Rio de Janeiro

Crivella veta no Rio a exposição Queermuseu, censurada em Porto Alegre

Prefeito barra negociações do Museu de Arte do Rio para trazer a mostra à cidade Instituição cede, mas defende “liberdade de expressão e de manifestações artísticas”

Cruzando Jesus Cristo Deusa Schiva, de Fernando Baril.
Cruzando Jesus Cristo Deusa Schiva, de Fernando Baril.Divulgação

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O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), prometeu neste domingo que não iria permitir a chegada da Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira à cidade, e cumpriu. O Museu de Arte do Rio (MAR), que procurava um acordo com o curador da mostra, censurada em Porto Alegre após uma onda de ataques conservadores, encerrou as negociações para trazer a exposição aos cariocas.

Num vídeo publicado nas redes sociais, o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, questiona cinco pessoas se querem uma “exposição de pedofilia e zoofilia”. Todas, obviamente, respondem negativamente. Em tom de deboche, Crivella disse: “Saiu no jornal que vai ser no MAR. Só se for no fundo do mar”. Após o anúncio, segundo o jornal O Globo, o prefeito encomendou à secretária de Cultura, Nilcemar Nogueira, neta de Cartola, que estudasse como impedir a exposição. "A população do Rio de Janeiro não tem o menor interesse em exposições que promovam zoofilia e pedofilia", disse Crivella em declarações recolhidas pelo jornal. Questionado como a Prefeitura teria poder de vetar a mostra, ele respondeu: “O povo do Rio de Janeiro tem”.

A exposição, promovida e, depois, suspensa, pelo Santander Cultural de Porto Alegre, em 10 de setembro, gerou uma avalanche de protestos após ser acusada de incentivar a pedofilia, zoofilia e o desrespeito de símbolos religiosos. Apesar da polêmica, o Ministério Público Federal concluiu que não havia qualquer indício de apologia à pedofilia nas obras, e recomendou a reabertura da mostra. Seu encerramento, argumentou o MPF, prejudicaria a liberdade de expressão artística. Mas o banco, ameaçado de boicote pelos militantes conservadores, liderados pelo Movimento Brasil Livre (MBL), contrariou a recomendação.

Nesta terça-feira o conselho do museu, embora defensor dos “princípios da liberdade de expressão e das manifestações artísticas”, cedeu aos desejos de Crivella. “Diante do exposto, lamentamos o modo como este debate tem sido inflamado por intensas polêmicas, que levaram a Prefeitura do Rio de Janeiro, por ser este um museu de sua rede municipal de equipamentos culturais, a solicitar a não realização de Queermuseu”, disse a nota do museu. O MAR era favorável à realização da exposição atendendo “a cuidados éticos e jurídicos” definidos por lei e estabelecendo para isso uma classificação indicativa de idade, sinalização com orientações sobre o teor das obras expostas e permanente mediação junto ao visitante.

O MAR é um equipamento cultural municipal, mas funciona em parceria com a iniciativa privada. O empreendimento é um projeto da Fundação Roberto Marinho, do Grupo Globo, e é gerido por uma Organização Social, o Instituto Odeon. Seu principal patrocinador hoje é a Prefeitura. O Conselho conta com nove membros, dos quais apenas dois são representantes municipais: a secretária municipal de Cultura, Nilcemar Nogueira, e o subsecretário de Cultura e presidente da Fundação Cidade das Artes, André Marini. Conforme a Secretaria de Cultura divulgou na segunda, o que seria discutido na reunião do conselho seriam aspectos técnicos, financeiros e jurídicos de se trazer a exposição à cidade: “Diante dos episódios motivados por discursos de ódio e atos de violência, como os que ocorreram no último fim de semana [em referência às agressões na porta do MAM, em São Paulo], a segurança apresentou-se como fator prioritário nesta discussão”. Nesta terça, no entanto, o tom foi outro. A Secretaria esclareceu que o do museu “não é um conselho deliberativo e, como tal, não possui poder de veto ante decisões do Executivo Municipal, que já se posicionou claramente pela não realização de Queermuseu”.

Não é legal estimular uma criança a tocar em um homem nu em "nome da arte". É preciso respeitar a família, vamos cuidar das nossas crianças!

Gepostet von Marcelo Crivella am Sonntag, 1. Oktober 2017

Surfar na onda conservadora

Com seu veto e o vídeo em tom de chacota, Crivella mostra que não quer deixar o MBL sozinho capitalizar a onda conservadora que achou eco ao promover o boicote de exposições culturais, acusando-as de ter objetivos doutrinadores obscuros ligados à esquerda. Afinal, os valores religiosos e da família brasileira que os críticos das mostras alegam defender são a base da pregação política de Crivella junto a seu eleitorado de base evangélica. Não está sozinho na disputa do filão. O vídeo do ex-bispo veio na sequência do gravado pelo prefeito de São Paulo, o tucano João Doria, no qual critica a Queermuseu assim como a performance com um homem nu exibida no Museu de Arte Moderno de São Paulo. As mostras, segundo Doria, “afrontam o direito, a liberdade e, obviamente, a responsabilidade”.

Na segunda-feira, 70 curadores, diretores de museu e diretores de centros culturais de todo o Brasil, assinaram uma carta aberta demonstrando “o mais absoluto repúdio pelas ações orquestradas contra espaços institucionais de arte, assim como a toda e qualquer tentativa de cercear, constranger, desqualificar ou proibir as legítimas atividades artísticas que se desenvolvem no Brasil, construídas responsavelmente pelas instituições culturais”.

A carta afirma que “são notoriamente falsas as alegações de incitação à pedofilia e de apologia ao sexo nas obras ou nas exposições que têm sido objeto dessas ações”. “Limitar e impedir artistas, curadores e instituições é uma clara política de retrocesso face ao processo histórico que implantou um estado democrático de direito no Brasil”.

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