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Kechiche divide opiniões com seu retorno após ‘Azul É a Cor Mais Quente’

‘Mektoub My Love’ é um retrato fulgurante sobre os anos de juventude, prejudicado por sua lasciva representação do corpo feminino

Festival de Cinema de Veneza 2017
O diretor Abdellatif Kechiche (centro), com os atores Shain Boumedine (direita) e Hafsia Herzi, em Veneza EFE

Ele deixou tudo no filme para poder terminá-lo, ao ponto de vender sua Palma de Ouro. Mas o retorno de Abdellatif Kechiche, alçado à primeira divisão dos diretores europeus após o sucesso apoteótico de Azul É a Cor Mais Quente, não convenceu todo mundo na quinta-feira na Mostra de Veneza. O filme tem o peculiar título de Mektoub, My Love: Canto I. “Mektoub é destino em árabe, porque o filme coloca essa questão. My Love, porque nos tornamos conscientes do destino em nossas relações amorosas. E Canto I, porque é uma obra em diversos volumes. Filmamos os dois primeiros e já planejamos o terceiro”, explicou o diretor na entrevista coletiva sobre o filme, recebido com uma mistura de breves aplausos e algumas vaias isoladas, mas o que mais chamou a atenção foi algo tão prejudicial como o silêncio.

O filme é um estudo fulgurante e novelesco dos anos curtos, mas intensos, situados entre a adolescência e a passagem à idade adulta. Está impregnado de um naturalismo vivaz, digno de quem, hoje em dia, parece a maior referência de Kechiche: outro cineasta tão atípico e intenso como Maurice Pialat, que despertou as mesmas paixões na França dos anos oitenta. Mektoub, My Love segue a mesma linha de Azul É a Cor Mais Quente. Seus protagonistas têm idades parecidas. Comem pratos de macarrão com ardor idêntico. Protagonizam cenas de sexo hiper-realista. Descobrem a intensidade do sentimento amoroso, mas também o que acontece quando o sol se põe. O filme dura três horas, mas também um verão. Narra o retorno de Amin, jovem universitário e aspirante a roteirista, à sua cidade natal, Sète, no litoral mediterrâneo, para passar as férias. Ali se reencontrará com sua numerosa família de magrebinos imigrados e seus amigos de infância, além de dois turistas que não tardarão em fazer parte desse fogoso grupo. Kechiche adapta o romance La Blessure, La Vraie (A Ferida, a Real), de François Bégaudeau, que já inspirou Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet.

O diretor optou por aproximar o original, que transcorre na costa atlântica do norte francês, a um terreno mais familiar. No centro de seu relato, coloca um jovem cineasta franco-tunisiano, como ele, com quem compartilha caráter taciturno e até certa semelhança física. “Não sei se o chamaria de alter ego. Não há nada biográfico na história. Mas, como todo mundo, já vivi amores e tive sensações que marcam”, respondeu Kechiche, com pudor impassível, na entrevista coletiva. Se o romance se passa nos anos oitenta, o diretor preferiu a década posterior. Em seu filme os celulares não existem, pode-se fumar nos bares, Scatman John toca nas discotecas e o racismo brilha por sua ausência. Coexistem, em paz inalterável, árabes e cristãos, homens e mulheres, jovens e adultos. Tudo o que se parece com a França de hoje é pura coincidência. “Para se entender o presente, é preciso compreender o passado. Antes do começo desse século se vivia de maneira mais harmoniosa. Pelo menos, nos anos oitenta e no começo dos anos noventa, antes que os tempos mudassem. Existe algo escrito no século anterior que nos explica melhor como é o atual”, explicou o diretor.

Apesar de suas inegáveis virtudes, o filme é prejudicado por sua representação do corpo feminino. Kechiche repete o que já fez em Azul É a Cor Mais Quente, cujas sequências explícitas de sexo lésbico foram criticadas por quem via nelas a fantasia de um voyeur heterossexual e um tanto quanto devasso. Em sua revalidação, não restam dúvidas de que não filma igualmente os homens e as mulheres. Essa assimetria se torna especialmente conflitante na parte final do filme, quando sua câmera se aproxima, como um pretendente de discoteca, das curvas botticellianas de uma de suas protagonistas, Ophélie Bau. “Lamento que tenha sido visto dessa forma. Não existe nada machista em minha aproximação aos personagens. Acho que retratei mulheres fortes, poderosas e livres”, respondeu Kechiche sobre essa crítica. “Dos 2.500 planos do filme, 2.400 mostram os rostos dos personagens. Só em alguns poucos seus corpos são vistos”.

Apesar desse aspecto bem problemático, seria uma redução definir esse filme como uma série interminável de planos obscenos. O diretor captura como ninguém a eletricidade do período juvenil, com suas cumplicidades e ataques de riso, borboletas no estômago e problemas emocionais. “Ninguém merece algo assim”, afirma um dos personagens, mais uma vítima da hecatombe do amor. As cenas de grupo e a sutil descrição das dinâmicas de poder entre os protagonistas são paradigmáticas do talento que Kechiche continua demonstrando. Com o avanço do verão, a adolescência fica definitivamente para trás. Os sentimentos se tornam mais nítidos. Os protagonistas engolem em seco e continuam sorrindo. E procuram estratégias para sofrerem menos, seja revelando fotos em um laboratório caseiro ou assistindo filmes soviéticos enquanto todo mundo está na praia. O criticado mutismo do personagem principal, uma pessoa passiva e apagada, responde à descrição que Kechiche deve ter em mente do artista: alguém que observa a uma distância prudente, sempre atento à beleza e à dor. Seu filme não é perfeito, mas é inegável que conseguiu capturar as duas coisas.

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