Indulto a Fujimori

Ex-presidente Fujimori pede perdão em um vídeo aos “compatriotas decepcionados”

Kuczynski defende o indulto ao ex-mandatário e pede aos peruanos que “virem a página”

Alberto Fujimori pede perdão aos “compatriotas decepcionados” MARTIN MEJIA (AP) | facebook

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O presidente peruano, Pedro Pablo Kuczynski (PPK), defendeu nesta segunda-feira o indulto ao ex-mandatário Alberto Fujimori, condenado em 2009 a 25 anos de prisão por crimes de lesa humanidade, e pediu aos peruanos que protestam nas ruas pelo segundo dia consecutivo que “virem a página”. Em uma mensagem televisionada à nação, o presidente afirmou que Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, “incorreu em transgressões significativas da lei, ao respeito à democracia e aos direitos humanos” quando assumiu a Presidência do país, mas que seu Governo também contribuiu para o “progresso nacional”. Em um vídeo difundido nesta segunda-feira em sua conta oficial, Fujimori agradeceu a Kuczynski por ter-lhe outorgado o indulto e pediu perdão. De seu quarto na Unidade de Terapia Intensiva da Clínica Centenário, o ex-presidente disse: “Estou consciente de que os resultados durante meu Governo por uma parte foram bem recebidos. Mas reconheço, por outro lado, que também decepcionei a outros compatriotas. A eles peço perdão de todo o coração”.

Na primeira mensagem que dirige à população desde o indulto da noite de Natal, Kuczynski afirmou que foi a decisão mais difícil de sua vida, mas que o fez porque Fujimori já havia cumprido aproximadamente metade de sua sentença e aos seus 79 anos, sua saúde havia se deteriorado. “Estou convencido de que, aqueles de nós que se sentem democratas, não devemos permitir que Alberto Fujimori morra na prisão. A justiça não é vingança”, acrescentou. Kuczynski reiterou que o indulto é baseado em “razões humanitárias” pelas suspeitas de que seja parte de um acordo político após salvar-se de ser destituído no Congresso.

Na quinta-feira, Kuczynski se livrou do impeachment graças a 10 imprevistos votos de fujimoristas dissidentes, o que fez muitos pensarem que por trás havia um pacto para indultar o caudilho. Mas o Governo peruano o negou peremptoriamente. Somente três dias depois, a concessão do perdão presidencial a Alberto Fujimori, o homem mais odiado – e mais amado por muitos – do Peru desatou uma enorme crise política em que ocorreram manifestações nas proximidades da casa do presidente e acusações de “traição à pátria” de pessoas como Verónika Mendoza, líder da esquerda e essencial à ascensão de Kuczynski ao poder.

Protesto contra o indulto a Alberto Fujimori em Lima, nesta segunda-feira.
Protesto contra o indulto a Alberto Fujimori em Lima, nesta segunda-feira.Mariana Bazo (Reuters)

Tudo foi uma negociação secreta de alto escalão em que a salvação do presidente foi trocada pelo indulto ao caudilho. Kuczynski estava prestes a ser destituído por “incapacidade moral” por seu envolvimento no caso Odebrecht, já que uma de suas empresas assessorou a multinacional quando ele era ministro da Economia. A manobra para derrubá-lo foi arquitetada por Keiko Fujimori, a filha mais velha do caudilho. Mas PPK, apreensivo, colocou seu grupo para negociar com os dois lados.

Por um lado, seus ministros prometeram aos deputados fiéis à esquerdista Mendoza que o indulto nunca seria concedido e lhes pediram apoio para evitar que o poder caísse nas mãos dos fujimoristas. Mas enquanto conseguia dessa forma os 10 votos de Mendoza que necessitava, por outro lado negociava outros 10 com Kenji Fujimori, o filho mais novo, e outros fiéis ao patriarca, que há meses pressiona para sair da cadeia em que estava há 12 anos. Kenji, deputado, se colocou do lado de seu pai, que queria sair da prisão a todo custo, e moveu os 10 votos necessários, quebrando assim o grupo de sua irmã, Keiko. Dessa forma salvou PPK, que escapou do impeachment por oito votos.

Manifestações contra o indulto

Enquanto políticos e seguidores fujimoristas comemoravam a decisão, milhares de pessoas se reuniram na praça San Martín – no centro da capital – para protestar contra a jogada de PPK. Por volta de 500 pessoas chegaram à esquina da casa de Kuczynski e a polícia as atacou violentamente. Em uma rua fechada o grupo mais numeroso recebeu gás lacrimogêneo e golpes de cassetete. Tanto em Lima como em outras regiões várias manifestações foram convocadas.

Apesar de ser Natal, na segunda-feira ocorreram protestos nas ruas de Lima onde pelo menos 5.000 pessoas, entre as quais familiares das vítimas da repressão do regime fujimorista, marcharam em repúdio ao indulto e exigindo a saída de Kuczynski.

Foi o antifujimorismo que o fez presidente, e por isso esse mundo sentiu-se especialmente traído. A partir de agora PPK já não poderá se apoiar mais no antifujimorismo, terá que procurar os Fujimori como aliados. Até mesmo a pequena bancada do Peruanos pela Mudança (PPK), o partido de Kuczynski, se dividiu.

PPK se salvou e agora pode contar com uma agressividade muito menor dos fujimoristas, pelo menos por enquanto. O tempo dirá se pagou um preço muito alto.