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Um ano do crime (nada perfeito) contra o embaixador grego no Brasil

O assassinato de Kyriakos Amiridis está repleto de detalhes sórdidos. Presos desde então, a mulher do diplomata, o amante PM, e o sobrinho deste aguardam o veredito de um júri popular

Kyriakos Amiridis
Françoise Amiridis, viúva do embaixador grego, chegando na delegacia. ap

O assassinato do embaixador grego no Brasil, Kyriakos Amiridis, em dezembro do ano passado, aspirava a ser um crime perfeito, mas acabou traído por seu amadorismo. Amiridis, que vivia em Brasília desde janeiro de 2016, passava férias de Natal no Rio com sua mulher, Françoise de Souza, e sua filha, de 10 anos. Não teve tempo de aproveitar as festas. Em 29 de dezembro, seu carro e os restos carbonizados do seu corpo foram achados sob um viaduto em Nova Iguaçu, na região metropolitana do Rio. Poderia ser um simples latrocínio ou um ajuste de contas numa das áreas mais perigosas do Estado, mas os suspeitos do crime, para alegria dos investigadores, deixaram um rastro de pistas que beiram o absurdo.

A história da morte do embaixador, de 59 anos, começa com uma infidelidade. Françoise, que entre idas e vindas passou 15 anos com Amiridis, iniciara em novembro um relacionamento com Sérgio Gomes, um jovem PM considerado um miliciano perigoso por sua própria família. A relação não surpreendeu parentes e amigos, porque todos consideravam óbvio que Françoise e o embaixador mantinham vidas paralelas. Mas Sérgio não se encaixava no perfil de homem branco e rico que costumava atrair a embaixatriz, como ela gostava de ser chamada. “"Achei esquisito. Ela nunca se juntou com homens morenos ou negros. Criticava quem se envolvia com eles, e sempre esteve com homens de pele clara"”, disse a mãe à polícia.

O PM, além de amante, passou a ser o motorista de Françoise em suas visitas ao Rio de Janeiro, com direito a uma chave que abria a porta do condomínio e da casa geminada onde a família passava as férias. Quando o embaixador não estava em casa, o policial ocupava o seu lugar. Dormia com a embaixatriz inclusive quando a filha dela, reconhecida legalmente por Amiridis como sendo sua, estava na residência.

Foi essa chave que Sérgio usou a noite do assassinato, em 26 de dezembro. Sua defesa se apega ao fato de não haver testemunhas do que ocorreu dentro da casa, mas as câmeras de segurança do condomínio contam boa parte da história. As imagens mostram o policial e um sobrinho dele, Eduardo Tedeschi de Melo, chegando a pé no final da tarde até a porta da casa da vítima. Françoise e a menina haviam ido a um shopping center, e Amiridis estava sozinho em casa. As câmeras também gravaram os dois homens entrando na casa, Gomes saindo algum tempo depois e manobrando o carro alugado do embaixador para colocá-lo bem em frente à porta da casa e, já por volta de 3h da madrugada, os dois saindo com um enorme volume envolvido num tapete, que foi acomodado no veículo antes de partir.

O sobrinho contaria depois que não sabia muito bem o que estava fazendo ali. Disse que foi porque o tio, de quem afirma sentir medo, pedira ajuda para “dar um susto num velho que batia na mulher”. Curiosamente, Sérgio é alvo de uma denúncia por ameaçar uma mulher com a qual queria ter um relacionamento, e Eduardo tem antecedentes por agredir uma ex-namorada.

Os detalhes do que ocorreu quando os dois suspeitos invadiram a residência foram variando em seus sucessivos depoimentos. Sérgio diz que discutiu com o embaixador e que o asfixiou em legítima defesa quando este lhe mostrou uma pistola. Essa suposta arma nunca apareceu, e ninguém jamais a havia visto. A perícia, entretanto, não deixa muitas dúvidas: a vítima perdeu muito sangue no sofá, sangue que chegou ao chão e às paredes de azulejo branco da casa. O que levou a polícia a acreditar que o embaixador foi surpreendido e assassinado rapidamente com uma punhalada no pescoço.

Matá-lo foi rápido, mas o difícil era se desfazer do pesado corpo. Levaria horas. Françoise, teoricamente, esperava o seu amante no shopping – – a polícia acredita que estivesse preparando seu álibi –, mas, por volta de 1h30 da madrugada, cansou-se e voltou para casa. Coincidentemente, a mulher não entrou pela porta principal, que dava na sala onde jazia seu marido, e optou pela da cozinha. Segundo Françoise, nem ela nem sua filha repararam na presença de dois homens dentro da sua casa arrastando um cadáver de quase 100 quilos. Nem sequer perceberam quando Sérgio se limpava e trocava de camisa. As duas dormiram placidamente.

Qualquer um poderia se perguntar por que mãe e filha não se surpreenderam ao ver o carro do embaixador na porta e não encontrá-lo dentro de casa. Mas Sérgio se encarregou disso. Como se dispusesse de um cronômetro, o policial retirou o carro do condomínio minutos antes de as duas chegarem. Não foi telepatia, claro. Durante todo esse tempo, segundo a investigação da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense, os dois amantes se comunicaram por telefone.

A partir daí, a história assume contornos tragicômicos. Depois de sair da casa, tio e sobrinho percorreram muitos quilômetros com o cadáver enrolado no assento de trás. O policial estava caindo de sono e cedeu o volante ao seu cúmplice. Até que o sobrinho se cansou e decidiu ir embora. Vendo-se sozinho, o policial escondeu o carro enquanto concebia outra ideia genial para sumir com a prova do crime. Enquanto isso, ainda teve tempo de almoçar com Françoise e tirar um cochilo na casa da vítima.

Ao despertar, Françoise encontrou uma mancha enorme e escura no sofá e notou que o tapete tinha desaparecido, mas diz que não deu importância a isso, nem mesmo pelo pequeno detalhe de que ninguém sabia onde estava seu marido. A faxineira contou outra coisa à polícia: que a patroa andou de um lado para o outro procurando um tira-manchas, enquanto explicava à empregada que tinha emprestado o tapete para uma festa grega.

Às 20h, Sérgio já tinha um novo e infalível plano: queimaria o carro com o corpo dentro. Se em algum momento pretendeu ser discreto, fez de tudo para não conseguir. Além de passar por pedágios que o gravaram com o volume na parte traseira do carro, todos os frentistas de um posto de gasolina recordam como ele exigiu de forma mal educada levar o combustível em garrafas de refrigerante de 1,5 litro. Para que o conduzissem até um lugar onde pudesse queimar o carro, contratou um mototaxista, a quem ameaçou para que esperasse enquanto concluía a tarefa –com o pequeno problema agregado de que isso transformou o motoqueiro em testemunha ocular da explosão do veículo. Até um morador de rua viu tudo.

A sequência de trapalhadas não parou por aí. Quando Françoise decidiu ir à delegacia para denunciar o desaparecimento do marido, três dias depois do assassinato, não teve ideia melhor do que chegar acompanhada de uma advogada, por acaso a irmã do amante, e do próprio Sérgio. A comitiva imediatamente despertou suspeitas. Enquanto Françoise depunha, Gomes decidiu voltar para a cena do crime e brigou com a síndica do condomínio, exigindo que ela apagasse as imagens das câmeras de segurança. Não deu muito certo.

Os agentes estavam sem dormir para tentar resolver o caso. Em poucas horas o carro já havia aparecido, e os investigadores tinham várias peças para reconstruir os fatos. Num segundo depoimento, o casal foi detido. O policial não demorou a confessar. A embaixatriz, que agora diz ter sido constrangida pela polícia, reconheceu que sabia que seu marido estava morto e quem o tinha matado, mas alegou que não participara do plano. E finalmente o sobrinho, sentindo-se traído, delatou o seu tio e também implicou Françoise. Afirmou que a mulher, ao voltar para casa naquela madrugada, deparou-se com eles e com o cadáver. A mulher, segundo Eduardo, chegou a queixar-se pela demora e se mostrou desconfiada com a participação do sobrinho do amante. Ao saber que era da família e “de confiança”, ofereceu-lhe 80.000 reais num prazo 30 dias se concluíssem com sucesso aquele plano que aspirava à perfeição.

A denúncia do Ministério Público, baseada no inquérito policial, sustenta que os amantes planejaram o crime para se beneficiarem dos bens e da pensão do embaixador. Os três suspeitos, todos eles presos à espera do julgamento, negam. A acusação de premeditar o homicídio com fins econômicos foi formalizada apesar de até hoje não se saber qual é o patrimônio da vítima, que não deixou outros familiares além de sua mãe idosa, na Grécia. Se é que realmente tinha algum bem. A polícia pediu a colaboração das autoridades gregas para localizar o espólio, mas não recebeu ajuda. Enquanto isso, a filha de Françoise, uma menina tão inteligente que aos 11 anos já fala quatro idiomas, não tem nem pensão nem patrimônio, e depende dos cuidados de uma amiga da sua mãe.

Desde que foi presa, Françoise, visivelmente abalada, insistiu a cada um dos três advogados que sucessivamente assumiram o caso que não tinha nada a ganhar com a morte do seu marido. Que ela e sua filha viviam como queriam. E que, desde que Amiridis morreu, sua vida está destruída. As sucessivas defesas de Françoise, apegadas à tese de que sua cliente só soube do crime quando este já estava consumado, ainda esperam obter sua absolvição.

Não é o caso de Gomes. Seu advogado, especialista em tribunal do júri, terá que suar o paletó para convencer os jurados a emitirem o veredicto de que seu cliente agiu em legítima defesa. A tarefa se mostra titânica. Os investigadores rastrearam no celular do acusado as buscas que ele fez no Google nos dias anteriores ao crime. Desde 16 de dezembro, os temas de interesse do policial eram coisas como “drogas que matam”, “a estrada mais perigosa do Rio”, “como explodir um carro” e como comprar drogas que anulam a vontade. Digitou várias vezes o nome do embaixador. E, três dias antes do homicídio, o PM ampliou o campo de busca: começou a se instruir sobre “crimes perfeitos”.

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