Incêndios florestais

“Minha cachorra salvou a minha vida”

Aos uivos, Lucinda despertou Ana Lauteria, que conseguiu fugir do incêndio na Galícia Duas de suas vizinhas morreram presas dentro de um carro alcançado pelas chamas

Perito examina veículo queimado em Chandebrito, onde morreram duas pessoas..
Perito examina veículo queimado em Chandebrito, onde morreram duas pessoas..OSCAR CORRAL

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Eram mais ou menos 18h30 quando Lucinda, uma pastora alemã de pouco mais de um ano, começou a uivar e a arranhar a porta da casa de Ana Lauteria e José Pereira. Ele havia descido até a Casa da Cultura do Camos (Nigrán, Galícia) para jogar cartas, e tinha deixado a esposa descansando na cama. O homem é conhecido como Coxo, pois usa bengala devido a uma paralisia e uma posterior fratura de quadril. Ela também precisa muletas: acumula cinco operações nas pernas e usa uma prótese na esquerda. Sente muita dor nas articulações, tem asma e toma remédios para dormir. "Se não fosse pela Luci, pela Lucinda, hoje estaria morta. Minha cadela salvou a minha vida. Ela me avisou que eu precisava acordar, porque o fogo já estava chegando. Agarrei as muletas e escapei como pude, até que vi os bombeiros na estrada. Tivemos muita sorte", exclama Lauteria em meio à desolação de Sobral, a menos de um quilômetro do cenário onde ainda sai fumaça do utilitário Kangoo no qual morreram Angelina Otero e Maximina Iglesias – duas das quatro vítimas fatais dos incêndios florestais dos últimos dias na Galícia (noroeste da Espanha), que têm cerca de 125 focos simultâneos.

Pereira recebe uma pensão de 300 euros (cerca de 1.100 reais) e sorri por ter conseguido salvar a sua esposa e a casa. Ele conseguiu construir a humilde moradia, ainda sem acabamento, com a ajuda de muitos moradores de Camos depois de a casa anterior onde viviam, pré-fabricada, ter sido destruída por outro incêndio, sete anos atrás. "Não temos nada, mas é tudo o que temos", diz, enquanto conta as pombas que morreram asfixiadas. "São 70. Não as criava para vender, nem comer, nem nada. Era porque gostava." O casal havia ganhado lenha de presente para este inverno, e também a perdeu. Também se foi a minúscula horta, localizada num canto do acanhado terreno, cercado por bosques de imensos eucaliptos. No lado de fora da porta da casa, sem pintar, se veem as marcas das unhas de Lucinda, resultado do seu desesperado esforço para salvar a dona.

Já Maximina e Angelina não tiveram a mesma sorte. Haviam combinado de se encontrar na casa da primeira às 16h30, como faziam todos os domingos, para jogar baralho – mais especialmente bisca, o jogo que elas dominavam. Estavam, como sempre, com sua amiga E. Essa moradora de Chandebrito, no município de Nigrán, que não quer sair na imprensa com seu nome, acha que também teria caído na armadilha mortal se, no meio de uma partida, não tivesse tido que sair às pressas para ajudar a salvar a casa de uma cunhada, que havia começado a queimar após ser atingida por fagulhas "Deixei as duas sentadas à mesa, mas o fogo começou a subir e atravessou voando entre as casas, e aí só me preocupei em procurar o meu marido, que tinha ido salvar as ovelhas. Depois fugimos para Vigo no carro de um vizinho." Ainda vestindo uma camiseta furada pelas faíscas, E. conta a tragédia diante da sua casa, com as persianas derretidas pelo insuportável calor e o Audi conversível do seu filho, mecânico de profissão, totalmente devorado sobre o asfalto do jardim.

Chandebrito e Camos, no município de Nigrán, e Coruxo e Fragoselo, já em Vigo, compõem o marco zero da catástrofe nesta comarca. Uma descomunal mancha massacrada, salpicada de pequenos galpões, hortas e veículos calcinados e coroada pelo pico de O Castro. Muitos vizinhos, sem conseguirem fugir, acabaram se refugiando juntos em porões, enquanto outros procuravam salvar seus bens com baldes e mangueiras, até os poços secarem. O jovem Emilio Abel ficou sozinho em casa porque seus pais e avós tinham saído para um almoço familiar. No meio da tarde tentaram voltar, mas a estrada já estava interrompida, e os guardas não deixaram que passassem para resgatar o rapaz. "Liguei várias vezes para o 112 [serviços de emergências], e quando finalmente me atenderam me disseram que ficasse tranquila, que os meios de extinção de incêndios estavam trabalhando em O Castro. Mas depois ligava para o meu filho e não era assim", relata Reme. "Emilio defendeu sozinho o galpão dos animais, a casa, a lenha, tudo", até que o encanamento derreteu e ele ficou sem água.

Maximina Iglesias, viúva, e Angelina Otero, casada e mãe de quatro filhas, aceitaram a carona oferecida pela namorada de um vizinho em seu furgão e estiveram entre as primeiras a deixarem a paróquia de Chandebrito. "Foram logo atrás do carro da polícia", conta Víctor Manuel Vidal, presidente da associação de moradores. "Mandaram as pessoas saírem em direção a Camos, porque parecia que por lá se abria uma possibilidade, mas quase chegando ao cruzamento da estrada provincial a polícia deu meia-volta, porque as chamas vinham para cima deles." A motorista da Kangoo não conseguiu manobrar e acabou mergulhando com o veículo nas labaredas, que tinham a altura dos eucaliptos. O fogo imediatamente engoliu as rodas. Ela conseguiu sair e queimou as pernas e os braços tentando abrir as portas traseiras, onde estavam as passageiras. "As fechaduras devem ter inchado com o calor", arrisca Vidal. Durante toda a noite, ninguém conseguiu resgatar os cadáveres carbonizados.