Drogas

A crise dos opiáceos: veneno para a economia norte-americana

O consumo em massa de medicamentos e drogas reduz a expectativa de vida nos Estados Unidos Fenômeno esvazia o mercado de trabalho e obriga as empresas a tomar medidas extraordinárias

Serviços de saúde atendem um homem com overdose no verão passado em Salem, subúrbio de Boston.
Serviços de saúde atendem um homem com overdose no verão passado em Salem, subúrbio de Boston.BRIAN SNYDER (REUTERS)

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Os Estados Unidos se deparou semana passada com um dado desolador: sua expectativa de vida se reduziu em 2016 pelo segundo ano consecutivo, uma anomalia entre os países desenvolvidos. De fato, o norte-americano médio já vive menos que a população de outros países ricos. No centro desse fenômeno está a epidemia de opiáceos que assola a maior potência do mundo, uma emergência de saúde declarada. No mês passado, a Casa Branca calculou que a crise comeu em um ano mais de 500 bilhões de dólares, o equivalente a quase a metade de todo o PIB anual da Espanha, em função das mortes (64.000 por overdose de drogas em 2016), dos gastos médicos e da perda de horas trabalhadas. Mas também representa um empecilho para o crescimento em si.

O impacto mais imediato e evidente dessa epidemia é notado no mercado de trabalho. Alan Krueger, que foi presidente do Conselho Econômico de Barack Obama, investigou o assunto a fundo. No ano passado publicou que quase a metade dos homens que não faziam parte da população ativa tomavam medicamentos para a dor diariamente, um dado que o levou a continuar puxando o fio e estabelecer, em um relatório publicado no trimestre passado pela Brookings Institution, a penosa relação entre opiáceos e atividade profissional. O aumento da prescrição de receitas desse tipo de medicamentos registrado entre 1995 e 2015 poderia ter causado os 20% de queda no índice de participação (porcentagem da população empregada ou em busca de emprego) dos homens no mesmo período. No caso das mulheres, explicaria os 25% da mesma queda.

A redução da população ativa é um problema que os Estados Unidos carrega há anos, e que está lastreando o crescimento potencial do país, para além dos ciclos econômicos. Se no princípio da década de 2000 estava em 67,3%, em setembro de 2015 chegou ao mínimo em quatro décadas, 62,4%, apesar de agora ter melhorado. Influenciam o dado o envelhecimento da população e o desaparecimento de certo tipo de emprego, mas o trabalho de Krueger sugere que os opiáceos desempenharam um papel mais relevante do que foi identificado até agora. Nesses 15 anos estudados, o índice de atividade caiu mais precisamente nos condados em que mais prescrições desses remédios foram detectadas.

O fentanil e outros opiáceos sintéticos, quando não diretamente a heroína, já começam a afetar algumas empresas na hora de encontrar profissionais. Em setembro passado, Jonathan Rupert contou à rede de televisão CNBC que dos 49 funcionários que havia em sua empresa em Ohio, que fabrica e instala balcões e superfícies para banheiros e cozinhas, 15 eram ex-viciados. Tinha comprado a companhia, Distinctive Surfaces, dois anos atrás e, segundo conta, na época não parava de receber telefonemas de pessoas procurando emprego. O negócio foi crescendo e começou a precisar de mão-de-obra. Quando começou a procurar, percebeu que muitos candidatos tinham problemas com drogas. Há seis meses decidiu contratar um homem que estava em reabilitação, este o apresentou a outros e também foram contratados pela empresa. “Não me importa o passado de um cara, mas o que faz hoje, e o que fará no futuro”, explica Rupert, e acrescenta que, em seu ponto de vista, “um cara que quer investir seu tempo em seu futuro e uma vida saudável é alguém que vale a pena trazer”.

Mais consumo de drogas entre trabalhadores

Ohio é uma região especialmente castigada pelo problema, mas não há um setor produtivo especialmente identificado como mais prejudicada. Em resposta a este jornal, Alan Krueger afirma que “os trabalhadores menos escolarizados são mais vulneráveis, assim como também é a população branca que a afro-americana ou latina, mas o vício está muito disseminado”. Há um círculo vicioso potencial no viciado em medicamentos: quem sofre do problema se vê expulso do mercado de trabalho, o vício piora e a volta ao mercado fica ainda mais difícil. “Essa espiral é um risco, é claro, mas espero que o fato de que se esteja prestando mais atenção ao problema ajude a deter a expansão das receitas médicas de opiáceos”, conclui.

Outros dados apontam também para a alta do consumo de drogas em geral entre os trabalhadores norte-americanos. A empresa Quest Diagnostics, que se dedica a realizar exames de pessoal em empresas e elabora um índice anual, identificou em 2016 a maior taxa de uso de drogas por parte de funcionários em 12 anos. Estão há quatro anos seguidos registrando aumentos no caso da cocaína, apesar de o aumento mais drástico no ano corresponder à maconha e o de heroína se manter estável.