70º Festival de Cannes

Al Gore: “Aprendi que com o entretenimento se chega muito longe”

Ex-vice-presidente dos EUA apresenta continuação do filme vencedor do Oscar de dez anos atrás

Al Gore fala com a imprensa em Cannes.
Al Gore fala com a imprensa em Cannes.Pascal Le Segretain

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Al Gore acabou protagonizando documentários ambientalistas porque a Suprema Corte o expulsou da política. “Sempre me interessei por tecnologia e pela luta em defesa da natureza, mas esta segunda carreira de ativista ambientalista não foi uma escolha”, afirmou sorrindo. Gore (Washington, 1948) foi derrotado por aquelas cédulas voadoras que deixaram o eleitorado da Flórida enlouquecido e que, com ou sem manipulações, acabaram por levar George W. Bush à Casa Branca, forçando o vice-presidente de Clinton a se dedicar à luta contra a mudança climática. Nesta segunda-feira, ele apresentou em Cannes Uma verdade mais inconveniente, filme em que volta a atacar dez anos depois de Uma verdade inconveniente, que ganhou o Oscar e levou sua mensagem de alerta contra a mudança climática ao mundo inteiro. Prêmio Nobel da Paz, Gore esteve por meia hora com o EL PAÍS nesta terça-feira e, depois de expressar sua tristeza com o atentado de Manchester, insistiu em afirmar que a luta não está perdida: “Temos a tecnologia, o Acordo da Cúpula de Paris pelo qual os países signatários diminuirão as emissões de gases e estimularão as energias renováveis. Sou otimista”.

O documentário acompanha Gore em visita a inúmeros países mostrando como a natureza, com seus degelos, inundações, tempestades e secas, transformou em realidade aquilo que se anunciava em Uma verdade inconveniente. Ele também organiza acampamentos para formar pessoas que divulguem o seu trabalho. Por fim, faz uma visita a Donald Trump em sua torre de Nova York depois de este já ter sido eleito presidente, e as imagens se tornam premonitoriamente mais escuras.

Pergunta. O cinema é necessário para a divulgação de sua mensagem?

Resposta. Aprendi aqui em Cannes, onze anos atrás, que não existe meio mais poderoso que o cinema. Ainda hoje, assistir a um filme em uma sala com outras pessoas, celulares desligados e toda a atenção voltada para a tela é uma oportunidade única. Ainda mais quando há tanta pós-verdade circundando as informações sobre a mudança climática. Tenho muito respeito pelos diretores de documentários como os meus, que trazem provas e dados.

P. Poderia lembrar algum filme que tenha tido tanto impacto no senhor, a ponto de fazê-lo mudar de opinião?

R. Sim. Por exemplo, Food Inc. [documentário sobre a indústria alimentícia dos EUA]. Há muitos outros. Aprendi que com o entretenimento se chega muito longe. Desde a minha primeira participação em Cannes, passei a dar muito mais atenção aos documentários. E também estou mais enfronhado nas redes sociais, mesmo acreditando que elas ainda estejam na sua fase embrionária e que acabarão ficando mais refinadas. Suspeito que terão mais poder e que daí surgirão políticos capazes de revitalizar a democracia.

Trailer do filme da Al Gore 'An Inconvenient Sequel: Truth to Power' | Cultura

P. Há dez anos dizia que se não mudássemos as políticas alcançaríamos o ponto de não retorno.

R. Nos últimos três anos assistimos a uma redução de gases nos Estados Unidos e na China, e também na Europa. Isso ajudou a aliviar a situação. Mas uma década depois da estreia do primeiro filme, que foi também em Cannes, a realidade persiste, o perigo nos alcança. Por outro lado, esta segunda parte ressalta que temos as ferramentas para solucionar o problema. Precisamos nos mexer logo, é hora de reagir. Queremos dar esperança aos espectadores e, ao mesmo tempo, pedir que pressionem seus governos.

P. A distância entre políticos e governantes e as pessoas comuns está crescendo cada vez mais.

R. E por aí penetram os populismos. Estamos na França, onde a onda foi contida. Nas últimas eleições na Holanda, na Áustria e na Alemanha vimos que as pessoas frearam o populismo. Em meu país vimos nas ruas cada ação ser seguida por uma reação e um grupo de pessoas se organizou na internet como o movimento Indivisível, que agora está transformando prefeituras, buscando reformas progressistas com uma energia que eu não tinha visto desde, talvez, os protestos contra a guerra do Vietnã.

“Há uma década a Espanha era líder em energia eólica e solar. Gostaria que voltassem à liderança”

P. No filme você diz que a democracia foi sequestrada pelas corporações. É melhor ter como apoio um milhão de dólares que um milhão de pessoas?

R. Vi esse sequestro como uma tragédia. Como político te dizem que você precisa usar as campanhas para mendigar dinheiro e fazer sua mensagem chegar pela televisão. Mas talvez existam outras saídas, na internet importam mais as pessoas que o dinheiro. Veja Bernie Sanders: independentemente do que possa achar sobre suas propostas, fez uma campanha nacional sem receber dinheiro de grandes empresas. Esse é o princípio da devolução da democracia às pessoas. Em meu caso, estou tranquilo com o que fiz em minha carreira política antes de ser expulso pela Suprema Corte. Em minha primeira campanha, em 1976, ninguém sabia o que era um arrecadador de fundos eleitorais. Em 2000 te cercavam por todos os lados. E vi crescer o poder do dinheiro, sobretudo no Partido Republicano, mas também no Democrata.

P. Na Espanha a situação das energias renováveis mudou muito. Em 2015 só chegamos aos 16,7% de fontes renováveis no total de produção de nossa energia.

“A mudança climática já não se limita a previsões científicas: a mãe natureza está nos enviando uma mensagem clara”

R. Sei. É irônico, porque dez anos atrás vocês eram líderes em energia eólica e solar. Gostaria que voltassem à liderança. O curioso é que existem países como a Índia ou a China, que há sete anos eram os maiores poluidores e agora mudaram por completo, já alcançaram as metas pactuadas para 2020. Vi guerreiros massai usando celulares para tudo e economizando mais energia que um ocidental. Enfim, espero ter um de meus acampamentos em Madri nos próximos dois anos.

P. No documentário você aparece entrando na Trump Tower para conversar com o já então ganhador das eleições. Acredita que os acordos serão cumpridos?

R. Muitos de seus passos políticos foram decepcionantes. Mas, naquela conversa, só falamos de meio ambiente, e por enquanto não alterou a política nacional. Espero que não nos surpreenda.

P. Confia realmente na estabilidade de Trump? Lendo suas declarações…

R. [Gore ri às gargalhadas por meio minuto e puxa os cabelos]. Minha conversa com ele foi… normal. A partir do respeito mútuo. Falamos do Acordo de Paris. Entendo o que você quer dizer, mas me garantiu que nada mudaria. Como presidente dos Estados Unidos, tem grande poder e influência, mas não poderá com a dinâmica atual nascida nas ruas. A mudança climática já não se limita a previsões científicas: a mãe natureza está nos enviando uma mensagem clara: “Querem brigar comigo? Vejam como respondo.”

P. Tentam-no com a volta à política?

R. Todos os dias. Mas quanto mais o tempo passa, menos vontade tenho de voltar.

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