_
_
_
_

O que é ensinado nos cursos de educação sexual para adultos

“Ainda me surpreende que homens e mulheres não saibam onde está o prazer na vagina”, diz uma professora

‘Femme Nue Allongée’, de Toulouse-Lautrec.
‘Femme Nue Allongée’, de Toulouse-Lautrec.

Estou sentada sobre uma almofada no meio de uma sala espaçosa, junto com um casal, uma moça solteira e um homem divorciado. Na minha frente está Anahí Canela, educadora sexual para adultos que dá uma masterclass sobre ponto G e squirt (ejaculação feminina). Começamos a conversar sobre anatomia feminina e, depois de uma breve pausa para recuperar as energias, passamos à parte prática do curso. Anahí Canela tira a calcinha e nos faz uma demonstração do que é a ejaculação feminina. Ficamos mudos. E o interesse aumenta. Um por um, colocamos luvas de látex, um pouco de lubrificante e introduzimos os dedos dentro da vagin da professora, que nos guia até que, finalmente, encontramos o seu ponto G. Após essa descoberta, aprendemos algumas técnicas para estimulá-lo e conseguir assim o tão conhecido squirt. Mais tarde é a vez das mulheres, que devem tentar encontrar o próprio ponto G. No meu caso, sem sucesso. Até que Anahí Canela coloca luvas de látex e introduz dois dedos na minha vagina. Um movimento simples e... “porra”. É a única coisa que pude pronunciar. Mas não sem antes me perguntar como era possível que soubesse tão pouco sobre os meus órgãos genitais e minha sexualidade.

Mais informações
Masturbação coletiva em vestiário expõe a intolerância do ‘futebol para macho’
Assim será nosso futuro sexual com os robôs
Alemanha aprova o casamento igualitário
Assim esses famosos revelaram sua orientação sexual
Casal gay recria foto 25 anos depois “para que jovens vejam que amor duradouro existe”

Anahí Canela oferece uma grade variedade de cursos em que trata de assuntos como sexo oral ou anal. E, quase sempre, por meio de cursos práticos como o que assisti. “No meu caso, abordo um nível muito físico e muito prático, e encontrei pessoas bloqueadas que não aceitam a si mesmas, nem sua identidade, desejos ou prazer”, diz. Ela rompe todos os padrões clássicos ao dividir suas aulas em uma parte teórica e outra prática.

Os cursos são presenciais, têm uma duração que varia entre 4 e 8 horas e são dirigidos a todo tipo de pessoas, independentemente da orientação, identidade sexual, idade ou estado civil. Oscilam de 40 a 80 euros (150 a 300 reais) e tratam de assuntos tão interessantes como masturbação feminina e sexo oral ou, o mais pedido, o ponto G e o squirt. “As mulheres se interessam por assuntos como felação ou masturbação masculina, enquanto os homens preferem falar sobre ponto G e squirt”, diz Canela. “Embora o que continua a me surpreender hoje é que homens e mulheres não saibam onde está o prazer na vagina. Não têm a menor ideia sobre onde se pode tocar ou como se deve fazer”, diz Canela.

Nas escolas primárias é ensinada alguma coisa sobre anatomia sexual. No ensino médio, várias ONGs como a Cruz Vermelha desenvolvem em algumas escolas cursos sobre como evitar uma gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis, que podem ser resumidos em “como colocar uma camisinha em uma banana”. Aí acaba a educação sexual de muita gente. A sexóloga e terapeuta de casais María Esclapez, autora do blog Diário de una Sexóloga, diz que “a sexualidade está envolvida em mitos, estigmas ou crenças pré-concebidas” e fala de “auge” dos cursos para aprender a desfrutar da sexualidade.

Esse auge que é percebido no setor se reflete em projetos como a Sex Academy, a primeira academia de sexualidade da Espanha, fundada em 2012 por Laila Pilgren, sua gerente de projetos e atual diretora. “No nosso país, o pouco que se educa sobre sexualidade se faz em meio a uma aura de medo. Então chega um momento na vida dos adultos em que percebem que sua sexualidade esteve limitada e muitas vezes ficou estagnada por falta de informação e formalismos sociais”, diz Mireia Manjón, sexóloga e diretora adjunta da Sex Academy.

Educação sexual com pornografia

A pornografia também pode ser outro meio para ensinar técnicas de forma clara. Na Espanha existem projetos como o site Pornoeducativo, um portal onde são explicadas de forma explícita e por meio de vídeos, diferentes práticas sexuais. Ele nasceu há dois anos e, desde então, dizem que tiveram mais de 20.000 usuários registrados. A equipe é formada por um grupo de sexólogos e psicólogos responsáveis pela orientação do conteúdo pedagógico e educativo do site. E, por outro lado, existem os teachers, aqueles que se gravam diante de suas câmeras e colocam em prática todas as técnicas descritas. E não devemos esquecer os técnicos de imagem e som e seu diretor de Comunicação, Adrián Pérez, responsável por dirigir, organizar e estruturar todo o projeto.

Seus conteúdos são muito diversificados e englobam da masturbação ao sexo anal, abrangendo todos os grupos, inclusive pessoas com deficiência. Seu tutorial mais visto fala de ejaculação precoce, um guia passo-a-passo para tratá-la. Esse conteúdo e os relacionados ao sexo anal são os mais populares entre os homens, enquanto as mulheres usuárias consultam principalmente vídeos sobre vaginismo e anorgasmia.

A equipe continua a se surpreender quando realiza pesquisas de opinião e as pessoas não sabem o que é uma felação ou um cunnilingus. Ficam espantados, por exemplo, que as pessoas não conheçam a forma técnica (felação) para nomear a prática. “Isso nos dá o que pensar: a educação sexual tem de ser normalizada e para isso é preciso ensinar tudo de uma vez. Revolucionar a educação sexual como a conhecemos até agora” afirma Pérez.

Mas, como se poderia mudar a educação sexual atual? “Até agora, a educação sexual foi desenvolvido na forma de desenhos animados, textos, frutas ou hortaliças nas quais se colocam preservativos e coisas desse tipo. Nós preferimos ensinar tudo como é. Mostrar um pênis se falamos de pênis ou uma vagina se falamos de vaginas. A pornografia também pode ser educativa, sempre que exista uma equipe de profissionais por trás que mantenha os conteúdos no âmbito didático”, comenta.

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo

¿Quieres añadir otro usuario a tu suscripción?

Si continúas leyendo en este dispositivo, no se podrá leer en el otro.

¿Por qué estás viendo esto?

Flecha

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo y solo puedes acceder a EL PAÍS desde un dispositivo a la vez.

Si quieres compartir tu cuenta, cambia tu suscripción a la modalidad Premium, así podrás añadir otro usuario. Cada uno accederá con su propia cuenta de email, lo que os permitirá personalizar vuestra experiencia en EL PAÍS.

En el caso de no saber quién está usando tu cuenta, te recomendamos cambiar tu contraseña aquí.

Si decides continuar compartiendo tu cuenta, este mensaje se mostrará en tu dispositivo y en el de la otra persona que está usando tu cuenta de forma indefinida, afectando a tu experiencia de lectura. Puedes consultar aquí los términos y condiciones de la suscripción digital.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_