram algo como 20 telas, alto-falantes, de tudo”, conta no YouTube outra testemunha dos acontecimentos em Zumpango, onde acredita-se que cerca de 100 pessoas participaram dos saques de quinta-feira à noite, das quais 54 foram presas pela polícia.

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