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Lucía Topolansky, esposa de Mujica, será a nova vice-presidenta do Uruguai

Ex-primeira-dama substitui Raúl Sendic, que renunciou em meio a um escândalo político

Lucía Topolansky
Luzia Topolansky, junto ao presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, em uma imagem de 2015.

Dizem que quando viram as irmãs Topolansky logo depois que foram presas, os militares uruguaios não podiam acreditar: as temíveis gêmeas guerrilheiras que enchiam as páginas da imprensa afeita à ditadura uruguaia (1973-1985) eram pequenas e frágeis. As poucas fotos que existem dessa época o corroboram: Lucía e María eram duas feras com cara de menina.

Durante aqueles anos, Lucía Topolansky, que se prepara para ocupar a vice-presidência do Uruguai, foi para o público uma e dupla: as sediciosas Topolanksy, que apareciam nos jornais cercadas por aquele halo que as mulheres perigosas têm, assim como outra guerrilheira tupamara já falecida e um pouco esquecida, Yessie Macchi.

Para os cidadãos, Topolansky não é uma ex-guerrilheira; é acima de tudo senadora de um partido do Governo

Agora, a imprensa mundial só fala de Lucía, que além de substituir Raúl Sendic, que renunciou em meio a um escândalo político, é mulher do ex-presidente José Mujica e líder com longa trajetória parlamentar por direito próprio.

Mas a ascensão da integrante do Movimento de Participação Popular (MPP) e senadora não entusiasma no Uruguai, nem mesmo dentro da esquerda da coalizão Frente Ampla (FA) que inclui o MPP. A saída de Sendic foi um duro golpe para a mudança geracional dentro da FA. Com Topolansky, de 72 anos, a média de idade do Governo uruguaio ultrapassa com folga os 60 anos.

Além disso, coletivamente, a sociedade uruguaia parou de celebrar a guinada da história que representa a chegada ao poder daqueles que foram presos e torturados durante a ditadura. Durante sua presidência, José Mujica ocupou todo o espaço que poderia ser dado a uma geração que lutou com armas, perdeu uma guerra e depois soube se integrar no sistema democrático. Com Mujica, passaram a governar muitos outros ex-tupamaros, menos conhecidos no exterior, que encarnaram essa particularidade da história política uruguaia, que deu espaço aos vencidos.

É por isso que, para os cidadãos, Lucía Topolansky não é uma ex-guerrilheira; é acima de tudo senadora de um partido do Governo desgastado e com índices de aprovação popular historicamente baixos.

Sem dúvida, ela chega à vice-presidência por mérito democrático, como senadora mais votada nas eleições de 2014, depois do marido, que não pode assumir o cargo por ter sido presidente. Pode-se supor que a ex-guerrilheira tem uma forte vontade de poder e que não ocupará um cargo simbólico à sombra do presidente Tabaré Vázquez. Primeiro tentou ganhar as eleições para a prefeitura de Montevidéu em 2015 e, mais tarde, foi protelando a renúncia como deputada que havia prometido, publicamente, toda a velha guarda do MPP, com o objetivo de abrir espaço às novas gerações.

Os analistas acreditam que Topolansky poderia melhorar as relações do Governo com o Parlamento e facilitar o trabalho legislativo, pois o vice-presidente também ocupa a presidência da Assembleia Geral. Embora seja verdade que as relações de seu antecessor com a oposição estivessem rompidas, as dificuldades do Executivo estão relacionadas, precisamente, com o MPP e seu numeroso grupo parlamentar. Então Topolansky viria a resolver um problema interno da Frente Ampla.

Essa mulher pequena, de cabelos curtos, sempre vestida com simplicidade e que lembra muito Michelle Bachelet ou Dilma Rousseff, está inegavelmente comprometida com os setores populares e, como o marido, é de uma austeridade exemplar. Trabalhadora tenaz e metódica, ela fugiu do papel de vítima: superou um câncer e, se sofreu as mesmas torturas e vexações que outras ex-guerrilheiras, conheceu o inferno e sobreviveu, assim como a irmã, que vive distante da opinião pública.

Mas Topolansky também é dogmática, como indica seu apelido, La Tronca, uma expressão uruguaia difícil de traduzir que define alguém duro, até mesmo obtuso. A substituição, no meio da crise provocada pela renúncia de Sendic, não é sinônimo de um novo impulso para o Governo uruguaio.

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