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A virgem amamentando, uma velha tradição cristã

Só um perturbado mental pode ver como uma ofensa e violência sexual o ato de uma mãe amamentar

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Na dura polêmica travada nas redes sociais do Brasil sobre o estupro cometido pelo ejaculador do ônibus, havia algo chocante que foi pouco debatido: chegaram a comparar aquela violência contra a mulher com a exercida por uma mãe que amamenta seu filho em público. Só um perturbado mental pode ver como uma ofensa e violência sexual o ato de uma mãe amamentar. Até mesmo a Igreja Católica, que não se distingue por seu laxismo em matéria de sexo, venerou, desde os primeiros séculos do cristianismo, imagens da Virgem Maria dando o peito a seu filho, conhecida como a devoção à “Virgem do Leite”. 

O papa Francisco ressuscitou essa devoção, que já aparece nas primeiras comunidades cristãs, ao pedir que as mães amamentem seus filhos onde quer que estejam. Das catacumbas romanas, no século III, até representações modernas em pleno século XX, todos os estilos pictóricos e escultóricos imortalizaram a Virgem Maria amamentando seu filho. A Igreja provavelmente tomou a devoção à Virgem do Leite da Deusa Mãe do paganismo romano para integrá-la ao cristianismo, assim como escolheu o 25 de dezembro como o dia do nascimento de Jesus quando era a data dedicada ao deus Sol. A Virgem dando de mamar ao filho foi certamente um reflexo da deusa Íris amamentando seu filho Hórus. 

A devoção à Nossa Senhora do Leite ainda está viva até hoje em Belém, onde há um lugar no qual, segundo a tradição dos evangelhos apócrifos, a Sagrada Família, fugindo de Herodes, parou no caminho para que Maria desse o peito a Jesus. Segundo a tradição, uma gota de leite caiu sobre a rocha em que ela estava sentada e esta ficou branca. A devoção levava os fiéis, tanto cristãos quanto muçulmanos, a usar pedaços daquela rocha para pedir que as mães tivessem bom leite para amamentar seus filhos. 

É verdade que houve papas, a partir do Concílio de Trento, que tentaram cobrir o peito de algumas imagens da Virgem no ato de amamentar, mas nunca chegou a ser uma regra na Igreja. Hoje, o papa Francisco não só não considera nenhum tipo de violência ou escândalo sexual para os homens que uma mãe sacie em público a fome de seu bebê, mas tem estimulado que isso seja feito na Igreja, sem precisarem sair se estão assistindo à missa. É do papa Francisco a oração: “Damos graças ao Senhor pelo dom do leite, e rezamos por aquelas mães – são tantas, infelizmente, – que não podem dar de comer a seus filhos”. O papa foi mais longe e deu valor religioso ao gesto de amamentar, comparando o leite materno com a palavra de Deus: “O que o leite faz para o corpo, a palavra de Deus faz para o espírito”. 

Na literatura mística cristã há relatos de que a Virgem apareceu para alguns santos e ofereceu o leite de seu peito como simbolismo de infusão de sabedoria. É famoso, falando nisso, o óleo sobre tela da Virgem dando um jorro de leite para São Bernardo, que pode ser visitada no Museu do Prado, em Madri. O peito materno só pode ser um dom e não uma tentação sexual. Evoca a nutrição e é um hino à vida. Até nas missões, a Igreja terminou respeitando os costumes e a cultura de países, como na África, ou entre as comunidades indígenas, onde as mulheres andam com seios nus e amamentam a qualquer momento e lugar. 

O papa Francisco está devolvendo, deste modo, à Igreja a parte mais original e terna do primeiro cristianismo, como o amor e o respeito pelo ato materno de alimentar a vida. Os homens que se sentem violados ou perturbados pela visão de uma mãe no ato de alimentar seu filho, se são cristãos, além de procurar um psiquiatra não deveriam ser “mais papista que o papa”.

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