‘O melhor’, Cristiano Júnior

Cristiano Ronaldo se destacou numa equipe que foi mais do que ele, enquanto o Barça foi menos do que Messi

Cristiano Júnior saúda Messi diante de seu pai, Cristiano Ronaldo.
Cristiano Júnior saúda Messi diante de seu pai, Cristiano Ronaldo.ANDY RAIN (EFE)

Como diriam os clássicos do pugilismo, libra por libra, Messi seria melhor jogador do que Cristiano. Goleia igual (ou mais), tem muito mais repertório longe da área. Digamos que um deles seria o melhor, pura e simplesmente, e outro o melhor do melhor time – um time muito bom, que ele deixa ainda melhor. Mas como o futebol não é tênis, e sim um esporte coral, o português foi eleito The Best (“o melhor”) por um variado júri de todos os cantos do planeta – aqueles onde se vê o futebol ao vivo, onde só os melhores momentos são transmitidos, ou mesmo onde não há sinal de TV. Uma assembleia tão subjetiva como seria você, caro leitor, ou eu mesmo. Mas há algo objetivo: CR foi o melhor porque ganhou mais que o melhor, e porque é preciso ser muito, mas muito bom, para discutir com sólidos argumentos a liderança de uma equipe que tem Messi no elenco. Na temporada passada, o Real Madrid foi mais que CR, e o Barça foi menos que Leo. Em geral, para que um ator triunfe, é preciso um bom filme, e para que um longa faça sucesso é preciso ter um bom ator. O que não significa, aos olhos de muitos espectadores, que o filme ou o intérprete sejam o suprassumo.

Sem subtrair um milímetro de méritos desse imponente Cristiano da última fase da Champions League, os inspiradores deste futebol de celuloide teimam em enfatizar o espumoso mundo das celebridades. Se não fosse esse clamor pelo vedetismo, CR deveria ter recebido um prêmio em nome de todo o Real Madrid, esse time que tanto o acolheu durante a formidável dobradinha de títulos. Seria o caso de aceitar que o português o recebesse, apesar de não ser o capitão, como única concessão a esse estrelismo de umbigos que a FIFA, a France Football e certas Ligas fomentam. E agem assim em seu benefício próprio, para convencer a clientela do futebol como objeto de consumo, mais fácil de rentabilizar quando se foca num eu em lugar do coletivo.

Custa entender os critérios desses prêmios. Como Iniesta pode estar no time ideal depois de uma temporada de desamparo?

Às vezes, muitas vezes, nem atinamos para esse eu. Como explicar que Iniesta, depois de uma temporada de desamparo, figure no time ideal da FIFA? Ou que também estejam presentes na lista Messi e Neymar, sendo que o Barça só conseguiu rebarbas, graças a uma Copa do Rei conquistada diante o Alavés? Custa, e muito, entender o regulamento do concurso. O que, diabos, rende pontos? Se fossem os momentos decisivos do período premiado, a julgar por CR e sua ebulição contra o Bayern e o Atlético, não haveria lugar para Buffon, que sofreu quatro gols na final da Champions. No caso de Iniesta e Buffon, pesa muito mais seu merecidíssimo eco eterno que o presente galardoado. Mas não se supõe que esse babélico júri deveria se ater ao hoje?

Não importa a barafunda do contexto destes prêmios. O mais simples, o mais esclarecedor, seria entronizar quem fosse considerado como o melhor dentro do clube que tenha conseguido mais títulos e de maior envergadura. Ou seja, o Real Madrid de CR. Fácil demais, abortaria as discussões populares que inflamam a galera. Tampouco preocupa que os ganhadores sejam previamente conhecidos, o que reduz a emoção do que deveria ser uma jornada instigante. O relevante é o elixir das cerimônias, que exige de todos os adereços do tapete vermelho do Oscar e dos desfiles de moda. E que não faltem as radiografias televisivas dos penteados e trajes das mães, filhos, namoradas, esposas ou cartolas.

Pelo alto astral na cerimônia e Londres, finalmente já parecem Federer (Messi) e Nadal (CR)

Eis aqui uns palpites próprios. O melhor, sem mais, livremente escolhido: Messi. O mais relevante daquela que foi disparadamente a melhor equipe no período premiado: Cristiano. E o melhor do melhor entre o melhor na cerimônia desta segunda-feira: a foto do filho de CR cumprimentando um jovial Messi na presença do sorridente papai. Uma imagem excepcional do futebol humanizado, desse futebol que, para Javier Marías e alguns outros, ainda rebobina a nossa infância a cada fim de semana. Só por esse flash o show já valeu a pena. Nem Leo nem CR discordariam. Em Londres, foram muito mais conciliadores que os fundamentalistas com a camisa dos seus clubes. Por sorte, já parecem Federer (Messi) e Nadal (Cristiano).

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