Fascismo

Itália se revolta contra torcida fascista da Lazio que zomba de Anne Frank

Torcedores colaram adesivos da menina morta pelo nazismo vestida com a camisa da Roma, a equipe rival

Claudio Lotito, presidente da Lazio
Claudio Lotito, presidente da LazioGregorio Borgia / AP

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No inquietante imaginário dos extremistas de direita da equipe de futebol romana Lazio – também nos de muitas outras na Itália –, “judeu” é um recorrente e ofensivo insulto ao rival. E o pior é que o adversário deve encarar dessa forma, já que continua sendo utilizado com frequência. No fim de semana, durante o encontro Lazio-Caglairi, alguns integrantes de Os Irredutíveis, como esses hooligans se denominam, inundaram a curva sul do Estádio Olímpico – que compartilham com a Roma – de adesivos fabricados só para essa finalidade, com o rosto de Anne Frank usando a camisa de seu odiado adversário. “Anne Frank incentiva a Roma”, dizia a montagem. Desta vez a Itália explodiu contra a última ocorrência e a Federação de Futebol Italiano (FIGC) abrirá nesta terça-feira uma investigação que poderá custar muito caro ao Lazio pela reincidência de sua torcida.

Porque os extremistas nem sequer deveriam ter estado ali, na curva que durante as partidas da Lazio permanece sempre fechada e onde são colocados normalmente os tifosi (torcedores) da Roma. Um juiz esportivo havia decretado o fechamento da curva norte do estádio depois dos cânticos racistas que durante a partida contra o Sassuolo, em 1 de outubro, torcedores tinham gritado contra os jogadores Adjapong e Duncan. Mas a Lazio, em uma demonstração de torpeza na gestão do clube, decidiu vender a um euro  as entradas da Curva Sul durante os dois encontros em que duraria a punição. A ironia do caso é que o lema da campanha era “Combatamos o racismo”, mas a jogada só conseguiu mudar os hooligans de lugar e estimulá-los a deixar a casa de seu rival atulhada dos notórios adesivos.

Ao contrário de vezes anteriores, o caso adquiriu uma enorme relevância e os principais jornais o levaram à primeira página com duros editoriais. A queixa da comunidade hebraica de Roma impulsionou a repulsa e La Repubblica, por exemplo, publicou o mesmo adesivo repetido uma dezena de vezes com as camisas de várias equipes da Série e o lema: “Anne Frank somos todos”. A polêmica, transformada em trending topic, chegou até a política. O presidente da República, Sergio Mattarella, definiu o fato como “um ato desumano”. A prefeita de Roma, Virginia Raggi, a presidente da comunidade judaica de Roma, Ruth Dureghello, e o presidente do Parlamento Europeu, o italiano Antonio Tajani, também o condenaram. E Matteo Renzi sugeriu às equipes da Série A que joguem no domingo com uma Estrela de Davi no peito para protestar contra um problema que, na realidade, não é nem exclusivo da Lazio. De fato, veem-se insultos parecidos toda a semana nas arquibancadas da equipe rival.

Mas desta vez a Lazio, uma das equipes com maior histórico de sanções por racismo – a saudação facista de seu então capitão, Paolo di Canio, aos torcedores depois de uma partida deu a volta ao mundo –, teve de pedir desculpas e, durante a manhã desta terça-feira, uma delegação da equipe, com seu presidente à frente e vários jogadores, levou à sinagoga de Roma uma coroa de flores para prestar homenagem às vítimas do Holocausto e distanciar-se da ação dos extremistas de direita. Além disso, o presidente disse que jogarão com a foto da jovem assassinada pelo nazismo na camisa durante a próxima partida, e a federação italiana anunciou que em todos os estádios será lido um trecho do Diário de Anne Frank.

Arturo Diaconale, diretor de comunicação do clube, explica ao EL PAÍS a situação criada. “Condenamos imediatamente este episódio que, lamentavelmente, se criou a partir de uma iniciativa contra o racismo. A Lazio é o único clube na Itália que adotava uma linha de extrema intolerância com o racismo. O presidente está pagando um preço muito alto por isso, incluindo ameaças de morte, e tem de andar com escolta. Mas teve êxito, porque há anos não há incidentes físicos na curva da Lazio, bandeiras ofensivas ou cânticos truculentos. Mas infelizmente é preciso continuar com uma ação educativa.”

Além do gesto desta terça-feira, o presidente anunciou que todos os anos a Lazio organizará uma viagem de 200 torcedores ao antigo campo de concentração de Auschwitz para manter viva a memória do que aconteceu. Mas a tolerância zero contra o racismo que começa a funcionar com normalidade em outras ligas europeias chega com muito atraso à Itália. O problema não é só dos torcedores da Lazio. Todos os domingos é possível escutar torcedores comuns, com os filhos ao lado, se dedicando a fazer o som do macaco quando um jogador negro da equipe rival conduz a bola. Na verdade, os extremistas da Roma também adotam o mesmo tipo de insulto contra os rivais de sua cidade e, como já indicam em alguns fóruns, não seria de estranhar que na próxima partida haja alguma reação usando a mesma linguagem.

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