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Sobreviver à guerra em Idlib, capital da Síria insurgente

A vida na província no epicentro entre bombardeios do Governo Assad e a violência da oposição

Ataque químico Síria
Homem com o corpo de uma criança após o ataque químico. REUTERS

Em Idlib, capital da Síria rebelde, Um Fateh se acostumou a ver chegarem multidões de homens com fuzis e acompanhados por mulheres com bebês. Em janeiro, viu-os chegar de Wadi Barada, periferia de Damasco. Viu-os chegar de Al Waer, último reduto insurgente da cidade de Homs. E nos próximos meses, contemplará aqueles que chegarem de Madaya e Zabadani, também parte da periferia da capital síria. Fateh e seus dois filhos também foram recebidos em Idlib em dezembro passado, quando o último reduto insurgente, em Aleppo, foi esvaziado em direção a estas terras férteis que fazem fronteira com a Turquia. Nesta parte da Síria, a última das 14 províncias do país completamente nas mãos de facções de oposição, reúnem-se, a golpe de cercos e rendições, grupos armados de diferentes facções e civis chegados dos quatro cantos do país. Trata-se da versão insurgente de Damasco, esta a capital leal e refúgio para aqueles que são removidos ou fogem dos cercos rebeldes.

“Faz uma semana que os bombardeios diminuíram. Dizem que é por causa de uma trégua firmada entre o Catar e a Rússia”, comemorava Um Fateh em uma conversa por WhatsApp três dias atrás. Até que nesta terça-feira um ataque com gás tóxico atingiu novamente o interior de Idlib. Ainda assim, ele assegura que a vida é muito melhor do que a que tinha no leste de Aleppo. “Ali vimos a morte de perto, cruzamos com ela e sobrevivemos. Aqui ela continua presente, mas não de forma tão intensa”. A decisão de sair da região insurgente foi muito simples: “Meu pai mora em Idlib e não temos que pagar aluguel”. Seguindo as dinâmicas de frentes e acordos políticos, os deslocamentos de populações redesenham uma nova Síria após seis anos de guerra. Fronteiras para as quais também contribui o barômetro econômico que dita o custo de vida em função da intensidade da guerra. Aqueles oriundos da cidade de Idlib fogem para o interior, menos castigados pelos aviões e onde, segundo ativistas locais, moram mais de 1 milhão de pessoas. Enquanto isso, os removidos vindos de outras províncias e mais pobres inundam a cidade onde os aluguéis são duas vezes mais baratos e com o dobro de possibilidades de serem bombardeados.

Os civis mais desamparados dependem da ajuda humanitária que chega do Ocidente e do Golfo para se manterem. O resto sobrevive graças às remessas de seus familiares refugiados ou imigrantes no exterior. Aos aluguéis soma-se o custo da água e da eletricidade, que se tornaram os serviços com maior demanda em uma região onde não sobra um só ampere e onde as torneiras só despejam água uma vez a cada dez dias. Os donos de geradores privados cobram o equivalente a pelo menos 40 reais por mês por uma transmissão de quatro horas diárias de eletricidade capaz de alimentar simultaneamente uma lâmpada e o carregador do celular. “Temos ajuda e financiamento a cada poucos meses. A prioridade é para os mais vulneráveis, como viúvas ou órfãos”, explica Abu Alaa, funcionário de uma ONG em Idlib. A maior parte da ajuda humanitária se concentra, no entanto, nas terras que fazem fronteira com a Turquia, sobre as quais se aglomeram mais de 100.000 refugiados em acampamentos espalhados aos pés de uma fronteira lacrada.

Os civis estão expostos aos confrontos entre facções armadas

A terra em Idlib é das mais férteis do país e, portanto, capaz de autoabastecer os mercados com legumes, verduras e grãos. As prateleiras das lojas são reforçadas com produtos manufaturados na Turquia. Tendo em mente as leis de oferta e demanda, os jihadistas aproveitam o fechamento imposto por Ancara em sua fronteira sul para faturar consideravelmente. “Há quatro pontos de cruzamento entre a província de Idlib e a Turquia. A Ahrar el Sham controla o posto oficial de Bab el Hawa e o Al Nusra controla as outras três passagens ilegais, com as quais embolsa uma boa quantidade de dinheiro pelo contrabando de armas, mercadorias e a entrada ilegal de pessoas”, explica, por telefone, Nawar Oliver, especialista em assuntos militares do Centro de Estudos Omran, de Istambul. Os traficantes cobram o equivalente a até 4.000 reais por pessoa para uma passagem ilegal pela fronteira.

Os moradores de Idlib afirmam que este bastião insurgente está sob o comando compartilhado da milícia islâmica Ahrar al Sham e da coalizão Tahrir al Sham (liderada pelos jihadistas do Al Nusra e antiga filial da Al Qaeda na Síria), confrontados por facções menores. “Depois das 21h, Idlib se torna uma cidade-fantasma. Sem luzes nas ruas, tanto civis como armados temem a escuridão”, afirma Mahmud. A “polícia livre”, corpo dependente do Governo opositor sírio instalado na Turquia, limita-se a resolver as disputas entre moradores. Até mesmo se isso implica em levar mais de uma pessoa a julgamento ou para detrás das grades. “Mas são incapazes de interferir nos assuntos das facções armadas nem conter a crescente criminalidade e os sequestros”, lamenta Mahmud.

Bombardeados pelo céu, os civis também são presas da violência em terra, fruto das disputas entre facções que se enfrentam por cotas de poder e por questões pessoais. Após sobreviver ao cerco de Aleppo, para Um Fateh a principal preocupação eram os estudos de seus filhos, “porque já estavam bem atrasados”. Hoje, assim como para as complexas alianças internacionais que decidem seu futuro longe de sua terra, as prioridades mudaram: “Vi nos olhos das minhas amigas a dor inconsolável de perder um filho. Como mãe só me importa que meus filhos continuem vivos, cresçam e que algum dia sejam capazes de expulsar da memória todos os horrores que presenciaram”.

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