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Investigação sobre encobrimento de 15 casos de pedofilia encurrala o cardeal da Cidade do México

Vídeo com declarações públicas do cardeal Norberto Rivera foi apresentado pelos acusadores como prova

Cardenal Norberto Rivera
Norberto Rivera na missa do domingo. Cuartoscuro

Um vídeo com declarações do cardeal mexicano Norberto Rivera poderia ser a prova capaz de condená-lo se for bem-sucedida a investigação iniciada pela Procuradoria Geral da República (PGR), que decidiu averiguar o suposto encobrimento de 15 casos de abuso sexual de crianças.

A PGR enviou o caso à Procuradoria Especial para Crimes de Violência contra as Mulheres e Tráfico de Pessoas (FEVIMTRA, na sigla em espanhol) depois que no dia 2 de junho os ex-sacerdotes Alberto Athié e José Barba Martín e três outras pessoas apresentaram uma denúncia contra o cardeal Rivera por, supostamente, deixar em mãos divinas –e não judiciais– vários casos de abuso de crianças dentro da Arquidiocese da Cidade do México.

“São 15 sacerdotes que abusaram de crianças; portanto, são crimes federais tipificados no código penal. Todos os casos devem ser investigados pelos bispos como manda o código de direito canônico, mas também têm a obrigação de denunciar crimes graves às autoridades competentes”, disse o ex-sacerdote em entrevista ao EL PAÍS.

A principal evidência trazida pelos denunciantes é um vídeo de 2016 no qual o próprio cardeal –em declarações públicas–, diz que nunca encobriu padres pedófilos e dá como exemplo ter notificado 15 casos ao Vaticano. “Eu não protegi absolutamente nenhum pedófilo; de fato, aqui na Arquidiocese ao menos 15 sacerdotes receberam não apenas o julgamento como também sentenças que, felizmente, nós não temos de dar. Aqui nós temos de fazer a investigação. Toda a investigação é enviada para a Doutrina da Fé, em Roma, e o Santo Padre é quem tomou as decisões nesses casos tão dolorosos, porque aconteceram aqui na Cidade do México”, disse na ocasião.

“Surpreendeu-me que uma declaração dessa envergadura tenha passado despercebida pelas autoridades”, diz Athié referindo-se a um processo que, segundo sua versão, chegou ao Papa, “sem que até agora saibamos quem são, onde estão ou o que aconteceu com os sacerdotes” desmascarados diante da Santa Sé.

“Pela primeira vez na história do México, um cardeal será chamado a depor perante uma autoridade civil sobre supostos crimes cometidos contra crianças e deverá fazê-lo como qualquer cidadão, sem nenhum tipo de privilégio”. Embora ainda não se saiba se esse momento chegará, Alberto Athié argumenta que “não querem a foto do cardeal depondo”, mas que o suposto encobrimento não fique impune.

“Não há razão para preocupação”, disse o porta-voz da Igreja, Hugo Valdemar, poucos dias depois da apresentação da denúncia. De acordo com Valdemar, a Lei de Associações Religiosas foi reformada em 2010 e a partir dessa emenda tornou-se obrigatório notificar as autoridades em caso de ter conhecimento de um abuso a um menor, não só na Igreja, mas em outras instituições, como escolas.

“Antes a Igreja não era obrigada a denunciar esses crimes porque são crimes civis e canônicos (...) e a maioria dos casos supostamente encobertos são anteriores a essa reforma”, disse durante uma entrevista à Radio Fórmula. “Penso que estão agindo assim para criar escândalo, prejudicar a figura do cardeal. Pretendem pressionar Roma para que sejam transferidos”, acrescentou Valdemar.

Para Athié, no entanto, essa não seria a primeira vez que o cardeal esconde casos de pedofilia das autoridades, porque desde 1997 Rivera sabia dos abusos do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel. “Ainda assim, tendo a informação, disse que era mentira e uma invenção descoberta por jornalistas pagos para isso”.

De acordo com o ex-religioso, no México existe uma cultura de opacidade sobre a Igreja que tem origem na secular relação entre Estado e Igreja e, mais recentemente, denuncia, nos “privilégios” obtidos depois da polêmica anulação do primeiro casamento de Angélica Rivera, que permitiu casar-se com o presidente Enrique Peña Nieto. O querelante revelou que se a PGR não responder sua denúncia levará o caso aos tribunais internacionais.

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