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COLUNA

Por que eu haveria de ir embora do Brasil?

Da liberdade de informação dependerá em boa parte que o Brasil possa ressurgir de suas cinzas

Parte da equipe do El País Brasil, na redação em São Paulo, na última quarta-feira, 27 de setembro.
Parte da equipe do El País Brasil, na redação em São Paulo, na última quarta-feira, 27 de setembro.

Pouco depois de chegar ao Brasil como correspondente deste jornal, em 1999, conheci numa praia da Bahia um outsider, já idoso, que, rodeado de gente, recitava para si mesmo como um mantra: “Eu não vou embora da Bahia. Por que haveria de ir embora da Bahia?”. Levava nas mãos uma quentinha que alguém acabava de lhe dar.

Tinha razão. Por que haveria de ir embora da Bahia, aquele paraíso natural e de proverbial calor humano, onde ninguém lhe incomodava e ainda por cima lhe davam sua comida quente todo dia? Às vezes, algum leitor que não gosta das minhas colunas pergunta nos comentários “por que não volto para a Espanha”. E isso sempre me lembra o homem que se perguntava por que haveria de ir embora da Bahia.

Às vezes me perguntam, desta vez os amigos, se com tudo o que está acontecendo neste país não sinto vontade de voltar para a Europa. Não nego que às vezes a minha mulher, a poeta Roseana, brasileira, e eu, vendo as nuvens negras autoritárias que se adensam sobre este país, ficamos tentados pelos demônios. Mas só por instantes, porque entendemos que o Brasil, com sua multiplicidade de riquezas, não se esgota no triste espetáculo de seus políticos, que, com sua incapacidade, acabam permitindo a onda de violência que golpeia as grandes cidades. Ele é maior e mais rico e mais digno do que eles.

No hotel de São Paulo onde fui alojado pela organização do prêmio de jornalismo Comunique-se, que acabava de ganhar como melhor correspondente estrangeiro, recebi um telefonema, de Madri, do meu colega de jornal, o romancista Antonio Jiménez Barca, que foi diretor da edição brasileira do EL PAÍS e voltou a Madri para trabalhar na redação central. Surpreendeu-me quando me disse: “Juan, acredite em mim, se eu pudesse voltaria para o Brasil. Aí os problemas são graves, mas reais, e por isso acabam tendo solução, enquanto aqui os inventamos, e assim vai”. Ele se referia ao drama que a Espanha está vivendo com a pretendida separação da Catalunha.

Foi Jiménez Barca quem, no momento de deixar o Brasil, onde me dizia que muitas coisas lhe incomodavam, acabou me confessando, ao vir se despedir de mim aqui em Saquarema, que este país havia lhe dado algo muito importante: “Ele me ensinou a ser feliz”. Não era pouco. Ele havia se impressionado com o que chamei, ao receber o prêmio, de “outro Brasil”, aquele hoje ofuscado pelos desmandos de seus governantes que acabaram envenenando os ânimos de um povo naturalmente pacífico e conciliador. É o Brasil que outro colega espanhol do jornal, Tom Avendaño, está descobrindo. Um país tão diferente, diz, “da rigidez idiossincrática da Espanha. E tão criativo”. E acrescentou: “E sem terremotos, nem tsunamis, nem terrorismo, nem separatismos”.

Encontrei-me em São Paulo, depois do prêmio, com a jovem redação do jornal, 99% brasileira, que me acolheu com esse calor humano e me confirmou o que eu havia dito de improviso na noite anterior durante a cerimônia do prêmio. Existe esse Brasil, hoje eclipsado por seus problemas políticos, mas que continua presente em seu sangue. Meu desejo, depois de já ter escrito milhares de artigos sobre este país polifacético, mas que nem em meio às crises perde sua vocação de felicidade, é que não descarrile arrastado pelo veneno criado ultimamente pela política, e que acabou ofuscando as peculiaridades do país. É, disse-lhes, referindo-me aos jovens jornalistas, o Brasil sobre o qual quero continuar escrevendo, apesar dos meus já 50 anos neste ofício. Para que ressurja o Brasil que sempre deslumbrou o resto do mundo, confio nesta nova geração de jovens jornalistas e empreendedores, vacinados contra as velhas e estéreis ideologias e com vontade de construir um país mais saudável, mais moderno e menos desgarrado.

Volto hoje a vista para trás, quando minha geração começou a entrar no jornalismo, em plena ditadura militar na Espanha, onde cada linha das nossas crônicas era revisada e profanada pelas mãos de censores incultos do regime, e me dou conta de que os jornalistas brasileiros de hoje, além de imensamente mais bem preparados intelectualmente que nós na época, podem escrever, se quiserem, em liberdade. Meu desejo é que não se deixem seduzir pelos cantos de sereia de nenhum tipo de autoritarismo ou de populismo fácil, ou pior ainda, de servilismo ao poder, que seja. De sua liberdade de informação dependerá em boa parte que possa ressurgir de suas cinzas esse Brasil capaz de ensinar muitas coisas sobre como viver a vida. E de a vivermos juntos, não encetados em inúteis brigas tão pouco brasileiras.

Encerro esta crônica, escrita com o coração, para agradecer a avalanche de felicitações recebidas por meu prêmio. É impossível para mim responder a cada um como eu gostaria. Quero apenas destacar uma mensagem de um dos grandes mestres do jornalismo deste país, Clovis Rossi, da Folha de S.Paulo, a quem me aconselharam a ler quando cheguei ao Brasil, junto com o grande antropólogo Roberto DaMatta. Clovis me escreve, com simpática ironia, que não estava de acordo com terem me dado o prêmio como correspondente “estrangeiro”, já que, segundo ele, poucos jornalistas são “tão brasileiros como você”. Considerei esse o melhor elogio.

Sinto muito por esses poucos leitores que desejariam que eu fosse embora do Brasil. A eles respondo como o outsider da minha história: “Por que eu haveria de ir embora Brasil?”. Aqui encontrei não só sua comida quente, que eu adoro e que aprendi a comer toda junta no mesmo prato, símbolo da riqueza cultural, étnica e religiosa brasileira, mas também um mundo novo por descobrir. Nele continuarei vivendo e mergulhando em suas riquezas. E continuarei a amá-lo, apesar de todos os pesares.

Obrigado a todos.

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