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A Catalunha é independente?

A imagem de um parlamento vazio votando de forma secreta algo tão importante mudará para sempre não só a Catalunha, mas toda a Espanha

independência Catalunha
Parlamentares pró-independência cantam o hino catalão depois de declararem a independência da Espanha, em Barcelona REUTERS

Os líderes separatistas da Catalunha votaram na sexta-feira com um Parlamento meio vazio e em segredo uma resolução de independência sem valor legal e efetivo. De 135 votos possíveis 70 votaram a favor de uma resolução que pede ao Governo regional a abertura de um processo constituinte; 55 parlamentares se ausentaram e 10 votaram não. A imagem de um parlamento vazio votando de forma secreta algo tão importante mudará para sempre não só a Catalunha, mas toda a Espanha.

O voto foi secreto porque proclamar a independência é considerado um crime de rebelião, que pode levar a uma condenação de até 35 anos de prisão. Os partidos independentistas na Catalunha representam 2,5 milhões de eleitores, de uma população de 7,5 milhões e um censo de 5,5 milhões de eleitores.

O Governo levou a declaração ao Tribunal Constitucional. O Senado espanhol aprovou a suspensão da autonomia. Nas próximas horas, o governo catalão em peso será destituído e Madri assumirá suas funções até a convocação de novas eleições, em um prazo de seis meses.

A Catalunha não é, sob nenhum aspecto, independente. Os líderes independentistas não têm maioria social e política para cumprir o que essa declaração aprovada promete “constituir a República Catalã, como Estado independente e soberano, de direito, democrático e social”. Os poderes legislativo, executivo e judicial na Espanha alertaram repetidamente sobre a ilegalidade do que aconteceu hoje na Catalunha.

Acaba assim uma viagem cada vez mais radicalizada de líderes políticos regionais que se uniram à esquerda radical para proclamar a todo custo a independência da Catalunha, provocando principalmente uma fuga massiva de capitais da região e a saída de 1.000 empresas, que levaram suas sedes sociais a outras cidades da Espanha. Deixaram de fora de seus planos os 2,5 milhões de eleitores que optaram por partidos não nacionalistas e os muitos espanhóis de outras regiões que vivem e trabalham na Catalunha.

A crise se agravou durante a crise econômica mundial que começou em 2008. Os partidos nacionalistas responderam ao aumento do desemprego e aos cortes públicos com um discurso supremacista e nativista, com a narrativa de que o resto do Estado espanhol, empobrecido, prejudicava uma Catalunha supostamente superior econômica e culturalmente. A mensagem foi bem-aceita, e nasceram organizações privadas que deram aos líderes políticos grandes manifestações que agitaram as ruas.

Agora se aproveitaram do crescimento populista em todo o Ocidente. Da mesma forma que Donald Trump chegou à presidência norte-americana com um discurso isolacionista e o Brexit foi realizado com argumentos supremacistas, o nacionalismo se impôs na Catalunha com um dano irreparável à Catalunha. Em todos esses casos, a Rússia colocou em funcionamento sua máquina de ingerências e notícias falsas, sempre com o interesse em enfraquecer os Estados Unidos e a União Europeia.

Em poucas horas, o Governo central intervirá na autonomia catalã. É algo que não acontece desde a guerra civil do século XVIII entre partidários de dois adversários diferentes à coroa espanhola. O vencedor à época foi Felipe V, primeiro rei Bourbon da Espanha, que cancelou o autogoverno catalão. Agora, não deram outra saída ao Estado espanhol. O próprio Rajoy e a oposição socialista disseram inúmeras vezes que não queriam chegar a essa situação. Por fim não tiveram outra opção, porque a alternativa era declarar o estado de exceção. O próximo passo é o Governo espanhol convocar assim que for possível eleições autônomas para restaurar a normalidade na Catalunha. Antes, entretanto, será preciso restaurar a legalidade.

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