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“Se for assim, adoro”, respondeu filho de Trump sobre oferta de “informação sensível” do Kremlin

Mensagem informava que o material a ser usado contra Hillary Clinton era do Governo russo

Donald Trump Jr
Donald Trump Jr. olha para o seu pai na posse deste como presidente. REUTERS

O escândalo se agiganta. A reunião de 9 de junho de 2016 entre o filho mais velho de Donald Trump e uma advogada russa que prometera informações tóxicas sobre Hillary Clinton tinha as digitais do próprio Kremlin. Em um email enviado em 3 de junho, o primogênito do então candidato republicano foi informado de que o material que ele estava prestes a receber era parte de um esforço do Governo russo para apoiar Trump. “Poderia incriminar Hillary e seus entendimentos com a Rússia, e poderia ser muito útil ao seu pai. Isto, obviamente, é um nível de informação muito alto e sensível, mas é parte do apoio da Rússia e do seu Governo a Trump”, dizia o email.

A resposta de Trump Jr. a essa oferta de informação suja vinda de uma potência estrangeira foi claríssima: “Se for assim como você diz, eu adoro, especialmente no final do verão”. O remetente, um intermediário britânico, havia comentado em sua primeira mensagem: “Também posso mandar esta informação ao seu pai através de Rhona [uma assessora de Trump pai], mas é ultrassensível, então eu preferia mandar isso primeiro para você”. A bomba estourou.

A revelação, antecipada pelo The New York Times e publicada na íntegra por Trump Jr., reforça a suspeita de conivência entre a equipe eleitoral republicana e Moscou. O suposto conluio é a pedra angular da investigação encabeçada pelo FBI e pelo promotor especial Robert Mueller. Sua base é um relatório, elaborado pelas três principais agências de inteligência dos EUA (CIA, FBI e NSA), segundo o qual o presidente russo, Vladimir Putin, ordenou ao seu serviço secreto uma operação para interferir nas eleições presidenciais dos EUA, prejudicando a imagem de Clinton e facilitando a vitória de Trump. O ataque incluiu uma invasão dos computadores do Partido Democrata e dos emails do chefe de campanha de Clinton. O material foi posteriormente vazado para o Wikileaks.

A reunião com a advogada russa ocorreu cinco meses antes das eleições, bem no apogeu do ataque cibernético russo. Participaram do encontro Donald Trump Jr., o genro do magnata, Jared Kushner, e o então chefe de campanha, Paul Manafort. O local eleito foi a Trump Tower, centro de mando das operações eleitorais do republicano.

A reunião foi agendada por intermédio de Rob Goldstone, um agente musical britânico a quem Trump Jr. conheceu durante o concurso Miss Universo de 2013, organizado por seu pai em Moscou. Goldstone é, por sua vez, representante do cantor pop Emin Agaralov, cujo pai, o empreiteiro Aras Agalarov, patrocinou o concurso de beleza e está na órbita de Putin.

O email, do qual se conhecem poucos detalhes, convidava o filho de Trump a se reunir com a enigmática advogada Natalia Veselnitskaya, acrescentando que ela lhe forneceria informações que estavam em poder de Moscou. A advogada, que nega ter qualquer relação com o Kremlin, é conhecida como uma lobista que defende os interesses de russos sancionados pelos EUA.

A reunião teve lugar em 9 de junho de 2016, e durou 30 minutos. Trump Jr. alega não ter recebido nada de útil da advogada. “Suas declarações eram vagas, ambíguas e não faziam sentido. Não ofereceu nenhum detalhe ou informação. Rapidamente ficou claro que ela carecia de dados de interesse.”

A advogada, sempre segundo esta versão, mostrou muito mais interesse pelas sanções a cidadãos russos. “Ficou claro então que essa era a sua verdadeira agenda, e que a oferta de informação potencialmente útil não era senão um pretexto para a reunião”, afirma o filho do presidente.

Trump Jr. insiste em que seu pai jamais foi informado da reunião, apesar da participação, em plena disputa eleitoral, do seu filho, do seu genro e do seu chefe de campanha. Também há suspeitas quanto à facilidade com que a campanha trumpista se dispôs a receber informações comprometedoras para a rival. Trump Jr. tentou se esquivar dessa questão alegando que agiu como qualquer político em campanha. “Obviamente, agora virei a primeira pessoa em campanha a fazer uma reunião para receber informação de um oponente”, ironizou durante a manhã pelo Twitter. À tarde, surgiu a notícia de que ele havia contratado um advogado.

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