Flip 2017 | Festa Literária Internacional de Paraty

Diamela Eltit, entre a experimentação e a política

Escritora chilena incluída na programação da FLIP repassa sua trajetória da arte à literatura

A escritora Diamela Eltit durante entrevista em Bilbao (Espanha), em abril deste ano.
A escritora Diamela Eltit durante entrevista em Bilbao (Espanha), em abril deste ano.Fernando Domingo-Aldama

Universos à primeira vista divergentes se encontram na obra de Diamela Eltit (Santiago, Chile, 1949). Em seus romances convivem com naturalidade a literatura experimental e o compromisso político, e a própria carreira dela é uma rara demonstração de que a arte contemporânea e as letras não precisam necessariamente viver de costas entre si. Foi no primeiro desses mundos, ainda sob a ditadura de Augusto Pinochet, que a jovem chilena foi revelada, como parte do grupo conceitual CADA (Coletivo de Ações de Arte). Aconteceu naquele dia de 1979 em que, armada com um balde e um pano de chão, se dedicou a lavar uma rua de Santiago célebre por seus prostíbulos.

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Depois viria o seu romance de estreia, Lumpérica (1983). “Aí ganhei a fama de autora impenetrável, e já não teve mais jeito. Nem escrevendo um best-seller romântico eu superaria isso”, disse ela com humor, em abril deste ano, durante uma visita a Bilbao para participar do festival literário Gutun Zuria. “Já me acostumei. No começo me surpreendeu e me senti culpada. E depois pensei que não havia muito o que eu pudesse fazer”, afirma a autora que participará nesta semana da Feira Literária de Paraty (Flip 2017).

Apesar de ser bastante conhecida no Chile, essa fama de “autora mais estudada do que lida” talvez tenha impedido a chegada de seus livros à Espanha até 2012, quando a editora Periférica publicou Jamás el Fuego Nunca, título emprestado de versos do César Vallejo para contar a claustrofóbica história de uma mulher enclausurada que fala com seu companheiro sobre um passado de revoluções fracassadas e filhos mortos. O romance foi selecionado recentemente pelo BABELIA entre os 25 melhores livros em espanhol dos últimos 25 anos.

“Tudo já foi contado. Concretamente pelos gregos, sobretudo em questões tão radicais como a questão familiar, nisso foram muito a fundo.”

A mesma editora publicou em 2015 Fuerzas Especiales, em que novamente reunia suas preocupações (o corpo, o feminismo, a violência, as relações familiares), com um estilo distanciado das crônicas de costumes que triunfam nas estantes de novidades, assim como das histórias “transpassadas pelo fantasma do eu”, esse que alimenta a egolatria das redes sociais. “O eu é hoje em dia um eu muito pragmático, que se vende na Bolsa de valores”, adverte. A Periférica previa publicar também a obra em que Eltit estava trabalhando. “Estou bastante dedicada aos problemas que ela me causa atualmente, porque acho que sempre é interessante que um livro lhe cause problemas”, disse ela em abril.

Eltit, que se refere ao seu estilo como uma “escrita-outra”, considera que “tudo já foi contado”. “Concretamente pelos gregos, sobretudo em questões tão radicais como a questão familiar, nisso foram muito a fundo.” Essas opiniões, diz, estão sustentadas no fato de ela não se considerar “uma profissional disto aqui”. "Trabalho como professora, a vida toda precisei cumprir rituais muito restritivos, como chegar à aula às oito da manhã, então achei que na literatura não podia seguir essas normas. Só escrevo se tiver algo para escrever. Não penso nisso como uma burocracia ou um escritório. Separei muito cedo o dinheiro desta paixão, e isso foi muito libertador.”

O sustento ela procurou dando aulas, tanto no Chile, como nos EUA. E qual é o primeiro conselho que dá aos seus alunos? “Em princípio me inclinei por este: ‘Melhor que você não escreva’. Como isso tampouco pode ser”, continua, entre risos, “optei por convidá-los a escrever o que quisessem, a se esquecer das modas, dos acordos e dos grandes pactos”.

Debate na Flip

Diamela Eltit e o documentarista Carlos Nader participam da mesa 'A contrapelo' (dia 28 de julho, às 19:15), onde vão conversar sobre linguagens e fronteira artística. Durante o debate, o artista Ricardo Aleixo fará intervenções poéticas da obra Fruto Estranho.

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