Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine
Eleições 2014

Uruguai elege o sucessor de Mujica, o presidente que colocou o país no mapa

O carismático político assumirá o cargo de senador. Tabaré Vázquez é o favorito

Venda de camisetas com o rosto de Mujica em Montevidéu.
Venda de camisetas com o rosto de Mujica em Montevidéu. AP

Um dos poucos prazeres que José Mujica pretende concretizar quando terminar seu mandato presidencial é visitar a cidade vasca de Muxica, na Espanha, de quase 1.500 habitantes. Foi de lá que partiu seu bisavô rumo ao Uruguai no século XIX. Mujica visitou a cidade pela primeira vez no ano passado e pretende regressar no ano que vem. Neste domingo, o Uruguai realiza eleições presidenciais que marcarão o fim de seu mandato, mas não de sua presença na política.

O candidato de esquerda, Tabaré Vázquez, de 75 anos, é o favorito em todas as pesquisas contra Luis Lacalle Pou, 41, do Partido Nacional, de centro-direita. O resultado será divulgado na segunda-feira, mas Mujica permanecerá na presidência até 1o de março, como determina a Constituição. Depois disso, continuará vivendo em seu pomar e não ficará de braços cruzados. A Frente Ampla, seu partido e o de Tabaré Vázquez, sabe que “el Pepe” é a máquina mais poderosa para ganhar votos e não pretende desperdiçá-la.

Uma pessoa muito próxima a Mujica o descreve assim: “É um animal político, incansável como um desses velhos que consertam uma cadeira, depois uma mesa, o armário, voltam à cadeira e seriam capazes de quebrá-la para poder consertá-la de novo”. Tem 79 anos, nove a mais que sua esposa, a também ex-guerrilheira dos Tupamaros, Lucía Topolansky. Ambos trabalharão juntos durante os próximos cinco anos como senadores da Frente Ampla. “El Pepe”, diz a esposa, “vai cumprir um grande papel como mediador no Senado. Porque é um grande negociador. Já perdi a conta de reuniões feitas em nossa casa com sindicalistas, professores, agricultores, vizinhos, generais, ministros... E o Senado vai ter seu soldado mais fiel, que eu sempre fui. Já coincidimos em uma legislatura como senadores.”

Dentro dos 27 grupos que integram a Frente Ampla, apenas sete têm um peso importante, como o Partido Socialista e o Comunista. Mas a legenda que tem conseguido mais votos nas legislativas nos últimos dez anos é a de Mujica, que é apoiado por três de cada dez eleitores da Frente. Seu nome oficial é Movimento de Participação Popular (MPP), mas entre piadas costumam chamar o partido de Movimento do Pepe.

Além do Senado, Mujica está criando uma escola de formação agrária em sua casa. “Nós temos um terreno de 14 hectares e meio”, diz Topolansky. “Em uma pequena parte cultivamos nossas flores, frutos e verduras. E agora criamos uma fundação para formar as pessoas. Hoje uma pessoa não pode subir em um trator que custou 80.000 dólares sem saber como funciona. E não serve de nada semear frutos e depois não saber como cuidar deles. No dia de amanhã, se tiverem que lembrar de nós por algo no bairro, que seja como uns velhos loucos que fundaram uma escola e doaram o terreno em sua morte.”

É um animal político incansável, é como um desses velhos que consertam uma cadeira, depois uma mesa, o armário, voltam à cadeira e seriam capazes de quebrá-la para poder consertá-la de novo

Mas o Senado, a escola agrária, a viagem à cidade de Muxica e as conferências no exterior talvez não sejam ocupações suficientes para saciar toda sua energia. Por isso, Mujica também se dedicará a “respaldar seus frangos”, quer dizer, apoiar os candidatos do MPP nas eleições municipais que serão realizadas no Uruguai em maio de 2015. As negociações internas da Frente são formadas em um universo de equilíbrio e concessões no qual Mujica se movimenta com perfeição. Mas, mesmo ele, com todo seu carisma e poder como presidente, sofreu fortes derrotas em mais de uma ocasião.

À medida que se aproxima o final de seu mandato, Mujica conseguiu melhorar sua imagem positiva em dez pontos, de 54% a 64%. “Em um mundo onde a política está cada vez mais desprestigiada”, diz sua esposa, “ele soube ganhar prestígio. Por que um presidente tem que viver de forma diferente a um cidadão comum de seu país? Não há nenhuma razão política, social nem jurídica. Isso é um resquício da monarquia.”

Muitos empresários e políticos da oposição reconhecem em público que se hoje há como explicar no mundo que o Uruguai não é o Paraguai, é graças ao Pepe. Em outubro de 2011, quando já cumpria dois anos de mandato como presidente, Mujica foi a um evento oficial em Hamburgo. Uma testemunha lembra que a tradutora o apresentou em três ocasiões como presidente do Paraguai, até que o próprio ministro de Relações Exteriores alemão a interrompeu para corrigi-la. Provavelmente, o senador Mujica não enfrentará nunca mais esse constrangimento.

MAIS INFORMAÇÕES